Moçambique resvala para a guerra

São dias negros para o antigo território português de Moçambique, a braços com ataques terroristas – designadamente na rica zona de Cabo Delgado – que o Estado Central e as Forças Armadas não conseguem resolver. Face ao conflito armado e ao verdadeiro clima de guerra, a população está a refugiar-se noutras zonas e a viver na miséria total.

0
1545

Perante a crise, Portugal é frouxo e no terreno nada avança. Após uma reunião com os seus homólogos europeus, esta semana, o ministro dos Negócios Estrangeiros português salientou a necessidade de rever os termos em que actualmente se desenvolvem as relações entre a União Europeia e o antigo território português.

“O reforço da componente de paz e segurança na cooperação bilateral entre a União Europeia (UE) e Moçambique é absolutamente essencial e é absolutamente urgente”, frisou Augusto Santos Silva.

O ministro dos Negócios Estrangeiros falava em conferência de imprensa à saída da reunião dos chefes da diplomacia da UE, que teve lugar por videoconferência e que foi presidida, a partir de Bruxelas, pelo Alto Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança, Josep Borrell.

Sublinhando que a política externa da UE se “faz em três dimensões complementares” – a “cooperação para o desenvolvimento, acção humanitária e cooperação em matéria de paz e de segurança” –, Augusto Santos Silva sublinhou que as duas primeiras dimensões “já estão em curso”, mas o seu incremento “exige condições de segurança indispensáveis”.

Nesse sentido, o chefe da diplomacia portuguesa afirmou que, durante a reunião de hoje, Josep Borrell “suscitou” a questão do processo de decisão do envio de uma missão de apoio à formação militar em Moçambique, que originou uma “discussão política”, da qual saíram “duas mensagens essenciais”.

“Primeiro, a necessidade de traduzir a nossa acção concreta, de realizar, de concluir o processo de decisão e de pôr no terreno a nossa missão de apoio. E a segunda mensagem, ainda mais clara, é o sentido de urgência nisto: quanto mais tarde nós intervirmos em apoio a Moçambique no seu combate ao terrorismo, mais forte ficará o terrorismo. Portanto, teremos de intervir o mais cedo possível, o mais rapidamente possível”, apontou.

Relembrando que os representantes permanentes dos Estados-membros junto da UE “já endossaram, no final do passado mês de Março, o documento político de enquadramento político da abordagem da UE a esta dimensão de segurança no seu relacionamento com Moçambique”, Augusto Santos Silva disse que estão agora em curso “as consultas aos grupos técnicos especializados”.

“Foi, portanto, decisivo que neste Conselho de Negócios Estrangeiros, tivesse havido este debate e fosse proferida esta pronúncia dos ministros dos Negócios Estrangeiros da EU, em favor da rapidez na decisão sobre uma missão de apoio à formação e ao treino de tropas moçambicanas, para que a componente de paz e de segurança da nossa cooperação com Moçambique seja devidamente reforçada”, sublinhou.

JSD apela a Guterres

A Juventude Social-Democrata está atenta e pediu ao secretário-geral das Nações Unidas (ONU), António Guterres, para que mobilize “o máximo e as melhores forças” desta organização no apoio a Moçambique, e apele ao maior envolvimento da comunidade internacional.

Num comunicado da Comissão Política da JSD, esta organização autónoma do PSD lamenta que “só ao fim de quatro anos é que a comunidade internacional esteja finalmente de olhos postos em Moçambique”, recordando que já em Novembro do ano passado tinha pedido ao Governo português que “disponibilizasse todo o apoio necessário para combater o terrorismo e acabar com a situação dramática que se vive em Cabo Delgado”.

“Tendo sido fundada com o objectivo máximo da manutenção da paz a nível mundial, é da vital importância que o Excelentíssimo Sr. Secretário-Geral das Nações Unidas, engenheiro António Guterres, invoque uma forte mobilização internacional de apoio a este país”, apela a JSD, num comunicado assinado pelo seu presidente, o deputado Alexandre Poço.

Para esta estrutura é também urgente “apoiar de forma substantiva as organizações não-governamentais que prestam auxílio à população de Cabo Delgado, em especial às crianças, jovens e mulheres”.

“A Juventude Social Democrata dirige-lhe este apelo também enquanto português. Neste momento, há um povo-irmão da Lusofonia – uma identidade que nos orgulha no mundo – a sofrer e a passar um momento bastante difícil. É a solidariedade que almejamos como valor primordial da Lusofonia que está em causa. Numa família, estamos lá um para os outros, particularmente quando a hora é difícil e o apoio é urgente”, afirmam.

Refugiados sofrem

Cerca de 11 mil pessoas, a maioria crianças, continuam a necessitar de “ajuda humanitária urgente” em Afungi, norte de Moçambique, anunciou a Organização Internacional das Migrações (OIM), num retrato da península que acolhe o maior investimento privado em África.

A OIM estima que 11.104 pessoas (1.452 agregados familiares) estejam abrigadas na Escola Primária Completa de Quitunda, na mesma península (Afungi) dos projectos de gás, depois do ataque armado à vila de Palma (a seis quilómetros), de acordo com uma avaliação remota realizada no final da última semana.

A insegurança, segundo a avaliação das Nações Unidas, impede que equipas das suas agências se desloquem ao local.

A petrolífera Total, que lidera o projeto de gás, abandonou as instalações entre 1 e 2 de Abril, sem mais informações desde então.

O Governo moçambicano “está actualmente a prestar alguma assistência. No entanto, os deslocados necessitam urgentemente de ajuda humanitária”, descreve a OIM, apontando como prioridades a comida, abrigo e roupa.

Ao mesmo tempo, as Forças de Defesa e Segurança (FDS) retomaram o controlo de Palma, vila parcialmente destruída e à qual a população tem retornado, carecendo, no entanto, de produtos essenciais – apesar de algumas iniciativas de distribuição em curso.

Dos 1.452 agregados familiares deslocados em Quitunda, cerca de um terço dorme ao relento, acrescenta a OIM, que alerta para vários casos de vulnerabilidade, tais como grávidas, mães em fase de aleitamento, crianças desacompanhadas, idosos e deficientes. ■