Marcelo esteve bem nas negociações do OE?

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Podemos dormir descansados

por José Guilherme de Oliveira

A direita (pelo menos alguma dela), órfã de líder, anseia e quase exige que o Professor Marcelo ocupe o lugar.

Para isto contribuiu a oposição “sonsa” de Rui Rio que, além de procurar recentrar o partido disputando o centro-esquerda com o PS, largando expressamente a direita a quem a apanhar, assumiu que aceitaria com gosto amancebar-se com o Governo. Ninguém entende… Não se questiona a sua honestidade, nem o patriotismo que o Pacheco Pereira lhe coloca na lapela, mas espera-se outra coisa do maior partido da oposição.

Para dramatizar o cenário, o CDS definha. O Francisco Rodrigues dos Santos tenta ser credível, assertivo, carismático, institucional, ufano de vitórias que não teve, é um tipo que “quer muito ser”, mas não é.  Um traquina, que esbraceja e estrebucha procurando manter a cabeça fora de água. Falta gabarito a esta gente. 

Perante isto, a IL e o Chega podem espraiar-se à vontade, cada um à sua maneira.

O lugar está vago, mas o Presidente Marcelo, e bem, recusa ocupar o lugar.

O Professor Marcelo, o Presidente Marcelo, o Marcelo, ou (como um amigo o costuma apodar com graça) “… o filho do Baltazar, em homenagem ao pai…”, seja qual for a veste, é conhecido de todos os portugueses, que lhe identificam as idiossincrasias, reconhecem os defeitos e as virtudes. Ele próprio não se alterou pela função, embora volta e meia, no quotidiano, destape o comentador que há em si, a intrigazinha latente, um cinismozinho que espreita, mas o seu magistério é largamente positivo, institucional e essencialmente inatacável.

Nunca escondeu de onde vem, sem que isso tenha impedido a equidistância exigível à função.

A sua magistratura é, pela sua natureza, de influência, não se lhe peça outra coisa.

O regular funcionamento das instituições democráticas cabe-lhe e ele tem feito para que assim seja.

Em toda esta crise política, agora inegável, o seu comportamento tem sido irrepreensível do ponto de vista do exercício das suas funções. O Presidente apelou os partidos à sua responsabilidade, fizeram-se escolhas, tiraram-se consequências, esperam-se em seguida tempos conturbados, com mais ou menos altercações, conflitos e tricas, mas ainda bem que temos este Presidente.

Podemos dormir descansados.

Nunca se viu tamanha ingerência

por Diogo Gil Gagean

A vichyssoise está de volta ao menu. O velho Marcelo do “lelé da cuca” regressa triunfante e imparável ao panorama político nacional, tocando, comentando e pressionando tudo o que “mexe” no OE de 2022. O professor que em 2016 uniu toda uma direita à volta da sua figura, demonstra mais uma vez que não consegue ser um actor secundário em nenhuma matéria.

Não existe acto mais político do que um Orçamento de Estado. Marcelo deveria ter-se abstido desde o início de comentar, mas não. Desde a génese das conversações que iniciou uma pressão intolerável sobre a extrema-esquerda para aceitar o OE, sob a ameaça (agora aparentemente concretizada) de novas eleições, esquecendo-se das formalidades inerentes à dissolução da AR. Os conselheiros de Estado devem estar felicíssimos.

Seguramente que o PR Marcelo chumbaria numa oral realizada pelo Professor.

O contacto directo com deputados e a pedinchice ao PSD Madeira não só envergonham o cargo que ocupa, como envergonham qualquer português. 

Ora o distinto professor de Direito Constitucional, deveria melhor do que ninguém conhecer os seus limites formais. Nunca na Terceira República se viu tamanha ingerência de um Presidente na vida política nacional. Marcelo levou a sua magistratura de influência para limites inaceitáveis.

A reunião com Paulo Rangel ainda deu a sensação de que o PR estaria a conspirar contra Rio e a encontrar uma melhor solução contra Costa. Mas desenganem-se os mais distraídos, esta aparente preocupação com o PSD e alternativas mais válidas do que Rio, é apenas aparente. Ao anunciar que irá convocar as eleições para Janeiro, Marcelo tira o tapete a Rangel e a Melo, e serve apenas os interesses de Costa e do PS.

Alias, essa é a imagem de marca de um mandato e meio de Marcelo, sempre a dar a mão ao PS, sempre preocupado com a sua popularidade e sempre a procurar demonstrar que tudo fez para que existisse estabilidade.

Mas, em democracia, sem confronto e sem discussão as coisas ficam imutáveis, e Portugal necessita de uma mudança rápida e urgente.