Greves: O povo é revolucionário, mas não racional!

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As desatenções, na maior parte das vezes, pagam-se caras!

A oposição podia andar desatenta, porque mergulhada em sono profundo há anos, até que Rio, por decreto, entendeu que a deveria ressuscitar em vésperas de eleições internas. Não foi ao terceiro dia, foi para lá do terceiro, mas está bem, porque por cá gostamos de fazer as coisas com calma. A comunicação social percebe-se que andasse desatenta, porque ainda estava a pensar como distribuir as “ajudas” financeiras com que foi presenteada pelo Governo. Marcelo, andava seguramente desatento, porque a quantidade de unicórnios cor de rosa que habitam o seu mundo não lhe permitem ver o país real. Aliás, não lhe permitem ver seja o que for que não um universo onírico que se traduz em “selfies”, comentários ocos e todo um monte de areia que se lhe escapa entre os dedos. Já Costa não confia as viagens ao motorista de Cabrita, por isso, raramente anda desatento. Costa lê os sinais nas conchas de candomblé, sentando-se à mesa com os orixás, sendo dono da alma dos mortos. Muito antes das coisas acontecerem, já ele as entreviu, seja por premonição, por poderes mediúnicos ou, simplesmente porque as fez acontecer. Quem vira frangos há tanto tempo até é capaz de fazer as brasas com água… Isto, a propósito do chumbo do orçamento.

Não contando com a direita, por opção, condenando o Bloco à imolação nas urnas, monitorizando um PAN agora em estufa (ele há “timings” noticiosos muito curiosos), restava um PCP como bóia de salvação de um orçamento medíocre e não querido. O caminho fez-se a preceito, com avanços e recuos que não passaram de encenação e fogo fátuo. Privados do fogueteiro sanjoanino, houve o fogacho negocial com o parceiro predilecto para entreter o povo. Mas os sinais, esses, estavam lá há muito. Os resultados eleitorais apenas serviram para que a dama se fizesse mais cara, quando, na verdade, Costa já não queria dançar.

Olhe-se para a curva das greves em Portugal. Nos primeiros quatro meses do ano existiram mais pré-avisos de greve do que em todo o ano de 2020, e o segundo trimestre foi pródigo. Para que se tenha uma ideia, em Junho já íamos em 308. Contas de merceeiro, dá cerca de duas greves e meia por cada dia útil… Até Março, quase sessenta por cento dessas greves ocorreram no sector empresarial do Estado. Não é segredo para ninguém que os sindicatos (nomeadamente os sindicatos afectos ao sector público) são controlados pelos comunistas. O resultado da equação era fácil de adivinhar, até porque a história já trazia lições: em 2014, andava a “troika” por cá e estava Passos no Governo, existiram 619 pré-avisos de greve (dos quais 247 no SEE). Em 2019, as greves atingiram números gordos (1077, ou seja, sensivelmente, 4,2 greves por dia útil). No entanto, como era ano de eleições e a “geringonça” (ainda) era tango dançável, só 220 se deram no sector empresarial do Estado… Ou seja, andava o país todo revoltado, em protestos e paralisações sucessivas e os sindicatos afectos ao PCP quedos e mudos… Este ano foi o que se sabe com os médicos, enfermeiros, farmacêuticos do SNS, bombeiros, guardas prisionais, professores, funcionários públicos, trabalhadores das finanças, oficiais de justiça, serviços consulares, no metro, no lixo, no SEF, nos transportes, enfim… mantendo-se as greves até depois do chumbo orçamental e com o Governo limitado no seu poder negocial. Neste caso, paradigmático e quase de lesa-pátria, não porque se espere que se chegue a qualquer consenso, mas com o único propósito de causar desgaste a Costa, condicionando os resultados eleitorais.

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