Woke – a cultura de cancelamento e de escravidão

Todos nós voluntária ou involuntariamente já tropeçámos no termo woke, um anglicanismo importado para a nossa língua, que sendo um termo político, de origem afro-americana, se baseia na percepção e na consciência de carácter hipersensível relativamente a questões de justiça social e racial.
Estamos a falar propriamente de um movimento progressista, sendo uma das principais caraterísticas desta cultura a extrema sensibilidade à ofensa. A palavra woke (acordado, consciente) começou a ser utilizada na luta afro-americana contra o racismo, mas passou também a designar a política progressista em matéria de género e em particular sobre os direitos trans. Os macabros vídeos dos assassinatos de homens negros desarmados por policias que começaram a circular pelas redes sociais em meados da década de 2010 impulsionaram notavelmente a teoria crítica da raça.
Os activistas actuais, imbuídos por um espírito de justiceiros, tendem a indignar-se por qualquer expressão que pareça problemática e controversa, e ao contrário do que acontece na maioria das correntes da esquerda intelectual, o movimento woke não tem nada de relativista; quando algo ou alguém é considerado problemático, acaba sendo cancelado, ou seja, censurado, perseguido e excluído. Esta nova consciência revela-se como um fenómeno maniqueísta: as ideias e os comportamentos que não se enquadram na categoria de aceitáveis, segundo os parâmetros wokeistas, são consideradas radicalmente imorais.
Na realidade, este movimento emergente, que representa “estar acordado para as injustiças sociais”, castra a liberdade de expressão pela qual lutámos durante anos consecutivos, sendo que o termo é muitas vezes relacionado a pessoas hipócritas que se declaram moralmente superiores e que pretendem impor as suas ideias aos outros sem propriamente valorizarem a mudança.
O movimento woke apropriou-se do conceito de justiça social e encabeçou a demanda contra o racismo, apontando o patriarcado como a génese de todos os males, ou seja, o homem branco. Baseado em políticas identitárias, de autodeterminação e ideológicas, rapidamente contaminou a cultura, os Media e a internet, usando de um registo violento, castrador e autocrático. É uma espécie de miscelânea alucinada de causas justas com tiques marxistas, usando um código de regras extremistas. Quem não é woke, é rotulado de racista, fascista e preconceituoso.
O movimento woke não é de todo relativista, mas antes autoritário, considera o “adversário” não só como estando errado, mas como alguém que encarna o mal, um inimigo a abater, pois só é admissível confiar nos fiéis especialistas do politicamente correcto. Este é um movimento que não dialoga, estigmatiza. É de um autoritarismo puro e estigmatizador, no qual os especialistas woke, do alto da sua cátedra, declaram urgência em proteger os indefesos e os ostracizados desta vida, usando-os como alibis para destruir os valores da cultura ocidental e impor uma nova directriz progressista que depaupera a democracia e a consciência individual. O wokeismo é a tentativa explícita de rescindir a tolerância, a liberdade e o livre arbítrio. Não tendo líder, nem centro, nem fronteiras, move-se como uma onda devastadora e gigantesca por todas as facetas da cultura ocidental, moldando e redefinindo a sociedade à sua medida.
O seu objetivo, declarado ou não, é o completo desmantelamento da cultura ocidental. Sobre as cinzas do humanismo secular nos últimos 70 anos, gerador de um absurdo vazio existencial, o wokeismo desenvolveu uma nova visão da realidade desfigurando raízes e culturas numa tentativa desenfreada de reescrever a História. É uma entidade não linear, um movimento cultural, uma ideologia dinâmica e um jogo de poder em si, sob o disfarce de proteger vozes marginalizadas.
Existindo suspeita sobre alguém que negue este politicamente correcto, as consequências podem ser avassaladoras, podendo conduzir à sua marginalização, a ser silenciado, demonizado e até ser expulso do seu trabalho ou universidade, numa palavra – cancelado.
Disfarçado sob a forma de compaixão e justiça, o wokeismo é uma trend portadora de uma ideologia incompatível com os valores ocidentais e incongruente com a cosmovisão cristã. Foi o cristianismo que veio defender a consciência individual contra a colectiva, que abriu caminho para os direitos humanos, lançando pela primeira vez as sementes da tolerância religiosa ocidental, na implementação de sucessivos movimentos sociais, o que possibilitou ao ser humano ser tratado com igualdade, dando um sentido divino à humanidade.
A ditadura woke é um vírus anti-Cristo que se propaga pela cultura ocidental, obrigando muitos a cederem à chantagem dos seus conceitos absolutos e absolutistas, sob pena de serem cancelados ou excluídos. Trata-se de um teste de resistência face ao autoritarismo implacável da desconstrução social e cultural, e que se não for controlada, esta nova religião poderá levar a uma completa anulação da cultura ocidental, enfraquecendo nações, tradições, valores e democracias.
Sejamos resilientes e corajosos, não branqueemos a verdade, nem entremos em consensos com esta cultura de cancelamento e de escravidão, não assumamos a culpa do que nos queiram imputar. Não cedamos a chantagens de controlo do pensamento, nem deixemos que com o nosso silêncio esta estratégia cultural extinga a nossa Cultura e a nossa Humanidade. ■

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