Marcelo, Presidente do país da cunha

Mesmo que, aparentemente, apresente um ar pouco preocupado com a situação resultante das duas gémeas brasileiras tratadas em Portugal, Marcelo pode agradecer a Costa ter-se demitido no momento em que o fez.
Porque, se não fosse assim, há já algumas semanas que os órgãos de comunicação social teriam apontado baterias ao Presidente e a queda de popularidade que as últimas sondagens mostraram seria muito superior.
Há uma palavra que resume todo este caso: cunha. E até um deputado socialista, Sérgio Sousa Pinto, a emprega na sua apreciação sobre o que se passou em Santa Maria: “É evidente que houve uma cunha qualquer. Como se processou, não sabemos exactamente”.
Recapitulando, Marcelo Rebelo de Sousa é suspeito de interferência no Hospital de Santa Maria, num caso ocorrido em 2019, altura em que duas bebés brasileiras entraram naquela unidade hospitalar de Lisboa para receber um tratamento que custou quatro milhões de euros.
À “TVI”, Daniela Martins, mãe das crianças, confirmou que as então bebés, que viviam no Brasil, entraram no Santa Maria em finais de 2019 para serem tratadas, tendo conseguido obter a naturalização portuguesa, para que fossem tratadas em Lisboa. A progenitora precisou ainda que a nora e o filho do presidente da República tinham interferido a esse respeito.
A 27 de Novembro, o Ministério Público anunciou a abertura de um inquérito contra desconhecidos por suspeitas de favorecimento neste processo. O Presidente da República garantiu estar “satisfeito” e que não se iria “pronunciar sobre este inquérito”.
A 4 de Novembro, Marcelo, numa primeira reacção à reportagem da “TVI”, convidado pelos jornalistas a comentar o caso, declara “a minha nora ou o meu filho, se falaram comigo, eu francamente não me lembro”. Um mês depois, acabou por se recordar ter sido contactado pelo filho: “Apurou-se que, no dia 21 de Outubro de 2019, o Dr. Nuno Rebelo de Sousa, meu filho, me enviou um ‘email’, em que dizia que um grupo de amigos da família das duas crianças gémeas se tinha reunido e estava a tentar, a todo o transe, que elas fossem tratadas em Portugal. Era uma corrida contra o tempo”. Esse “email”, no qual Nuno Rebelo de Sousa questionava se “é possível saber se há resposta possível ou não há resposta possível sobre a matéria”, foi despachado pelo Presidente da República no mesmo dia e enviado para a Casa Civil, pretendendo-se saber se a assessora para os assuntos sociais poderia inquirir sobre o que se passava.
A “máquina” pôs-se em marcha. Procedeu-se a uma rapidíssima naturalização das gémeas como portuguesas – para poderem usufruir das vantagens do Serviço Nacional de Saúde (SNS) –, o Infarmed autorizou, em dois dias, num sábado, a utilização do “Zolgensma” em Portugal, a dois milhões de euros cada tratamento, que ainda não tinha sido autorizado a entrar no mercado português, o SNS adquiriu, por 58 mil euros, quatro cadeiras de rodas muito sofisticadas – duas entregues pelo Centro de Alcoitão e as restantes ainda por levantar no hospital.
Marta Temido, ministra da Saúde à época, sacode a “água do capote” e nega qualquer envolvimento no tratamento das gémeas luso-brasileiras e diz que não deu “qualquer orientação sobre o tratamento das crianças”; António Lacerda Sales, na altura secretário de Estado de Temido, segue a mesma linha e, sobre a insinuação da “TVI” que a consulta das gémeas teria sido marcada por um secretário de Estado, defende que “nenhum secretário de Estado, nem ninguém, tem poder para marcar consultas, nem para influenciar ou violar quer a consciência quer a autonomia de qualquer médico”.
As notícias do que se passa em Portugal rapidamente chegaram ao Brasil e Daniela Martins, a mãe das gémeas, foi recentemente entrevistada pela “Globo” negando qualquer interferência do presidente para a admissão das meninas. No entanto, no fim da entrevista, num momento em que as câmaras ainda estavam ligadas sem que ela soubesse, confirmou a investida política.
“Eu fui lá e dei de cara com a médica. Ela falou para mim que não ia dar (o remédio), que não tinha mandado eu ir lá. Aí a gente usou nossos contactos, né? Aí entrou o pistolão que você falou. Conheci a nora do presidente, que conhecia o ministro da Saúde, que mandou e-mail para o hospital”.
Cunha ou “pistolão”, parece não existirem dúvidas que, pelo menos, um destes métodos foi empregue. Abriu muitas portas e fez andar muita coisa muito depressa. Qual o verdadeiro envolvimento de Marcelo Rebelo de Sousa – o cidadão ou o Presidente – na administração de tratamento das gémeas? Provavelmente nunca se saberá. Mas os portugueses que encontram dificuldades nas urgências e outros serviços médicos do SNS, agora já sabem como proceder para serem rapidamente tratados. ■

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