O governo do carreirismo e da subserviência

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Entre a guerra da Ucrânia, o casal Smith, o “rollercoaster” dos preços dos combustíveis e outros episódios que, apesar de somenos importância, entretêm a turba lusa, o novo Governo tomou posse. 

Mais do que o ar boçal de alguns dos novos ministros na foto de família, a fazer lembrar uma caderneta de cromos raros e em que ressalta o deslumbramento da nomeação e se lobriga o salvo conduto para o disparate ilimitado, irresponsável e inconsequente, importa sublinhar que se trata do primeiro Governo que Costa quis fazer. 

Se nos anteriores a conjuntura impunha alguns nomes, créditos e currículos que emprestassem seriedade e competência, hoje, com uma maioria absoluta firme, com uma comunicação social amordaçada, com uma oposição moribunda e um povo modorrento e criticamente ausente, o primeiro-ministro tratou de premiar a militância, a subserviência e, sobretudo, garantir uma mudez dentro do partido que pudesse atrapalhar os seus planos futuros. 

No seu espírito despótico, ainda que sorridente e com o ar de pateta alegre que tudo desconhece e atribui à Previdência, como se o Universo tivesse vontade própria, foi incapaz de se conter e manter uma postura reservada e de Estado, como o cargo lhe impõe e o respeito pelas instituições obriga. O “leak” da composição governativa antes da comunicação oficial ao Presidente, uma vez mais, não encontrou culpados ou justificações creditórias. Foi, no entanto, uma primeira farpa e um aviso ao que se seguirá: ele é magnânimo e ditará os termos da relação com Belém, reduzindo Marcelo a uma mera figura de estilo. 

O Presidente percebeu o sinal e logo tratou de responder na tomada de posse, alertando para o voto nominativo que trará responsabilidades acrescidas, nomeadamente quanto à permanência no cargo. O remoque tem o mesmo efeito de caçar leões com fisgas, servindo apenas para constar nos anais da estória (sem H, já que disso não passará!). Costa não será condicionado pelo discurso e, menos ainda, pela ameaça, que sabe ser vã, de eventual dissolução parlamentar se abandonar o navio a meio da travessia. Em bom rigor, pouco lhe importa, pelo que tratou de preparar os cenários sucessórios.

Os delfins, iludidos com o palco e crentes numa corrida a três, com Temido à espreita, ignoraram os sinais mais óbvios. Costa engendrou o plano A e B, que não comporta nenhum daqueles nomes. Fez ascender Mariana Vieira da Silva à linha de partida, garantindo-lhe um franco avanço sobre os restantes. Se Medina, Nuno Santos, Ana Catarina Mendes e Temido têm pelouros complicados de gerir, sujeitos a variáveis que não controlam e expostos à contestação social das medidas que tomarem, cuja responsabilidade política terão que assumir, Vieira da Silva encontra-se protegida por uma bolha insuflável, capaz de absorver estes embates. Mais, caber-lhe-á a gestão comunicacional, minorando ou agravando as deficiências e lapsos dos seus contendentes. É a segunda figura do Governo, cabendo a Costa gerir a sua exposição e as ocasiões em que o substituirá, como se de um balão de ensaio se tratasse. Caso tal não se mostre solução eficaz, tem como plano B, o amigo de longa data, Costa e Silva, o pai do PRR.

Os delfins estão sob fogo, tendo que prestar provas diariamente. Se, e quando, caírem, não cairão apenas da cadeira governativa, mas fá-lo-ão com tal estrondo que hipotecarão qualquer aspiração sucessória. 

E, também institucionalmente, ainda que num outro plano, mostrou claramente ao que vinha, desrespeitando as tradições da casa da democracia, ao instruir os seus fâmulos na votação para as vice-presidências da Assembleia da República. O chumbo, sem apelo nem agravo, aos candidatos do Chega e IL, representam a amplitude e abrangência da mão invisível do Rei Sol. O tal que escapa entre os pingos da chuva, apesar de ser o mandante das tempestades. Ninguém o confronta, ninguém o contesta…

Para além dos sinais internos e institucionais, Costa “falou” também para o povo português. Consagrou a importância, não da competência, da honestidade ou do mérito, mas da lealdade, do carreirismo, da subserviência e, nalguns casos, da própria falta de escrúpulos ou espinha dorsal. Numa Europa que afasta os emissários russos dos seus postos diplomáticos (França, 35; Alemanha, 40; Espanha 25), Costa promove Medina a ministro das Finanças, apesar de este ter facultado a Putin a identificação, à margem da lei, de opositores ao seu regime. Aquilo que noutro qualquer país civilizado, seria alvo de processo criminal, no Portugal de Costa é motivo de promoção maior. Não sendo isto, por si só, anedótico e lamentável, caberá a Medina gerir a pasta das Finanças no período em que executa o PRR e o plano “Portugal2030”, com fundos a rodos, não se lhe reconhecendo especiais apetências para tal. Pelo contrário: o que Medina tem para mostrar é a manifesta incapacidade e inabilidade para gerir o orçamento camarário, sendo o principal responsável pelo défice astronómico da câmara da capital. Ora, os silogismos de Costa terão lógica própria, já que “se não és capaz de gerir uma câmara, serás o melhor que temos para gerir um país”. O sinal é preocupante e não augura nada de bom, relativamente aos verdadeiros motivos que estarão por trás de nomeação para cargo desta responsabilidade.

Nesta lógica promocional, segue-se Adão e Silva. O que se lhe conhece é uma subserviência rasteira a Costa e ao partido, que já lhe valeu um ordenado principesco, num contrato promíscuo e vergonhoso das comemorações abrilescas. O homem dos croquetes é o paradigma dos valores socialistas: defende o teu chefe com todas as tuas forças, para lá do razoável e daquilo que a tua integridade permite, pois ele te premiará! Assim foi! Em dose dupla. Também premiados os carreiristas e indefectíveis, José Luís Carneiro, Duarte Cordeiro e João Costa.

E num PS que se diz plural e defende a inclusão, fez Costa por incluir uma linha dinástica, em que os filhos de ex-ministros ocupam lugares em função do apelido.

Apresento-vos o nosso novo Governo, com um Costa que se anuncia a prazo. ■