Indignados, mas imbecis!

“Há nos confins da Ibéria um povo que não se governa nem se deixa governar” Caius Julius Caesar (100-44 AC)

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Ainda Cristo não tinha nascido, tratava Júlio César de expandir o Império. Nas incursões para Oeste, durante as guerras púnicas, assentou pés na Península Ibérica. As tribos locais, tradicionalmente aliadas de Cartago, ofereceram feroz resistência. Viriato, que havia liderado fugazmente os resistentes, já havia perecido. Os romanos, habituados a uma organização secular, a uma sociedade estratificada, a um conjunto de leis e regras sociais, rapidamente perceberam a total falta de apetência para que os lusitanos fossem governados. Como a mestria social impõe regras a quem manda, mas também a quem é mandado, rapidamente os romanos deram corda às cáligas e trataram de se por a caminho, deixando-nos abandonados à nossa sorte. Séculos mais tarde, um tal de Afonso, deu duas galhetas bem assentes na tromba da mãe espanhola e por cá nos aguentamos mais uns anos. Lá para fins de 1500, depois de andarmos a fazer filhos lá fora e por linhas genealógicas transversas, levámos com uns Filipes que se puseram a desbaratar a coroa com avidez tal que só encontra paralelo no Sócrates do século XXI. Grosso modo, de forma atómica, pode contar-se assim a História de Portugal. A estória de um povo que não se governa, nem se deixa governar. De um povo que nasce indignado, moureja todo o dia, indignado, come, bebe e diverte-se, indignado. Mas a quem lhe falta o romantismo cívico da agressão. Uma colectividade pacífica de revoltados.

Ora, essa colectividade foi este fim de semana às urnas. Podia ter gritado revolta, sangue, morte ou mudança. Mas gritou mais do mesmo. Indignado! Quis que a indignação fosse ainda mais forte e legitimada, emprestando-lhe a maioria do Rei Sol. O Estado sou eu, que Costa apregoará num futuro próximo, tem o resto. O do voto de cada um dos indignados que lhe deu não a cruz que merecia, mas num boletim rectangular. Porque o povo assim o quis. Porque o povo pode. Em Portugal, as pessoas são imbecis ou por vocação, ou por coacção ou por devoção… Indignados, mas imbecis!

A leitura de Rio está correcta, de um ponto de vista analítico. Houve uma transferência de voto na esquerda. Um voto útil no PS motivado por sondagens (propositadamente ou por mera incompetência?) falhas de acerto, por um discurso assente em mentiras e pelo receio do poder de uma extrema-direita (que não é extrema, nem tem ou teria) poder. À direita, toda uma polarização de eleitores e partidos, num crescendo que só dividiu. E uns habituais abstencionistas que terão sofrido efeitos adversos da terceira dose. Mas isto não explica tudo. Aliás, isto quase não explica nada.

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