Entre a Renascença e a Presença (II)

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Ainda assim, não deixou José Marinho de se referir à nossa “tradição [filosófica] multissecular, tradição inegável ainda mesmo quando haja de reconhecer-se descontínua, como eu escrevi já, ou difusa e dispersiva, como outros têm escrito”. 

De resto, José Marinho afirmou expressamente que “os nossos antepassados desde o século XII não estiveram a dormir em matéria de filosofia”, antes “puseram como puderam a interrogação fundamental e os consequentes problemas”, assim deixando uma tradição “cujo significado e valor hoje se impõe determinar. 

Daí ainda, nomeadamente, a sua referência expressa a Pedro Hispano, a partir do qual, como defendeu, “começa uma série ininterrupta de pensadores que vêm até aos nossos dias” – de características, aliás, próximas, senão mesmo comuns.

Em outras passagens da sua obra, enalteceu ainda mais José Marinho o valor da nossa tradição filosófica: “…é extraordinário que, num pequeno povo, tantas virtualidades do espírito e do pensamento, embora por vezes insequentes, se tenham afirmado.”. 

Que esse valor não seja ainda em geral reconhecido, eis o que, na sua perspectiva, só pode decorrer da ignorância e/ou da má-fé, dado que, como ele próprio escreveu, “quem de boa mente quiser refazer os caminhos que percorri, ficará sem dúvida surpreendido de numa breve centúria as concepções essenciais de filosofia surgirem uma após outra, com diversa fortuna, na pátria que um dos nossos filósofos mais influentes designou como ‘a terra mais anti-filosófica do planeta’”.

Ainda assim, não deixou o autor de Verdade, Condição e Destino no pensamento português contemporâneo de antecipar esse reconhecimento: “Supomos, mas tal não depende só de nós, que em breve o valor da filosofia portuguesa no quadro do pensamento da nossa Península e em relação ao pensamento europeu aparecerá a toda a luz, já quanto aos temas que melhor soubemos desenvolver, já quanto àqueles que nos não foi dado tratar. Tal será possível, para os portugueses das contrapolares correntes, quando se sublimar o patriotismo exorbitado ou ressentido, quando os extremos da apologia e da negação se transmutarem, quando em filosofia como em tudo o mais os portugueses não carecerem já de obstinar-se em alcançar um primeiro lugar, ocupando activos e despertos o lugar não de todo modesto que lhes coube e tardam em reassumir.”. ■

Agenda MIL – 9 de Julho: Conselho de Representantes da PASC: Plataforma de Associações da Sociedade Civil/Casa da Cidadania (presidida pelo MIL desde Junho do presente ano).