Nas vésperas de mais um “25 de Abril”, é impossível não reflectir no que se transformou Portugal 47 anos depois.
E, se inevitavelmente, em alguns aspectos o país está melhor – como é natural; em 74 também estava melhor do que em 1927, e por aí fora –, na sua essência está muito pior. Grassa a incompetência, o compadrio e a corrupção; a Justiça é ineficaz e perniciosa; a educação deixa muito a desejar; os serviços públicos nunca foram tão maus; a mentira é quase “palavra de ordem”; a saúde está nas ruas da amargura.
O Governo apregoa maravilhas que na rea-
lidade não passam de embustes. Exemplos? Quem actualmente se inscreve num Posto de Saúde não tem direito a Médico de Família porque não há disponíveis… (Lembram-se do “slogan” socialista apregoado por António Costa? “Todo o cidadão terá um Médico de Família”). Solicita-se uma certidão à Segurança Social que, três meses volvidos, não é emitida, aguardando despacho… Grita-se aos quatro ventos que os serviços “online” (Finanças, Conservatórias, etc.) dão resposta, quando não é verdade (há excepções, felizmente); ou os telefones não funcionam ou não se tem acesso a marcações, por vezes em casos que exigem urgência e que, não resolvidos, provocam prejuízos incalculáveis. Mas, na visão do Largo do Rato, vivemos no “País das Maravilhas”. Não me estranha pois, que por aquelas bandas, como facilmente se constata, vive gente de vistas curtas.
Revoltado, indignado e ofendido, como português e como cidadão, com o que ultimamente se tem passado em Portugal, vieram-me à memória excertos de citações proferidas por um dos maiores – quiçá, o maior – escritores portugueses, Eça de Queirós, que proferidas no século XIX se mantêm actuais. Quem desconheça a data em que foram escritas, pensará tratar-se de uma crítica aos nossos dias.
Como julgo serem por demais pertinentes, sem mais comentários, transcrevo algumas delas.
“Hoje que tanto se fala em crise, quem não vê que, por toda a Europa, uma crise financeira está minando as nacionalidades? É disso que há-de vir a dissolução. Quando os meios faltarem e um dia se perderem as fortunas nacionais, o regime estabelecido cairá para deixar o campo livre ao novo mundo económico” (1877).
“– E qual é a posição dos deputados?
– Na aparência, sentados, por dentro, de cócoras” (1871).
“O que me consola é que todas as nações se vão desnacionalizando, e que tudo tende a uma unidade comum como o preço das estampilhas. Dentro em pouco, há-de haver um só tipo de homem, em toda a Europa, com o mesmo feitio moral, as mesmas frases, e o mesmo corte de barba” (1884).
“Há duas maneiras de prejudicar uma população: ou cometendo erros, ou não cometendo coisa alguma. Tanta influência tem para a decadência a opressão, como a inércia” (1867).
“Entre nós, a mentira é um hábito público. Mente o homem, a política, a ciência, o orçamento, a imprensa, os versos, os sermões, a arte, e o país é todo ele uma grande consciência falsa. Vem tudo da educação” (1872).
“– Pertencer a um partido, caro colega, vem a ser…?
– É meter-se a gente num ónibus que leva aos empregos” (1871).
“A política é movida por cordéis tão sórdidos que tudo é possível, desde que não faltem as mãos sórdidas para os puxar” (1890).
“A política chegou a tal miséria que nem a palidez instintiva coíbe os homens” (1872).
“Que fazer? Que esperar? Portugal tem atravessado crises igualmente más – mas nelas nunca nos faltaram nem homens de valor e carácter, nem dinheiro ou crédito. Hoje crédito não temos, dinheiro também não – pelo menos o Estado não tem – e homens não os há, ou os raros que há são postos na sombra da política. De sorte que esta crise me parece a pior – e sem cura” (1891).
“Há alguns anos que as crises se multiplicam em Portugal com infinita celeridade; a razão deste fenómeno político é bem palpável: aqui as paixões, os interesses, as ambições, os caprichos, são sempre antepostos à política leal e desinteressada, e a máquina governativa só encontra no seu giro incessantes escolhos e recifes, que a vão deteriorando de uma maneira assustadora” (1867).
“Hoje não há no país nenhuma ideia predominante, nenhum princípio querido, nenhum grande sistema surdamente combinado, nenhum vasto plano de organização social. Os homens políticos têm-se ocupado naquele embate de ambições, de intrigas, de transacções, de regulamentos, de reformas imperceptíveis, em todo aquele movimento que ondeia lentamente de São Bento às secretarias e das secretarias ao Conselho de Estado. Fora desse movimento nada sabem, nada aceitam” (1867).
“O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Já não se crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade da inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente” (1871).
Melhor e mais actualizado retrato do que é hoje o nosso triste Portugal, seria difícil. Sobre o povo e a pátria, diria o escritor: “O povo é o coração da pátria: a indiferença do povo é a morte da pátria”.
Espero sinceramente que o povo não prosseguia nesta indiferença manifestada ao longo dos últimos anos – magistralmente trabalhada pelas hostes socialistas/comunistas – e salve a pátria. ■




