Novo partido nasce “à direita do PSD”

Quer começar por concorrer às eleições europeias de 2024 e, até lá, ir afirmando a sua presença na vida política portuguesa. Chama-se “Nova Direita” e a sua fundadora e impulsionadora é Ossanda Liber.

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Ossanda Liber não é uma completa estreante na cena política nacional. Nasceu angolana, em Luanda, pois em 1977 já aquela antiga Província Ultramarina era um país independente. Depois de fugazes passagens por Paris, pela indústria da moda e pelos negócios, decidiu dedicar-se à política. Empenhou-se numa candidatura independente à Câmara Municipal de Lisboa, nas últimas autárquicas, em que obteve um resultado inexpressivo. Mas não se deixou abalar, e como vice-presidente do Aliança, partido fundado por Pedro Santana Lopes, aproveitou “a expressiva mobilização em torno do movimento” para ganhar balanço e visar um objectivo mais alto “a nível nacional”.

Esse objectivo parece agora concretizar-se num novo partido, de que Ossanda é a principal animadora. Está ainda em fase de recolha de assinaturas, mas assegura ter já metade das 7.500 de que necessita para formalizar a inscrição da “Nova Direita” no Tribunal Constitucional. O calendário eleitoral à sua frente dá-lhe amplo tempo para preparação: Parlamento Europeu em 2024 (eleição à qual já espera concorrer), Assembleia Legislativa dos Açores no mesmo ano, autárquicas em 2025 e legislativas em 2026.

Cartazes

Mas Ossanda Liber já se antecipou na campanha de ‘marketing’, e cartazes do novo partido já começaram a surgir em vários pontos estratégicos da cidade de Lisboa – Entrecampos, Saldanha, acessos à 2ª Circular. Aproveitando a “onda da bola”, Ossanda surge nesses cartazes com um cachecol da selecção e uma bola de futebol na mão, junto aos dizeres: “Estamos convocados / todos juntos / para elevar Portugal”.

Em recente entrevista ao semanário ‘Expresso’, a líder da “Nova Direita” esclarece que pretende construir um partido conservador “à direita do PSD e à esquerda do Chega” e que tem como eleitores-alvo os portugueses que “não se identificam” nem com a “direita do chicote”, do Chega, nem com a “direita fofinha”, do PSD.

Õ novo partido ainda não tem programa definido, nem tampouco se conhece a equipa com que Ossanda Liber pretende apresentar-se ao país. Mas já é conhecido um primeiro manifesto em que se afirma que “a Nova Direita é um Movimento que recusa o sectarismo e é aberto a todos os cidadãos independentemente da sua origem política ou do seu lugar de residência. Para nós, os cerca de 5.000.000 de portugueses residentes no estrangeiro têm o direito de participar no processo democrático e na evolução da nossa sociedade, na mesma medida que os residentes em território português”. E adianta: “O interesse colectivo sobrepõe-se às querelas políticas, pelo que iremos trabalhar com todos os cidadãos determinados, dedicados e com uma visão para o presente e futuro de Portugal, respeitando a sua história e preparados para corrigir os erros do passado e valorizar as grandes conquistas”.

Racismo

Para além das declarações de princípios, sempre vagas e generalistas, a “Nova Direita”, embora liderada por uma angolana de origem, defende “a unidade e coesão de Portugal em torno dos seus costumes, dos seus valores, da sua história e da sua cultura”. Aliás, já em Outubro de 2021, durante o programa ‘Conversas ao Sul’, da RTP África, Ossanda Liber deu que falar ao defender que “Portugal não é um país racista”. Em entrevista ao Jornal ‘i’, Ossanda de novo o afirmou, acusando o Bloco de Esquerda de “instrumentalizar o racismo para fins políticos”.

Agora, ao ‘Expresso’, a líder do novo partido confirma o seu ponto de vista: “Não sei o que é isso do racismo, não posso emitir opiniões sobre coisas que eu não vivi nem as pessoas à minha volta viveram”. Questionada sobre se a sua experiência pode ser influenciada pelo facto de pertencer a uma classe social mais elevada, respondeu: “Não nasci com os meios que tenho hoje. Esse caminho fi-lo e se Portugal fosse racista tinha sido posta de lado por ser negra”. Pelo contrário, Ossanda defende que nunca foi pela cor da pele que “alguma coisa deixou de acontecer”. E comenta: os racistas são “pessoas inseguras”, com “medo do diferente”; e do outro lado está quem vê “racismo em tudo” e que o use como “razão pelo seu “insucesso”.

De resto, o próprio Manifesto do partido defende “o desenvolvimento de uma relação económica e cultural com os países da CPLP, nomeadamente através da cooperação e das trocas comerciais, devolvendo a Portugal a relevância comercial outrora conquistada”. Como expressão de valores de Direita, o novo partido defende “a Autoridade institucional como garantia da justiça e ordem públicas”, “o incentivo à natalidade e à promoção da família” e “a soberania de Portugal e a defesa firme dos seus interesses junto das instituições Europeias e Internacionais”.

“A Direita toda junta” 

Em termos práticos, Ossanda Liber afirmou ao ‘Expresso’ estar pronta para viabilizar um governo com “a Direita toda junta”. A fundadora da “Nova Direita” defende que o partido de André Ventura alerta para temas que “de outra forma nunca seriam discutidos” – apesar de “nem sempre estar certo” na abordagem – e lembra a “geringonça” em que “a esquerda se uniu e incluiu extrema-esquerda”. Já em relação à Iniciativa Liberal as reservas são maiores: embora considera a IL “um projecto interessante”, não concorda com algumas das propostas liberais, “por exemplo, a liberalização das drogas”.

Com o Chega a fazer política com “chicote” e o PSD a ser a direita “fofinha”, Ossanda Liber acredita que a “Nova Direita” encontrará o seu caminho no conservadorismo moderado. Confessa ser adepta do Sporting Club de Portugal e escolhe Nicolas Sarkozy como uma das suas figuras políticas de referência.