Maioria absoluta, Arrogância absoluta

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A entrevista dada pelo primeiro-ministro à revista “Visão” ficará para a história como a mais irresponsável, desavergonhada e mal-educada entrevista de que há memória.  Mostra, além disso, a sua total ausência de sentido de Estado e de rigor intelectual e político como governante, seja por aquilo que disse, seja pelas questões que iludiu e, sobretudo, pela fuga a justificar as dificuldades do país. No essencial é o retrato de um primeiro-ministro mais interessado em bater nas oposições do que em apresentar soluções. Na Saúde, na Justiça e na economia, António Costa prefere ameaçar os portugueses com a sua presença durante mais quatro anos quando afirma: “vão ser quatro anos, habituem-se”.

Muita gente considera isso como um notável exemplo da habilidade política do primeiro-ministro, semelhante, diga-se, há habilidade elogiada anteriormente e pelas mesmas razões a José Sócrates, previsivelmente com os mesmos maus resultados. Mas avancemos para a análise crítica do que foi dito, o que não é uma tarefa fácil devido à imensa verborreia das respostas dadas, cuja intenção é semelhante ao pintor que pinta um quadro idílico de uma paisagem que só ele vê.

Balanço da governação – foi a primeira pergunta feita referente aos últimos nove meses, quando o balanço a fazer seria sobre os sete anos que António Costa já leva como primeiro-ministro. A resposta foi típica: “tivemos de enfrentar uma guerra e uma inflação galopante, mas aprovámos dois Orçamentos do Estado e fizemos dois acordos de médio prazo, que asseguram previsibilidade aos agentes económicos e aos trabalhadores relativamente à evolução dos seus rendimentos nos próximos quatro anos”. Infelizmente, a realidade é bem diversa: os portugueses não sabiam que o país está em guerra, mas sabem que a inflação está longe de ter sido enfrentada, de facto sofrem-na tragicamente com o crescimento da pobreza, da fome e com o crescimento dos seus rendimentos inferiores à inflação. Quanto à previsibilidade, António Costa acaba por dizer mais à frente: “Vivemos, como alguns dizem, uma ‘era de incerteza’”.

Nove meses de polémicas – foi outro dos temas a que António Costa respondeu desta forma: “Não diria ‘polémica’. Para isso tem de haver dois contrapontos. O que há é muito ruído na bolha mediática. Mas os portugueses estão mais focados na sua vida. E o que compete ao Governo é preocupar-se com os portugueses e não com os problemas levantados pela bolha mediática”. Ou seja, que o Governo se preocupe com os portugueses parece tão normal como estes a preocuparem-se com a sua vida, o que não é normal é que o Estado os deixe morrer nos fogos, ou pela ausência de cuidados de saúde, ou que a mortalidade aumente, ou que a juventude fuja, ou que os sindicatos façam mais greves, o que só pode ser interpretado como ingratidão dos portugueses para com a preocupação de António Costa. Aliás, foi a bolha mediática, alimentada pela máquina de propaganda do PS, que lhe deu a maioria absoluta nas últimas eleições, maioria festejada durante toda a entrevista, certamente a mesma bolha que faz com que metade dos portugueses já não votem. Será que os casos de corrupção de membros da família socialista, relatados pela comunicação social ao longo dos anos e durante os últimos nove meses, fazem parte dessa bolha?

Crescimento económico – Depois de “arrumar” os líderes da oposição como um grande objectivo nacional, António Costa diz: “Toda a gente anda muito apaixonada pelo crescimento do PIB. Ora, entre 2000 e 2015 nós crescemos a uma média de 0,2%. Qual é a média de crescimento dos últimos sete anos (e, aqui, já incluo o período de brutal recessão do Covid-19) cerca de 2%! Crescemos acima da média europeia todos os anos, desde que sou primeiro-ministro, excepto em 2000. Estamos a aproximar-nos dos países mais desenvolvidos da União Europeia. Sei que, agora, muitos preferem comparar-nos com os menos desenvolvidos. Mas acho que devemos comparar-
-nos com os mais desenvolvidos!”. Aqui entra a desonestidade intelectual típica de António Costa, porque ele sabe que os países desenvolvidos crescem muito pouco e que a diferença entre nós e eles é enorme, o que a este ritmo de crescimento levaremos oitenta ou mais anos até podermos sonhar chegar a esse nível e que os países que nos estão a ultrapassar estavam anteriormente muito atrás de nós e que, com a mesma pandemia, encontraram forma de crescer mais do que nós, ou seja, chegarão ao nível dos mais desenvolvidos antes de nós. Apesar desses mesmos países desenvolvidos nos estarem a financiar.

Saúde – É neste sector que António Costa mostra toda a sua impreparação para resolver os desafios que o país enfrenta, quando diz: “Não podemos dizer que não é estrutural um aumento da dotação para a Saúde que nestes sete anos foi de 56%. O orçamento para 2023 é 56% superior à dotação inicial do orçamento da Saúde em 2015 – são mais 4.400 milhões de euros.” Para António Costa atirar mais dinheiro sobre um problema são reformas estruturais, ou seja, o que se pode esperar de um primeiro-ministro que pensa e actua desta forma? Para António Costa a única variável da governação é colocar mais ou menos dinheiro nos problemas, seja porque não tem nenhuma ideia sobre investimento, organização, tecnologia ou qualidade e motivação dos recursos humanos. É óbvio que a má posição do país no contexto da União Europeia tem muito a ver com este nível de ignorância e de fuga à realidade de António Costa.

Corrupção – A todos os casos de corrupção já conhecidos, ou à simples manipulação democrática, António Costa chama “casos e casinhos” plantados pela comunicação social. Recentemente, António Costa fez uma rábula de indignação relativamente à vice-presidente do Parlamento Europeu que terá recebido dinheiro para promover o regime político do Qatar, ainda que sem referir os dois deputados socialistas que fizeram parte da mesma promoção. Mas dessa vez o primeiro-ministro não achou necessário fazer a sua habitual recomendação de que há justiça o que é da justiça, que reserva para ignorar o que se passa no domínio da corrupção em Portugal. De facto, António Costa tem sido o maior defensor da corrupção, que transforma na entrevista em “casos e casinhos”, parte desse esforço de manter a corrupção sem combate ético e político e de proteger os corruptos.

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Em resumo, esta entrevista do primeiro-ministro representa a confirmação de que António Costa não melhorou muito durante a sua longa carreira política, a sua maior preocupação continua a ser a manutenção do poder político do PS, com as suas idas ao banco para receber o maior volume possível de fundos europeus e proteger os interesses da grande família socialista e de todos aqueles que giram ao seu redor. Neste contexto, a preocupação com o facto de Portugal se atrasar entre as nações europeias é apenas secundária e para isso inventa um país que ele sabe bem não existir. Pelo meio, como qualquer outro político pouco consciente, distribui o dinheiro suficiente para matar a fome aos mais necessitados para que, através do voto, o mantenham no poder. Infelizmente, como mostrado graficamente e de forma magistral no último número deste jornal, o seu fim será afundar-se e afundar o país.