O governo da cepa torta

Este contencioso nada institucional entre o PM e o PR é prejudicial para o país e está a atingir foros de grande grosseria e desrespeito para com o mais alto magistrado da nação aconselhando-o a cada qual “no seu galho”. Não contente com isso, insinuou cinicamente que “uns são comentadores, mas nós somos fazedores”.
O problema é que o fazedor nada tem feito de útil para o bem comum, não tem obra para mostrar, limitando-se a gerir o poder pelo poder pessoal e da sua família política. Bastaram poucos meses de maioria absoluta para se perceber que o homem não sabe governar nem consegue arranjar quem saiba, não tem um desígnio para o país e, por isso, tem dificuldade em gastar de forma certeira os muitos milhões de Bruxelas que lhe permitem “ir ao banco”.
Virou a página da austeridade. A mentira mais emblemática. Chamaram a Centeno o Ronaldo das finanças que driblava os portugueses dando-lhes austeridade e eles desta gostarem. Devolução imediata dos cortes, privilegiando o consumo interno de bens que não produzimos em vez de exportar bens transacionáveis, como fazem os países que estão a crescer. A explosão turística não planeada veio ajudar e foi devida às acções terroristas nos locais tradicionais de destino.
Conseguiu um superavit nas “contas certas”, uma rotina com Salazar, mas destruiu os serviços públicos (saúde, educação, etc.).
Ameaça com a alta velocidade, mas rejeitou criminosamente os fundos europeus para a bitola europeia que os outros estão aproveitando.
Procura em desespero de causa onde lançar a primeira pedra do novo aeroporto de Lisboa, atrasado 50 anos. Depois outros que o façam se ainda houver dinheiro. Não fora Abril e estaria pronto há quase cinquenta anos. Naquele tempo as obras não derrapavam em tempo e custos para o dobro ou o triplo do previsto.
Desde que, mesmo perdendo, chegou ao poder tem-se mostrado antes um “desfazedor”. Montou um segundo PREC para garantir o apoio de PC e Bloco, como se o primeiro PREC não tivesse sido suficientemente ruinoso.
Afirmou ter horror a reformas que dariam continuidade ao crescimento económico que tinha recomeçado com o apoio da troika de credores, chamada por Sócrates para recuperar as finanças públicas e evitar a bancarrota. Tratou mesmo de “desfazer” algumas que estavam a dar bons resultados.
Acabou com a privatização dos transportes públicos e da TAP, uma exigência dos comunistas a favor da sua CGTP.
Reverteu as 40 horas da Função Pública, que tinha sido uma tentativa de aproximar esta do privado que se queixava de que, em média, trabalhava mais horas e recebia menos. Os técnicos da saúde e educação, com maior preparação académica e técnica, naturalmente, teriam melhores vencimentos.
O socialismo assistencialista tornou o país dependente do Estado, empobrecendo-o, sobrecarregando-o de impostos, sobretudo indirectos pagos por todos, ricos e pobres e, mesmo assim, aumentando a dívida pública sempre a crescer em valor absoluto, que o aumento previsível dos juros se tornou um encargo incomportável. A contestação é pequena, anestesiados com todo o tipo de subsídios a que parece já se terem habituado. Receiam que lhes tirem o pouco que recebem, não reclamando do mau serviço público prestado, por desinvestimento, e sem reparar que uma boa parte já antes lhe foi tirado nos impostos que todos pagam.
A sociedade civil sente-se economicamente amordaçada. Com uma comunicação social maioritariamente de esquerda e também subsidiada perdem-se, entre outros, os pesos e contrapesos essenciais para o bom funcionamento de uma democracia dita liberal.
E a oposição? Temos pequenos partidos à esquerda para compor o ramalhete governativo quando necessário, mas perderam força com o fim do PREC 2. Havia o CDS, ’rigorosamente ao centro’ com bons quadros que emigraram para parte incerta. À direita o Chega não passa ainda de grupo contestatário e o IL não se sabe bem se é de esquerda ou direita.
Quase me esquecia do PSD, que não se consegue afirmar. Desde que Passos Coelho se afastou após o ‘golpe Costa 2015’, não consegue atinar. Rui Rio, um político aparentemente honesto, foi um desastre para o partido e para o país e tarda em aparecer uma proposta que afaste o PS do poder, que nos vem arruinando.
O povo parece estar resignado a passar de um império a um dos países mais pobres da Europa. O PSD tornou-se “aparelhístico”, fechou-se à sociedade. Longe vai o tempo em que fervilhavam os núcleos do partido, os grupos de trabalho, as propostas para combater os comunistas e os socialistas, ambos com vocação de capitalismo de Estado.
E a metade que não vota? Após uma adesão (ilusão?) inicial quase total foram aos poucos perdendo a esperança ao ver o estado a que isto foi chegando. Os mais velhos estão cansados de ver endeusar na comunicação social, nas redes sociais e nas ‘sondagens’ o homem que mais tem contribuído para tornar esta nação irrelevante se ainda viável. Os mais novos vão-se pondo ao fresco. ■

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