Comunistas autistas já não enganam ninguém

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A invasão da Ucrânia teve o condão de desmascarar o PCP na praça pública, deixando-o na incómoda posição de mentir escandalosamente à vista de todos. A insistência de Jerónimo Sousa numa versão surrealista segundo a qual a guerra de agressão do exército russo em território ucraniano se deve à “intensificação da escalada belicista dos Estados Unidos, da NATO e da União Europeia” ultrapassou todos os limites, e até militantes comunistas de muitos anos se mostram perplexos e revoltados.

Na última semana, num comício no Campo Pequeno, em Lisboa, o líder do Partido Comunista voltou a insistir numa versão “autista” totalmente desligada das realidades e vergonhosamente contrária àquilo que toda a gente vê com os seus próprios olhos, todos os dias, nas televisões de todo o mundo. 

Para Jerónimo, a guerra russa de agressão contra a Ucrânia é instigada “pela administração norte-americana e o seu complexo militar-industrial para desviar atenção dos problemas internos”. O líder comunista português prosseguiu fazendo-se de vítima, ao afirmar que a agressão russa está a servir de “pretexto para uma nova campanha anticomunista”.

Sentindo que as versões da guerra dadas por vários dirigentes comunistas nas últimas duas semanas não estão a ser aceites, nem mesmo no seu próprio partido, Jerónimo fez questão de dizer no Campo Pequeno: “O PCP não apoia a guerra. Isso é uma vergonhosa calúnia. O PCP tem um património inigualável na luta pela paz. O PCP não tem nada a ver com o Governo russo e o seu Presidente”.

Mas era difícil, mesmo com muito boa vontade, acreditar nestas palavras, quando logo a seguir Jerónimo acrescentou que a culpa do conflito é dos Estados Unidos da América, por terem adoptado uma “estratégia de escalada armamentista e de dominação imperialista” e promovido um “golpe de Estado” na Ucrânia em 2014, “que instaurou um poder xenófobo e belicista”. E rematou defendendo “o reforço da luta contra o fascismo e a guerra, contra a escalada de confrontação, as agressões e as ingerências do imperialismo, contra o alargamento da NATO e pela sua dissolução, contra a militarização da União Europeia, pelo fim das sanções e dos bloqueios, pela paz e o desarmamento no mundo, pelo fim das armas nucleares, pelo respeito dos direitos da soberania dos povos”.

Este delírio cínico teve a contra-prova logo dias depois, na Câmara de Lisboa, aquando da votação de uma recomendação da Assembleia Municipal sobre acolhimento de refugiados ucranianos. Colocando-se de novo no centro da polémica, o PCP votou contra. 

A Assembleia Municipal de Lisboa debatia uma recomendação (por sinal, apresentada pelo Bloco de Esquerda) de solidariedade com o povo ucraniano, defendendo a adopção urgente de medidas para apoio e recepção a pessoas refugiadas. A moção propunha ainda o apoio a sanções contra a oligarquia russa.

A recomendação bloquista propunha, entre outras coisas, que «seja feito um esforço para que as famílias se reencontrem quando vêm da Ucrânia para cá, para o reagrupamento familiar». A moção ia mais longe, pois defendia também que “recebamos não só quem foge da guerra da Ucrânia, mas também aqueles que na Rússia se manifestam contra a guerra e por isso estão a ser perseguidos”.

A moção acabou por ser aprovada por uma ampla maioria, mas contou com o voto contra dos deputados municipais do PCP. Tentando explicar o inexplicável, o antigo eurodeputado comunista João Ferreira explicou no mesmo dia, na rede social Twitter, que o seu partido entendia que «importa não tratar a situação dos refugiados de forma restritiva ou discriminatória, abrangendo apenas alguns cidadãos em algumas circunstâncias”.

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