Manual de instruções para um bom esquerdista

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Quando, duas semanas após o meu segundo aniversário, os meus pais resolveram ofertar-me um irmão, confesso que fiquei bastante desiludido. Um pónei, um triciclo ou até uma bola de futebol, aceitava-se. Agora, um bebé de 50 centímetros, altamente cabeludo, meio “achinocado” e que pouco mais fazia do que passar o dia colado à mama da minha mãe, não tinha grande serventia. Ainda hoje, quase meio século volvido, subsiste um certo remoque pelo presente tardio de aniversário. Porém, o tempo é sempre bom conselheiro e a malta vai afinando o olho e percebendo outras utilidades para o que, à primeira vista, nos parecia destituído de qualquer função. Vai daí, já gaiato, entre o apontar do dedo, indicador bem esticado e um linguarejar titubeante e sincopado em longas explicações, sempre saía um claro e cristalino “foi o mano”, quando os ventos me eram menos favoráveis.

A boca cheia de “Nesquik”, dentes castanhos até aos caninos que começavam a despontar, os dedos impregnados de pó achocolatado e um sério: “foi o mano!”.

O vaso partido, a bola ainda aos meus pés, o respirar ofegante, a transpiração a escapar por todos os poros e o dedo esticado, pleno de convicção: “foi o mano!”.

A mira mal apontada ao pote, salpicos ao redor a fazer lembrar estilhaços de morteiro, três ou quatro pingas nas calças de quem ainda não conhece bem os “timings” e mecânicas dos esfíncteres, nariz apontado ao berço a acompanhar um trejeito de pescoço: “foi o mano!”. 

O mano não se mexia – salvo seja! O mano estava confinado a um berço de barreiras altas e só podia espreitar por entre as frestas de madeira. O mano não tinha voz e as goelas emitiam sempre o mesmo som estridente, gutural, em soluços compassados para respirar. Admite-se que o mano tinha bons pulmões e se fazia ouvir pela casa. À parte disso, o mano não interagia, não se punha de pé, não brincava, nem partilhava das minhas euforias, traquinices ou gostos. Em bom rigor, julgo que o mano nem me conhecia. Conhecia a minha mãe, porque nela habitara antes, e provavelmente o meu pai, dono de farta barba, coisa que nos fica sempre no olho. Por mais pequeninos que sejamos. Agora, o outro puto, o que dividia amores, amuos e atenção, mas nem em bicos de pés se conseguia mostrar no campo de visão das amuradas do berço, népias. Mas o mano existia. E existir era condição bastante e suficiente para poder ser culpabilizado.

O mano seria uma NATO, uma ONU, uma EU, ou qualquer coisa do género. Um ser muito mais abrangente do que aquilo que a sua presença física continha. Já eu, seria, seguramente, comunista, como são todas as crianças inocentes e pueris. Com voz, com presença, com movimento, toda uma massa ululante e destrutiva, mas ausente de responsabilidade. E dono de justificativas cândidas, de lógicas e teorias oníricas e da martirização corporizada na carne. E seguia feliz, passando esponjas nas acções, muito mais eficazes que qualquer produto de limpeza anunciado na televisão, encarnando o milagre da curta memória.