Comichões de Inquérito

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A televisão de sinal aberto resolveu criar um canal de comédia acessível a todos. Como sempre neste país, as coisas boas acontecem fora de tempo. Fixe, fixe, quase a fugir para o espectacular, teria sido se o tal canal tivesse tido a presente grelha quando a malta estava fechada em casa e impedida de circular. Entre a ingestão desmesurada de calorias sob as mais diversas formas e as idas ao WC para justificar o investimento faraónico feito em papel higiénico o ano passado, sempre se dava uma espreitadela a essa coisa bem-humorada que se chama de AR TV.

Deixem lá explicar como é que a coisa funciona. É uma espécie de “reality show” em que os residentes estão fechados numa sala e aparecem lá uns convidados a contar umas estórias relativamente a um enredo pré-definido. No caso optaram por lhe chamar Comissão eventual de inquérito parlamentar às perdas registadas pelo Novo Banco e imputadas ao fundo de resolução.

Nome pomposo que faz logo lembrar os filhos do D. Duarte, com quinze apelidos e constitui um excelente jogo de memória. Para simplificar, chamaram-lhe CPIPRNBIFR o que mais parece a senha de acesso do e-mail do Rui Pinto. Qualquer um de nós lhe chamaria CEIPPRPNBIFR, mas estas coisas do “marketing” digital são muito mais complexas do que parecem. Fosse eu e chamar-lhe-ia LADRÕES ou GATUNOS, mas percebo que sendo eles tantos, os telespectadores pudessem entrar em confusões.

Ainda assim a ideia é excelente e os tipos têm mesmo muita graça. Uns fazem cara de sério e umas perguntas que até parecem complicadas – o que deixa o telespectador em “suspense”, agarrado ao sofá a pensar: “Pimba! E agora como é que te vais safar desta?”. Também o guarda-roupa é bem escolhido, estando a maior parte do pessoal com fatos acinzentados e gravatas (eles) ou com blusas e casacos que muito protegem o decoro (elas), o que lhes dá um ar muito mais credível e implacável. Não está o leitor a ver uma pergunta deste calibre ser feita por uma jovenzinha de “leggings” justos ou um marmanjão todo tatuado e de boné ao lado, pois não? A coisa perdia logo a dignidade e, diga-se, o que os argumentistas, aqui, o que pretendem é um “striptease” de alma e não o “teaser” carnal dos dotes físicos. À excepção do farfalhudo bigode do LFV, a coisa tem sido muito contida quanto a vislumbres de partes do corpo.

“Suspense” criado, pipocas paradas a meio do caminho entre o balde e boca, está-se à espera que o convidado comece a transpirar, a corar, a jorrar lágrimas como se não houvesse amanhã, e o tipo, com uma expressão seráfica remata uma pérola daquelas que ninguém estava à espera. Os residentes pasmam. A cara do presidente da casa parece uma espécie de “freeze” televisivo, sem aquela parte em que a imagem treme. Feito que apenas está ao alcance dos melhores mimos. Às vezes as respostas são tão boas que até quem fez a pergunta se estraçalha a rir, o que me faz crer que aquilo não estava ensaiado. Puro improviso – do melhor que tenho visto. “Chapeau!”.

No demais é a confirmação portuguesa do “american dream”. Uns quantos coitados, que pouco mais têm que uma garagem, de repente, surgem a esbanjar milhões, com relógios que custam apartamentos em várias capitais de distrito. Mais: aquilo é um misto da Casa de Papel com um espectáculo do Luís de Matos: o guito desapareceu, ninguém sabe como, nem para onde foi. Há um tipo importante – um tal de regulador a quem chamaram de BdP – muito conhecedor destes truques e nem ele foi capaz de descobrir peva. Notável.

A coisa estava era a perder um bocado o interesse porque os convidados parecia que tinham sido assolados por um surto colectivo de amnésia. Mas logo se resolveu, quando sacaram da cartola um tipo que se indignou por ficar em segundo. O homem nem se acreditava, perguntando repetidamente, à espera que alguém lhe confirmasse que se tratava de uma brincadeira. Sentiu-se altamente injustiçado, até porque tinha ido para um clube a pedido de outros, pensando que isso lhe iria garantir alguma vantagem. Houvesse um VAR bancário e ele teria clamado por ele. Hilário!

É o Bruno Nogueira a tentar novos formatos. O RAP com uns trocadilhos e caretas cómicas. O Herman com 40 anos de carreira a reinventar-se. E estes desgraçados, da noite para o dia, cilindram-nos a todos. Há meses e diariamente. 

Maltinha: os meus parabéns! Clap! Clap! Clap! ■