O elefante na sala

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Ainvasão da Ucrânia pela Rússia de Putin não nos larga, com motivos crescentes de preocupação, o que me força a deixar em segundo plano as questões caseiras, apesar de importantes para tratar a questão da guerra. Os meios de comunicação portugueses, nomeadamente as televisões, não largam o tema e é crescente o número de especialistas, nomeadamente militares e académicos, que surgem nos écrans com as mais diversas notícias e explicações, diga-se que nem sempre muito compreensíveis.

Nas explicações para a guerra, a larga maioria baseia-se na ambição de Putin, na tentativa de recriar o império russo dos czares, ou mesmo da União Soviética, ambição que o terá conduzido a um erro de avaliação da resistência ucraniana, do seu nacionalismo e da importância do seu modo de vida democrática. Há outras explicações, que penso minoritárias, que, com maior ou menor fervor na defesa das ideologias que compõem os dois extremos políticos, consideram que os Estados Unidos e, em menor grau, a União Europeia, encurralaram Putin, através da expansão da NATO até às fronteiras russas. 

A meu ver esta segunda explicação esquece, ou subtrai ao debate, várias coisas: (1) que é normal que as diferentes nações, ou blocos de nações, concorram entre si e procurem valorizar económica e geopoliticamente as suas posições, todas as nações o fazem, mas isso, no mundo moderno, não compreende necessariamente a intenção, ou a necessidade, de fazer a guerra; (2) que a União Europeia tem na raiz da sua fundação a preservação da paz na Europa e se desde então falhou em alguma coisa foi por acreditar que isso era viável, sem grande esforço e despesa; (3) porventura mais importante, se é verdade que a NATO alargou o seu âmbito geográfico para Leste, não é menos verdade que se trata de uma organização com objectivos de defesa dos países que integram a organização e, acima de tudo, só nela participam os países democráticos e por livre vontade dos seus povos. Aceito que a Turquia seja um caso duvidoso como país democrático, como recordo que a invasão do Iraque não teve a ver com a NATO, mas apenas com os Estados Unidos, o Reino Unido e, infelizmente, um governo português; (4) não menos importante, na origem da invasão da Ucrânia está um país com uma longa tradição das mais variedades barbaridades e da negação da lei e de acordos internacionais, longe de ser um país democrático, como aliás se verifica para além de todas as dúvidas nesta guerra. Ou seja, pode-se sempre tornar menos clara uma situação que, a meu ver, não comporta grandes dúvidas, nomeadamente introduzindo no debate as mil questiúnculas da nossa vida política, mas isso não altera a realidade desta guerra.

Há, entretanto, uma questão que, por alguma razão, ninguém fala e que é sobre o elefante que está na sala e que altera todos os comportamentos políticos e geopolíticos dos países, além de cada um de nós, que é a guerra nuclear. É o elefante que surgiu em Hiroxima e que alterou todas as regras de disputa entre as nações, tornando bem real o que escrevi no dia do ataque às torres gémeas de Nova Iorque, a que chamei a guerra por outros meios. Putin sabe muito bem que o poder militar da NATO, fruto do poder económico e militar dos países que compõem a aliança, bem como as vantagens competitivas que resultam das convicções democráticas de cada povo, terminaria rapidamente com as suas ambições.

Ou seja, a existência de armas de destruição que sabemos podem ser o fim da vida no planeta, alterou, suponho que de forma irreversível, as relações geopolíticas internacionais e tornou possível a aventura de Vladimir Putin. O que nega as razões de muitos comentadores e de cidadãos em geral que consideram que os Estados Unidos e a União Europeia poderiam fazer mais para ajudar a Ucrânia a fazer a sua defesa. Porque as reservas políticas e militares da NATO são perfeitamente compreensíveis no contexto de uma guerra decidida por alguém que é um ditador, que tem um poder quase absoluto sobre o seu povo e num país que possui um enorme arsenal nuclear, para mais alguém cujas convicções democráticas são inexistentes e que não hesitou em recorrer à ameaça nuclear para conduzir esta guerra.

Finalmente, se olharmos para além do que está a acontecer na Ucrânia e tentarmos lidar da melhor forma com um futuro que compreende a existência no planeta Terra de enormes reservas nucleares, a democracia é ainda a nossa melhor defesa e as ditaduras o nosso maior perigo. Com a nota de que teremos de considerar a existência de duas grandes e poderosas ditaduras, a China e a Rússia, que juntas são razão suficiente para tirar o sono a todos os dirigentes democráticos do globo. Ou seja, começando com a tentativa de encontrar a melhor forma de terminar com esta guerra, devemos ter a consciência de que a nossa apólice de seguro passa pelo povo russo e pela democratização do seu país, por mínima que seja essa possibilidade no curto prazo. Isto é, os primeiros sinais já existentes de animosidade com o povo russo, ou com os russos individualmente, é um sinal seguro de estupidez.

Não há dúvida de que nesta guerra se debatem dois sistemas políticos e dois modelos de sociedade, em que a maioria de nós não duvida onde está a sua escolha, mas em que devemos levar sempre em conta a ameaça nuclear, não tanto para ceder à chantagem, mas para evitar assomos de poder posteriores a Hiroxima. O nosso coração e a nossa inteligência estão com todos os povos do mundo, sabendo bem que é a democracia e o desenvolvimento económico que a democracia potencia que nos pode salvar, não apenas da guerra, mas também dos problemas ambientais que aparentam ser ainda a guerra por outros meios. Nisso temos a obrigação de saber que o desenvolvimento económico e a redução da pobreza diminuem o crescimento populacional e essa redução é, porventura, também o melhor caminho para não esgotar os recursos do planeta. Há outros caminhos, mas não tão poderosos, como a democracia, a educação, a cultura e o desenvolvimento social dos povos. ■

Nota: Tentarei tratar posteriormente a questão da China e das dúvidas que antevejo nas posições demasiado apressadas do ocidente democrático.