Os dados estão lançados e a evolução do pensamento dos portugueses até Março ditará o nosso futuro colectivo, enquanto os comentadores nas televisões tentam tudo para influenciar a cabeça dos eleitores, fazendo de conta que as eleições são democráticas. Os programas televisivos de comentário político são uma praga, alguns comentadores sabem tudo, falam de tudo e nunca têm dúvidas, nunca se interrogam e nunca debatem as razões de Portugal, ao longo dos últimos cem anos e com dois regimes políticos tão diferentes, não sair da cepa torta e da pobreza.
A propósito de pobreza, essa continua a aumentar segundo o INE, sendo uma maravilha ver e ouvir a grande família socialista a enumerar os grandes feitos dos últimos oito anos, mas sem explicar porque cresce a pobreza. Infelizmente, todos sabemos que a verdade e a realidade raramente entram nos partidos políticos, sendo que a mentira é já um estado natural na vida do Partido Socialista. A naturalidade com que afirmam convictamente as coisas mais absurdas é merecedora de um Óscar para a melhor interpretação.
Como os leitores já sabem, a minha forma de fazer comentário político é através de exemplos retirados da realidade vivida e das estatísticas publicadas, procurando que a realidade fale por si. Assim:
Economia – teve um crescimento anémico ao longo dos últimos 25 anos, muito menor do que os parceiros europeus do nosso campeonato e apenas a inflação mais recente permitiu equilibrar as finanças públicas, o que, por sua vez, tem permitido a António Costa enumerar um conjunto de programas assistencialistas, que, todavia, não chegam para evitar o crescimento da pobreza, o que é naturalmente escamoteado. Além de que sem crescimento económico digno do nome, não haverá forma de haver salários dignos, sendo que o crescimento da economia e a subida dos salários é a forma de melhorar sustentadamente a vida dos portugueses.
Dívida pública – a criatividade da família socialista inventou a ideia de que a dívida diminui, através da criação da sua relação com o PIB, mas, de facto, não parou de aumentar. A dívida pública atingiu em Setembro o seu máximo de 366.400 milhões, ou seja, mais 72.000 milhões desde que o PS de António Costa assumiu o poder, em 2015. Este é muito do dinheiro distribuído pelo Governo, dinheiro que veio do crescimento da dívida e também, naturalmente, dos fundos recebidos da União Europeia e não da economia produtiva. Sendo que ambas as origens são de futuro imprevisível.
Investimento – quer o investimento privado, quer o público atingiram níveis baixíssimos, o que compromete o futuro da economia, facto escamoteado através de exemplos pontuais ou fantasiosos, como é o caso do centro de dados em Sines, ou a fantasia do hidrogénio. Pior, o investimento na indústria, nomeadamente o investimento estrangeiro, desapareceu, o que é grave porque a indústria é ainda o sector da economia que pode fornecer melhores salários para os sectores da sociedade com menos habilitações.
Exportações – António Costa anda muito contente porque as exportações nacionais atingiram 50% do PIB. Todavia, a realidade é bem diferente: (a) nenhum país da nossa dimensão com pequenos mercados internos pode sobreviver com exportações de menos de 70% a 100% do PIB, que é o que exportam todos os países da nossa dimensão da União Europeia; (b) pior, o crescimento das nossas exportações deve-se ao normal crescimento de sectores da indústria, como o calçado, a confecção, a metalomecânica e o automóvel, cujos investimentos foram iniciados há 50 e há 30 anos. Além do turismo mais modernamente, mas este é um sector que por definição pratica baixos salários e não garante continuidade.
Ferrovia – constitui a maior mentira inventada pelo PS para enganar os portugueses, enquanto constitui uma verdadeira traição ao interesse nacional, nomeadamente permitindo que os nossos concorrentes espanhóis controlem as nossas exportações a partir do momento em que o transporte rodoviário se torne menos competitivo, o que será uma fatalidade em vista das políticas ambientais e logísticas criadas pela União Europeia. A ideia do PS, defendida por Pedro Nuno Santos, de evitar a concorrência internacional à “CP” e à “Medway”, através da manutenção da bitola ibérica, bate todos os limites da ignorância humana.
Serviços públicos – o preenchimento da direcção dos serviços públicos por “boys” do PS inexperientes e imaturos, além de pouco dados a preocupações éticas, criou o caos organizativo e financeiro um pouco por todo o lado. As 35 horas semanais fizeram o resto. Como sequência lançou-se dinheiro sobre o problema, a corrupção disparou, a Justiça entrou em pânico e organizaram-se máfias que estão a destruir os objectivos tradicionais de qualquer administração. O caso do ministério da Defesa é o modelo que pode servir de exemplo do ponto a que se chegou: a passagem da corrupção individual e familiar para a organização mafiosa. O caso “Influencer”, de Sines, tem contornos semelhantes.
Democracia – trata-se provavelmente da maior mentira da política portuguesa, porque apenas metade dos portugueses vota, porque a participação política é muito baixa e na raiz do problema está o facto dos representantes do povo serem escolhidos pelos líderes partidários e não pelos eleitores, o que não acontece na esmagadora maioria das democracias europeias. Além de que a maioria dos partidos recusa a reforma das leis eleitorais, ou seja, recusa a democratização do regime.
Educação – trata-se do mais importante sector da governação, nomeadamente para combater a pobreza e a ignorância que se perpetua no seio das famílias portuguesas pobres, sem que os governos compreendam que é nas creches e o no pré-escolar de qualidade que se pode combater esta tragédia e não no ensino superior, que sofre com isso. Governos que não compreendem a importância da qualidade da alimentação e a existência de transporte. A falta de exigência cruza negativamente todo o nosso sistema de ensino.
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Talvez que estes exemplos cheguem para se compreender que existe em Portugal um problema de qualidade das lideranças, o que resulta de o processo não democrático da escolha ser feita pelos partidos e não pelos eleitores. Como resultado, a má governação do país é escondida através do uso sistemático da mentira e da meia-verdade.■
O Portugal da fantasia socialista




