A culpa é dos utentes, porque vão às urgências…

Com esperas de muitas horas nos serviços de urgência, doentes sem cama em macas pelos corredores, demissões em avalanche de responsáveis clínicos, a situação nos hospitais da grande Lisboa é totalmente caótica. Mas o novo ministro da Saúde, Manuel Pizarro, classifica estas situações de “indesejáveis” e culpa o utente, que aflui excessivamente às urgências.

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Manuel Pizarro já assumiu esta semana que há um cenário de “grandes dificuldades” nas urgências do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, com tempos de atendimento indesejáveis.

“É verdade que no Hospital de Santa Maria estamos com grandes dificuldades e com tempos de atendimento indesejáveis. Já um pouco melhores do que de madrugada, mas absolutamente indesejáveis”, declarou Manuel Pizarro.

A título de exemplo, na segunda-feira passada às 11:45h, 19 doentes com pulseira amarela (urgente) tinham de esperar uma média de 11 horas e 10 minutos para serem atendidos no serviço de urgência central do Hospital Santa Maria, em Lisboa, segundo dados do Portal do Serviço Nacional do SNS.

Face ao cenário de “grandes dificuldades” nas urgências do Hospital de Santa Maria, o ministro da Saúde quis transmitir uma “mensagem de agradecimento” aos profissionais – médicos, enfermeiros e outros – pelo trabalho que estão a fazer para atender todas as pessoas.

O ministro sacode responsabilidades e diz que os problemas que estão a acontecer neste momento é “um afluxo excessivo às urgências”, com a agravante de que as respostas alternativas ainda “não funcionam” como se desejaria e depois, “claro que nestes períodos de pico, as dificuldades aumentam”.

Em seu entender o que está a acontecer no Hospital de Santa Maria é “pontual”, quando comparado com as restantes cerca de 80 urgências que estão abertas actualmente, todavia salienta que isso não retira “gravidade à situação”.

“Se eu comparar com as mais 80 urgências que estão abertas no país neste momento, obviamente que a situação é pontual, mas isso não diminui a sua gravidade. É uma situação muito grave na mesma, porque é evidente que se nós não estamos a atender as pessoas num tempo que é devido, isso é indesejável, mas as medidas, aos poucos, estão a produzir os seus efeitos”.

Pizarro recusa o caos

Apesar de tudo o que está a acontecer Manuel Pizarro nega que haja um “cenário de caos” nos hospitais em Lisboa.

“Não acho que haja nenhum cenário de caos. Há um cenário de dificuldades, mas as pessoas estão todas a ser atendidas”, disse o ministro da saúde.

Manuel Pizarro considera, contudo, que os utentes não estão a ser atendidos com a “prontidão que seria desejável” e deixa um “apelo à compreensão” dos utentes e seus familiares que não estão a ser atendidos com a “rapidez” que se desejaria.

“Nós estamos a ser capazes de dar respostas a todas as pessoas e hoje todos os serviços estão a funcionar em pleno”, declarou.

Manuel Pizarro diz que não está conformado com a situação e, para o demonstrar, afirma que foi accionado “um vasto conjunto de medidas para melhorar a situação”.

Para melhorar a capacidade de internamento nos hospitais, Manuel Pizarro acrescentou que se está a utilizar, com o sector social, um conjunto “muito vasto de lugares” para que as pessoas não permaneçam no hospital para “além do tempo que é adequado”.

Segundo Manuel Pizarro, as situações de maiores dificuldades nas urgências acontecem sobretudo em Lisboa e Vale do Tejo, porque é a região onde mais falham os cuidados de saúde primários, que precisam de “tempo para serem resolvidas”.

Médicos baixam
ordenados

É assustador. A remuneração dos médicos em Portugal em 2020 era mais baixa do que em 2010 em termos reais, indica um relatório europeu agora divulgado.

“Em alguns países, como Portugal, Eslovénia e Reino Unido, a remuneração dos médicos generalistas e especialistas diminuiu em termos reais entre 2010 e 2020”, avança o relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e da Comissão Europeia (CE) que analisa vários indicadores de saúde no período da pandemia de Covid-19.

Segundo o documento, em Portugal, que tem uma média de 4,5 clínicos por mil habitantes, a redução ocorreu entre 2010 e 2012 e, desde então, a remuneração dos médicos aumentou, mas manteve-se mais baixa em 2020 do que em 2010 em termos reais.

O relatório salienta que na maioria dos países europeus a remuneração dos médicos aumentou em termos reais (ajustada à inflação) desde 2010, mas a taxas diferentes entre países e diferenciada entre clínicos especialistas e sem especialidade.

“O aumento entre especialistas e generalistas tem sido particularmente forte na Hungria. O Governo húngaro aumentou substancialmente a remuneração de especialistas e generalistas na última década para reduzir a emigração de médicos e carências” de profissionais, refere a OCDE.

O documento indica ainda que o número de médicos nos países da União Europeia (UE) aumentou de cerca de 1,5 milhões em 2010 para 1,8 milhões em 2020, fazendo com que a média de clínicos por mil habitantes aumentasse, nessa década, de 3,4 para 4,0.

“Em 2020, a Grécia teve o maior número de médicos (6,2 por mil habitantes), seguido de Portugal (4,5), mas o número nestes dois países é uma sobreavaliação, uma vez que inclui todos os médicos licenciados para a prática, incluindo reformados e aqueles que poderiam ter emigrado para outros países, mas mantiveram a sua licença no país”, explica o relatório.

A OCDE e a CE salientam também que, antes da pandemia, as abordagens políticas ao sector “não mudaram significativamente”, com apenas uma média de 3% do total dos gastos em saúde destinados para a prevenção.

“Em 2020, a maioria dos países da UE aumentou substancialmente os seus gastos com a prevenção, pelo menos temporariamente, para financiar campanhas de testes, rastreios, vigilância e informação pública relacionadas com a pandemia”, refere o documento.