Palestina: David e Golias

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No momento em que começo a escrever esta crónica, já morreram na faixa de Gaza, provavelmente perto de 200 pessoas, segundo as informações avançadas pela Autoridade Palestiniana bem como pelas poucas ONGs que se encontram no terreno. Da parte israelita a informação avançada é que houve cerca de 11 vítimas mortais. Sejamos honestos. Temos aqui duas guerras, ambas mortíferas e ambas sem fim à vista. A primeira, a que aparece nos telejornais do mundo inteiro, faz vítimas e causa escombros, a segunda confunde e alimenta a primeira. A guerra da informação e desinformação. Como se costuma dizer e bem: a primeira vítima da guerra é a verdade.

Dizia Golda Meir, uma das fundadoras do Estado de Israel: se a questão fosse fácil, o problema estaria há muito resolvido. Mas não é. Infelizmente esta questão é uma questão quase bíblica. Vem do tempo de Moisés. Por esta terra passaram dezenas de povos e alguns dos mais importantes impérios da história. No entanto vamos avançar já para o século XIX.

Nos finais do século XIX, a Palestina era uma província do decadente império otomano e Jerusalém, sua capital, destino de peregrinação das três grandes religiões monoteístas. Um grande negócio. Por esta altura começam os famosos “pogroms”, que deram origem a um novo êxodo, desta vez não com origem no Egipto, mas na Europa Central e na Rússia. O destino era, contudo, o mesmo: a Palestina.

Este novo êxodo só acabou com a II Guerra Mundial. Por esta altura a Palestina já estava a ferro e fogo com a administração inglesa a tentar conter a violência entre árabes e judeus recém-chegados.  

A 14 de Fevereiro de 1947, no rescaldo do Holocausto e esgotados pela guerra, os ingleses solicitam às recém-criadas Nações Unidas a criação de uma comissão (UNSCOP) para determinar o futuro da região. Quatro meses mais tarde a UNSCOP propunha a criação de dois estados, ficando Jerusalém sobre administração internacional. Ben-Gurion aprovou o plano, aceitando a perda da cidade santa como o preço a pagar pelo novo Estado. 

O Alto Comissariado Árabe, apoiado pela Síria, pelo Iraque e pela Arábia Saudita, rejeitou a divisão exigindo um estado único, unificado e independente. A 14 de Novembro de 1947 a proposta foi votada nas Nações Unidas. A resolução 181 obteve os votos favoráveis de trinta e três países com os Estados Unidos e a União Soviética à cabeça, votos contra de 13 países e 10 abstenções entre os quais se incluiu a Grã-Bretanha. O primeiro estado a reconhecer Israel foi a União Soviética. No território propriamente dito, com toda uma população árabe suspensa e agarrada às rádios, fez-se um silêncio de morte, quando esta decisão se tornou pública. 

Os árabes recusaram-se a aceitar que as Nações Unidas, a nove mil quilómetros de distância, tivesse autoridade para dar forma ao seu país, pois 94 por cento do território era ainda propriedade de 1,2 milhões de palestinianos, sendo os judeus cerca de 600 mil. Ambos os lados se prepararam para a guerra e o resto é do conhecimento público.

Hoje temos dois milhões de palestinianos encurralados em talvez dez por cento do território original, sem água, sem exército, cercada por um muro de vários metros de altura, construído aos zigue-zagues, por onde passam diariamente milhares de trabalhadores.

De um lado temos um dos exércitos mais poderosos do Médio Oriente, do outro temos pedras, paus e “rockets”, bem como miúdos esfarrapados e suicidas prontos a fazerem-se explodir.  

Uma Palestina unificada e completamente democrática, regida por um estado laico, com respeito por todas as religiões e credos, com escolas para todas as crianças, onde TODOS sejam iguais perante a lei, é uma utopia, mas como muitas outras que se tornaram realidade, o único caminho possível. Existe neste momento um Mandela local, Miko Pelled que há mais de 40 anos se lançou no caminho da reconciliação e paz. Vem de uma família de militares, pois o seu avô combateu ao lado de Ben Gurion e o seu pai fez parte do Alto Comando Militar aquando da Guerra dos Seis Dias; ele sabe por experiência própria que violência apenas gera violência. Para melhor entender esta questão vale a pena ler a sua biografia “The General’s Son”. ■