Inquisição Politicamente Correta

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Possivelmente num sábado, dia 1 de Junho do longínquo ano de 1968 (logo a seguir ao terrível Maio), o Pai deste vosso amigo chegou a casa. Entregou uma revista a cores: “Esta revista começou hoje. Diz aqui que é para os jovens dos sete aos setenta e sete. Como tens sete, é para ti”. Era o primeiro número publicado em Portugal do semanário “TINTIN”.

O autor destas linhas foi um leitor fiel da revista até ao ano de 1977/78. Nessa altura, havia já muito que as aventuras tinham sido substituídas por histórias esotéricas, tipo “New Age”, totalmente com personalidades divergentes dos primeiros heróis. Nomeadamente, em 1975, com o lançamento do anti-herói “Corto Maltese”. Obviamente, não o mais indicado para o público infanto-juvenil. O que terá sido uma das razões da falência da revista.  

Esta evocação, algo nostálgica, vem a propósito duma situação verdadeiramente alucinada: a censura efetuada, entre outros, aos livros do “Tintin”, do “Asterix” e do “Lucky Luke”. Expoentes da BD francófona. Exatamente, na “Nova França”, ou seja, no Quebeque.

E a ideia da “proibição” partiu duma escola católica. Deve estar na linha dos que, nos anos 60 e até 1975, diziam que o Comunismo era o “Reino de Deus na terra”. Que falavam num” Cristo guerrilheiro”. Como o grupo satélite do PCP, em 1975, denominado “Cristãos para o Socialismo” (“Cristões para o Socialismo”, dizíamos depreciativamente).

Essa escola de católicos, tipo “São Che Guevara”, obteve a passividade do primeiro-ministro liberal. O menino da “esquerda caviar”, Justin Trudeau, declarou que “pessoalmente” não concordava com a queima de livros. De resto, “funciona a autonomia escolar”, diz o menino rico liberal. “Laissez faire, laissez passer” – ou seja, deixa andar.  

A censura digna dos comissários da Revolução Cultural Chinesa não consiste em retirar as obras da circulação. Tratou-se de destruir, queimar, os álbuns. Porquê? Resumidamente, esses autores contêm figuras tipificadas, ridicularizam os índios e até os esquimós” (!). São” sexistas”, “racistas” e “eurocêntricos”. Como uma vez disse ao autor destas letras um “intelectual” portuense: o Tintin é paternalista. É o branco que salva os não europeus (álbum “Carvão no Porão”, o primeiro que vem à ideia). O que, pelos vistos, é mau!

O livro de texto “Asterix e os Índios”, pelos vistos, é perigoso. Apresenta uma jovem índia, de minissaia, apaixonada pelo “Obelix”. O que dá uma ideia de “facilidade” das mulheres indígenas. Pelo menos, segundo uma Suzy Kies, da “Comissão de Revisão”. Outra história que foi proibida foi a da “Pocahontas”. Declara a referida porta-voz que a “Pocahontas é muito sexual e sensual” (que carga erótica!), o que para as mulheres nativas é perigoso! O que está na linha do inteligente comentário da deputada Isabel Moreira. Ou seja, o medo que as mulheres têm da perigosidade física da Direita em Portugal.

Relembrando o historial da revista, chegamos à conclusão que muitos dos heróis que foram aparecendo, à luz desse inteligente critério, teriam tido as histórias censuradas. Dos publicados até 1974/75, quase todos. 

Um dos heróis quase iniciais, foi o “Bernard Prince” (lê-se à francesa), o ex-agente da Interpol que corre o mundo no seu barco alternadamente cargueiro e iate, acompanhado por um marinheiro zaragateiro e beberrão. Tem como grumete um adolescente indiano, de quem é tutor. As aventuras na América Latina e na Polinésia mostram tipos “nativos” muito caraterísticos. Figuras típicas de masculinidade, “paternalismo” em relação ao Terceiro Mundo, eurocentrismo.  CENSURA!

Mais à frente, apareceu “Corentin”, adolescente bretão, louro, de olhos azuis que, no início do século XVIII, parte à sua conta para a Índia. Mostra os indianos, hindus e principalmente muçulmanos, com caraterísticas muito vincadas. Ou seja, desenha-os como eles eram. Mais um colonialista, portanto.  

É aceite na corte dum rajá. Estando em inícios de década de 70, numa das aventuras enfrenta o que seria um agente russo (dos czares). Que em tempos de Guerra Fria, era uma referência à expansão soviética (Russo=Soviético=Comunista). Colonialista, com laivos de anticomunismo primário, portanto. CORTA! 

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