A ti, Mariana, me declaro!

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A adolescência tem particularidades morfológicas e todo um universo próprio no que toca a reacções. As protuberâncias e pilosidades que crescem a ritmo a que não estamos habituados e nos deixam desconfortáveis, ou as que tardam em crescer e nos deixam mais desconfortáveis ainda, as espinhas que despontam e assumem a dimensão da queda de um meteorito, os pontos negros que pululam como os Césares nos cargos públicos dos Açores, a roupa que encolhe no armário e passa de moda da noite para o dia, os pés de gueixa que, passado uma semana, nos permitem dormir de pé durante um tornado, os trinca-espinhas que, num Verão, parece que assaltaram todos os “Mcdonald´s” da zona, enfim, toda uma panóplia de mudanças para as quais não estamos preparados. A estranheza está ao nível de um Cabrita no Governo: ninguém sabe como foi lá parar, mas é certo que lá está! 

No que toca a reacções, a coisa não melhora. Tudo tem a importância do Sol e de coisa nenhuma, com a mesma rapidez, com a mesma incoerência. Tão depressa explodimos por vermos negada a autorização de saída nocturna após termos falhado completamente o horário de recolher nas três antecedentes, como a pauta de notas que advinha o chumbo certo no final do ano é encarada com a leveza de quem come um “Epá” ao fim da tarde. Aos quinze anos, comunicamos aos pais, cheios de propriedade e de certezas, que estamos a fazer a mochila para ir combater os russos em Kiev, mas não somos capazes de fazer a cama de manhã ou de lavar os pratos do lanche. Inscrevemo-nos nas associações de defesa dos animais, passamos os fins-de-semana em acções de resgate duvidosas e perigosas, mas nunca passeamos o cão à noite. Tiramos horas para “selfies”, “instagrams”, e para teclar mensagens que rivalizam com “Os Maias” (em tamanho, não no português), mas não temos tempo para ler um livro ou para responder a simples perguntas parentais como o “tens treino logo?” ou “a que horas estás em casa?”. Os amo-te desdobram-se em mil corações e são repetidos ao infinito ao fim de meia dúzia de mensagens. Duas semanas depois os sóis das nossas vidas já atravessaram um oceano de lágrimas e brilham noutro hemisfério. Perdemos os filtros, perdemos o equilíbrio e, sobretudo, perdemos a noção da razoabilidade.

Felizmente a eternidade passa, a barba começa a assentar de forma uniforme, as espinhas rareiam como as ideias em Jerónimo (e, por fim esfumam-se, aquelas antes deste), os cotas até passam a uns tipos porreiros, as reacções encontram o calibre da balança e as paixões conhecem uma certa quietude e estabilidade. Claro que, o que é bom não dura sempre e lá para a meia idade levamos com novo ataque hormonal que nos apanha desprevenidos. Tenho, para mim, que as hormonas são como as prostitutas de Cannes em dia de jogo. São umas doidas e não param quietas!

Vai daí, vê-se um tipo meio entradote, que mantém a forma a peso de oiro em horas de ginásio (lá se lixou o cão, mais uma vez, excepto se a vizinha também tiver exemplar e aí o passeio à frente do prédio fica mais gasto que a calçada do terreiro do Paço), as brancas disfarçadas com os “Olexs” da moda, todo um silicone que atrapalhará a cremação, uma catrefada de exames em aplicações próprias para mostrar ao médico que vemos com maior frequência do que os tios de Aguiar da Beira e pimba, levamos de frente com uma paixão assolapada que nos deixa tão estúpidos que até damos algum crédito ao Pedro Adão e Silva! São as tais das hormonas, a operar no escuro, em esquemas tão sórdidos e imbrincados que mais parecem as fórmulas de cálculo de imposto sobre os produtos petrolíferos… 

Também eu não sou imune (apesar de várias doses de reforço) e, perto do virar do século, dou por mim com um “crush” pela Mariana Mortágua. Não de cariz sexual,
embora confesse que aquele rabo de cavalo tem qualquer coisa “je ne sais quoi”. Li, numa dessas revistas de economia doméstica, a que hoje se chamam de dicas de beleza e outros nomes cromáticos mais pomposos, que o rabo de cavalo era uma forma eficaz de resolver a logística da falta de tempo para a higiene capilar. O “crush” não será seguramente por isto, mas achei que era informação importante para partilhar. 

O que me atrai na Mariana é a sua prosápia intelectual, falada ou escrita. Admiro, verdadeiramente, a capacidade que tem de nada dizer, de forma tão profunda, tão melódica, tão poética, que parece o Quim Barreiros a cantar ópera. 

O pai foi terrorista, desviou um avião comercial, assaltou o Banco de Portugal, ocupou (pela força armada) uma herdade e tomou de assalto um paquete de onde resultou um morto? Não, os assaltos à séria são os dos mercados financeiros, os assaltos que o pai fez, na verdade nunca renderam nada, eram bastante gentis e eram só para chatear. Eles até se intitulavam de piratas românticos, era aquela malta que assalta, mas as armas não são bem de verdade, são de plástico, e ameaças, mas também não são bem de verdade, são “bluff”, até limparam o navio antes de o entregarem às autoridades para que fosse entregue com bom aspecto.

Como não amar este romantismo e devoção paternal? Nem Camilo seria capaz de distorcer, de forma tão poética e capaz a crua realidade dos factos, contada pelo próprio pai: o assalto rendeu cerca de dez milhões de euros, ao câmbio actual, as armas eram de verdade, entre as quais uma metralhadora, quatro espingardas e meia dúzia de granadas e ele estava disposto a matar e morrer e o navio foi entregue ao fim de três dias, não pela demora nos trabalhos de limpeza, mas porque tinham feito um morto e vários feridos e estavam a negociar com as autoridades a rendição e amnistias.

Como ficar indiferente a quem alterna, tão graciosamente, o tom inquisitivo nas comissões de inquérito e se abespinha, de sorriso cínico com os esquecimentos dos inquiridos, com o não “alembramento” das leis que vota e viola e o silêncio pacífico que se lhe faz seguir? 

Como não baquear perante a pena que usa com mestria ao condenar a dupla tributação nos combustíveis, o peso excessivo dos impostos a que o Governo nos sujeita e a apontar o dedo aos capitalistas que ganham com tudo isto, para se esfumar, etérea e imaterial, quando questionada sobre o que (não) fez o seu Bloco nos anos em que esteve no arco governativo. 

A mestria e elegância que são necessárias para culpar o Ocidente, a Nato e a União Europeia pela invasão de uma potência soberana por um país terceiro. A destreza mental de colar um rótulo nazi a quem, até há bem pouco tempo, se intitulava de socialista e era o expoente máximo das políticas de Marx e a pátria de Lenine e Trotsky. Mariana é imune às culpas, às responsabilidades, à autocrítica. Com aquela cara seráfica, envolta no “pony tail”…

No princípio era o verbo. A mariana é todo um predicado. Acho que é mesmo amor, Mariana! ■