Não há um único Estado-membro da União Europeia que esteja satisfeito com a atitude apática de Ursula von der Leyen, presidente da Comissão, face à situação de crise generalizada. Um período inicial de perplexidade e, em seguida, uma imobilidade inexplicável fixaram uma imagem de inépcia e burocracia que desprestigiou a UE e atrasou a resposta de alguns países ao ataque do vírus.
Esta questão não é apenas teórica ou política: a ineficácia da Comissão Europeia, sempre dependente nas suas decisões do Eurogrupo, do Conselho da Europa e do Parlamento Europeu, ameaça prejudicar gravemente as economias europeias, não apenas as mais frágeis mas também as mais sólidas.
Foi, assim, sem surpresa que esta semana a chanceler alemã Angela Merkel saiu a terreiro para se assumir como porta-voz de uma Europa que enfrenta “o maior teste” desde a criação da UE. E logo com uma mensagem dirigida claramente à China, ao avisar que a Europa precisa também de recuperar a “soberania” na produção de vários bens que são necessários para responder à crise sanitária, como máscaras.
Durante uma conferência de imprensa em Berlim, a Chanceler, cujo país vai assumir a presidência rotativa semestral do Conselho da UE já a partir de Julho deste ano, declarou que “a resposta” a esta crise só poderá passar por “mais Europa, uma Europa mais forte e uma Europa que funcione bem”.
“Estamos perante um grande desafio para a saúde da nossa população”, sublinhou a política alemã, lembrando que, mesmo em níveis diferentes, todos os países foram atingidos pela pandemia. “É por isso que é do interesse de todos, e também da Alemanha, que a Europa saia mais forte deste teste”, frisou.
Merkel falava na véspera da importante reunião dos ministros das Finanças europeus, o Eurogrupo, que foi dedicada aos instrumentos económicos e financeiros a adoptar no apoio às economias mais afectadas pela pandemia da Covid-19, que paralisou quase todo o continente europeu.
Soberania
Depois de muitos anos em que a Europa apostou tudo no livre comércio, deixando à China espaço para se afirmar como “a fábrica do Mundo”, Merkel veio dizer que a Europa devia tornar-se mais “soberana”, por exemplo, na produção de máscaras de protecção individual, num momento em que a grande procura por este produto por causa da pandemia suscitou uma competição global impiedosa.
“Embora este mercado esteja actualmente localizado na Ásia, é importante que aprendamos com esta pandemia que também precisamos de uma certa soberania, ou pelo menos de um pilar, para realizar a nossa própria produção”, na Alemanha ou na Europa, referiu a chanceler alemã.
Numa altura em que a pandemia está espalhada por vários continentes, surgiram notícias de práticas comerciais inadmissíveis. O responsável pela pasta do Interior do governo regional de Berlim, Andreas Geisel, denunciou que os Estados Unidos desviaram um carregamento com 200 mil máscaras de protecção que estava destinado à polícia da capital alemã, uma acção que classificou como “pirataria moderna”.
A par da Alemanha, vários responsáveis regionais em França já tinham acusado anteriormente intermediários norte-americanos de “licitarem” e reterem máscaras encomendadas e compradas à China. Os Estados Unidos rejeitam estas acusações, enquanto a China avança com ofertas de material a vários países que são qualificadas por muitos como simples acções de mera propaganda – ou como forma de ganhar ascendente sobre Estados fracos, com vista a futuras acções de predomínio.
Barroso defende UE
Entretanto, noutro registo, o antigo presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, considerou que “as instituições estão a responder à crise” de “uma maneira mais rápida” que durante a crise de 2008. Para Barroso, o problema reside em “alguns governos que não deixam” a União fazer “o que pode e deve”.
O ex-presidente da Comissão Europeia e ex-primeiro-ministro português admitiu que os ’eurobonds’ sejam rejeitados nesta altura, mas assegurou que haverá “algum tipo de compromisso”, porque “é assim que normalmente a UE toma decisões”.
“Na última crise, o Banco Central Europeu levou quatro anos a adoptar a chamada ‘whatever it takes policy’ (de compra de dívida), agora, levou quatro semanas” a decidir suspender os limites ao endividamento dos Estados-membros, exemplificou.
Citando, como bons exemplos, as várias decisões já tomadas pelas instituições europeias, Barroso considerou que “falta coordenação do apoio fiscal à economia e falta um acordo sobre a mutualização da dívida”, numa referência à emissão comum de títulos da dívida, ou ‘eurobonds’, agora também chamados ‘coronabonds’.
“Penso que vão ser encontradas soluções, não os ‘eurobonds’, porque alguns países opõem-se fortemente”, afirmou, acrescentando que a questão está “a polarizar e a dividir” os países da União, “mas vai haver algum tipo de compromisso”, assegurou. “A UE enfrenta uma crise existencial, não podemos ser complacentes”, concluiu, destacando que “os riscos vêm principalmente da polarização das opiniões públicas”. ■
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