Nuno Melo: “Vamos voltar ao Parlamento”

Este fim-de-semana o CDS vai realizar um Congresso convocado expressamente para a revisão dos estatutos. Em entrevista a O DIABO, Nuno Melo assume as dificuldades financeiras como um dos grandes problemas do partido e confessa que neste momento “as quotas são um balão de oxigénio e uma receita importante”. O líder do CDS afirma querer que o partido tenha maior presença mediática. E, apesar dos resultados de 2022, frisa: “estou certo de que o CDS vai voltar ao Parlamento em 2026”.

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Na revisão estatutária que leva ao Congresso propõe a extinção das tendências internas. O que o leva a fazer esta proposta?

Desde a sua fundação o CDS sempre conviveu com diversas tendências, liberais, conservadores e democratas-cristãos, confluindo num denominador comum que era o CDS. A mais-valia desta situação foi a complementaridade. Depois, com as tendências internas, tudo mudou, com as correntes a digladiarem-se contribuindo para uma situação no CDS que não era útil ao partido.

Tenho a certeza de que a institucionalização das tendências com estatutos próprios foi um erro, que vários partidos europeus já experimentaram e abandonaram. Na realidade, o que era complementar passou a ser antagónico. Para além disso não faz sentido que uma tendência interna apresente em Congresso Moções de Estratégia Global, sem necessidade de arranjar as assinaturas e, para além disso, tenha lugar nos órgãos nacionais do CDS por inerência, e deste logo na Comissão Política Nacional.

Mas o mais grave foi perceber o esforço, ou mais propriamente o avançar destas tendências, no sentido de uma certa purificação do CDS do ponto de vista doutrinário. Por fim, assumiam uma postura muito conflitual no sentido de não ajudar a construir o partido, apostando mais em subtrair onde o CDS deve somar. Para o futuro, claro que as tendências sempre vão existir, mas deixam de ter relevância estatutária própria no CDS, bem como direitos próprios. Esta é uma das propostas mais relevantes para este Congresso do CDS e permite que o partido se prepare para os muitos desafios do século XXI.

Também existem mudanças nos órgãos nacionais do CDS?

Sim. Estas vão no sentido de integrar os actuais seis autarcas, os representantes do Continente, dos Açores e Madeira, onde o CDS está nos Executivos, bem como no Parlamento Europeu onde, pelas regras comunitárias, o CDS, tem uma delegação parlamentar apesar de só ter um deputado.

Vamos também criar um Gabinete de Relações Internacionais para estudar e reflectir no âmbito da direcção europeia e integrado no PPE. Queremos ainda criar um verdadeiro Gabinete de Comunicação profissionalizado que vá ao encontro dos novos meios que a “internet” possibilitou, desde logo, e a título de exemplo, o “Facebook”, e que hoje são fundamentais no contacto do partido com os cidadãos, designadamente as gerações mais jovens. Se houver, por exemplo, uma crise num hospital ou um descontrolo nos fogos o CDS tem que dar uma resposta rápida. Daí a necessidade de um Gabinete de Comunicação.

Vamos ainda criar um Gabinete de Apoio Estratégico e Programático que deve criticar, mas também fazer propostas que apresentem soluções, e sem a obrigatoriedade dos seus membros serem do CDS. Existem muitas pessoas que estão disponíveis para ajudar e pensar nos vários problemas, que podem vir da sociedade civil e que sintam que o CDS tem futuro, mas não querem ser militantes.

Autarcas na CPN?

Vamos fazer mudanças na composição dos órgãos nacionais desde logo para receber os nossos autarcas com um representante na Comissão Política Nacional (CPN). Também quem está nos Executivos das Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira terá um representante que vai à Comissão Executiva. Já os presidentes das Assembleias Regionais passarão igualmente a participar na Comissão Executiva. Neste momento é o caso de José Manuel Rodrigues, que já foi deputado em Lisboa e está na Assembleia Regional da Madeira.

Em vez de um, passaremos a ter três porta-vozes que vão poder aumentar a visibilidade do CDS, falando de matérias específicas.

Os elementos que integram o Senado do CDS e que também estão por inerência no Conselho Nacional vão passar a ser alvo de debate nas Comissões Políticas distritais. Apesar de caber à nacional a sua indicação, considero que é muito útil este envolvimento das distritais do partido.

Os militantes estão neste momento a pagar quotas?

Há pessoas que desconhecem os estatutos e ignoram que as quotas estão previstas nos actuais estatutos, pelo que não é preciso alterar nada. Foi num Conselho Nacional, durante a liderança de Paulo Portas, que se decidiu suspender o pagamento de quotas. Ou seja, desde Maio deste ano o que ficou em vigor foi o pagamento de quotas face aos estatutos.

São financeiramente importantes?

Representam uma ajuda para o CDS que actualmente tem mais despesa do que receitas. As quotas são um balão de oxigénio e uma receita importante.

Qual o balanço destes primeiros meses como líder do CDS?

O CDS é uma realidade distinta desde Janeiro de 2022, pelos resultados nas eleições legislativas, e o partido tem actualmente dois problemas muito graves.

Desde logo, o problema financeiro, pois o CDS passou a viver em défice e, por isso, estamos a proceder a uma reestruturação financeira muito difícil e que ocupa muito do nosso tempo. Equilibrar as contas é uma grande prioridade.

O segundo grande problema é a exposição mediática, pois o CDS perdeu o seu Grupo Parlamentar. Ora este dava uma visibilidade diária na comunicação social, desde logo na televisão, até por imposição da ERC. O CDS tem hoje de se esforçar muito para se tornar visível na divulgação das suas acções políticas. É preciso que a comunicação social entenda que o CDS é um partido médio que não elegeu deputados.

“Médio”, sem deputados?

É médio porque tem seis presidentes de Câmara e mais de 40 autarcas no âmbito de coligações com o PSD. Porque integra os Executivos regionais dos Açores e da Madeira. E lembro que no Porto teve um papel decisivo na eleição de Rui Moreira.

Para além disso, e como já disse, no Parlamento Europeu o CDS, apesar de só ter um deputado, é considerado uma delegação parlamentar. Por fim, é necessário ver que teve mais votos do que alguns partidos que apenas elegeram um deputado para a AR.

Isto é toda a realidade do CDS: o que se passou em 2022 foi um acidente, mas estou certo de que vamos voltar ao Parlamento em 2026.

Quais os erros cometidos em 2022?

Houve uma sucessão de erros trágicos, desde logo o adiamento do Congresso e a posição face ao PSD.

Neste momento, todo o nosso foco está no sucesso que as nossas propostas tenham junto dos eleitores. Queremos voltar ao Parlamento nas legislativas de 2026 e acredito que assim acontecerá. ■