Antevisão das eleições presidenciais francesas

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Mais uma eleição que chega e aparecem os “tudólogos” que acham que sabem tudo sobre tudo, mas depois deixam quem sabe à beira de um momento de vergonha alheia. Como francófono e como consultor político, nesta eleição tenho visto muitos erros de análise, alguns deles básicos, mas se as pessoas também o são…

Macron, que sonha ser o Napoleão Bonaparte do século XXI, apresenta-se a eleições com uma fraca agenda de campanha, encontros cirúrgicos, entrevistas escolhidas a dedo, porque tem de assumir outro papel: líder europeu, com esperança de que se vencesse Putin, venceria as eleições. Vencer Churchill também?

Chegamos a estas eleições com candidatos polarizados e, fruto disso, Macron e Le Pen aparecem como opções “óbvias” ou de escolha mais fácil. Se queremos lucidez escolhemos Macron, se queremos uma viragem radical (mais moderada do que há 5 anos) então a escolha é Le Pen. Quando as eleições são polarizadas, as caras familiares ou as que nos parecem mais confiáveis são as escolhas maioritárias. Dá-se aqui um paradoxo, em que Macron e Le Pen parecem ser mais moderados, ao passo que os restantes mais extremados.

A chave para perceber as eleições presidenciais em França está na Revolução Francesa, que está presente no dia-a-dia francês e se torna metáfora para os dias de hoje. 

Perguntavam-me no Podcast Conversa por que razão a esquerda francesa não tem poder ou muito impacto. Não tem nas presidenciais, mas tem na sociedade, ou nas regiões, onde o PSF elegeu e ganhou regiões; os sindicatos em França são altamente organizados e participam activamente na vida das empresas, com soluções e não como forças de bloqueio ou braços armados dos partidos. Existe outro sentido de responsabilidade, que os nossos sindicatos não têm, infelizmente. A esquerda não é de boa memória para os franceses, que estudam a sua história e passado. Se nós estudássemos o 25 de Abril e o 25 de Novembro a sério, possivelmente o PCP e o BE não tinham votos. Os franceses não esquecem a Frente Popular e a sua ingovernabilidade, ou os excessos do Maio de 68 e a agenda marxista.

Mas há outra coisa que é importante perceber nos franceses: eles votam nas pessoas, não pelos partidos, assim se percebe o porquê das refundações dos partidos de centro-direita, que são gaulistas; e o próprio PSF não recusou muitas vezes o gaullismo.

Assim feita esta súmula, é muito fácil dizermos que a esquerda está morta em França quando o PSF com Anne Hidalgo tem 2-3% das intenções de voto. Mas esquecemos que Jean-Luc Mélenchon, de 70 anos, está em 3º lugar nas intenções de voto com 15% a 17%, liderando desde 2017 o França Insubmissa, partido eco-socialista de extrema-esquerda. É um candidato que, apesar da idade, é muito virado para o público jovem, parece viver o Maio 68 em ‘loop’. Quer fundar uma VI República com mais poder ao Parlamento do que ao Presidente, reforma aos 60 anos (actualmente 62 anos para os nascidos a partir de 1955, 65-67 anos os restantes), voto aos 16 anos e obrigatório, aumento do salário mínimo para 1.400€ (actualmente 1.269€), nacionalizar empresas estratégicas, fixar preços de bens de primeira necessidade, gás e electricidade, legalizar a canábis e a eutanásia, e a “regra verde” a inscrever na Constituição, onde não se poderá retirar à Natureza mais do que ela pode devolver, bem como abandonar a energia nuclear. Este candidato mobiliza maioritariamente a esquerda, pois Anne Hidalgo, presidente da Câmara de Paris, candidata do PSF, comprou muitos anticorpos. Fez um bom trabalho em Paris, mas a capital não é o país. A esquerda toda vale 29,5% das intenções de votos.

Nestas eleições surgiu uma personagem sombria: Éric Zemmour. Este candidato consegue fazer Marine Le Pen parecer uma menina do coro. As suas principais bandeiras são: a baixa de impostos, para que os salários líquidos subam; política de zero emigração e deportação dos emigrantes que estejam 6 meses sem trabalho, ou por chegada clandestina; fim do direito ao solo, que permite que filhos nascidos em França dêem a nacionalidade francesa aos pais; saída do comandado integrado da NATO; instaurar o serviço militar voluntário; recusar os alargamentos da UE; impedir a construção de eólicas, por aposta em 14 reactores nucleares até 2050; e a idade da reforma para os 64 anos. Zemmour chegou a ameaçar concorrer à segunda volta contra Macron com 20% na primeira volta, viu nomes pesados ex-apoiantes de Le Pen abraçarem a sua causa, entre eles a sobrinha Marion Le Pen. Mas discursos sem fundamento, ou apenas cegueira populista, ou a recente admiração e apoio a Putin, fazem-no cair para 9,5% das intenções de voto. Ainda assim é uma bolsa importante de votos com que Marine Le Pen vai querer contar para a sua segunda volta contra Macron.

Valérie Pécresse é a candidata do centro-direita, Les Républicains, partido fundado por Nicolas Sarkozy, que vinha da UMP de Chirac. Apesar de ser mulher com muita experiência na política, ex-ministra e ex-comissária europeia, declarou 9,7 milhões de euros em património, sendo que metade deste valor pertence também ao marido, extremamente rico como ela. Uma vez mais Revolução Francesa: não se gosta de ostentação. Macron, em comparação, na sua declaração tem apenas 500 mil euros de património, Mélenchon tem 2 milhões de euros. Valérie Pécresse não consegue criar empatia, não consegue convencer/tocar o francês médio.

Marine Le Pen, tal como Mélenchon, candidata-se pela 3ª vez ao cargo. Tem as ideias muito semelhantes às de Zemmour, mas veio a polir o seu discurso e ideias, já não se apresenta anti-UE, diz que a UE tem é que ser uma Europa das nações e não ser Bruxelas a impor as políticas nacionais. Se Zemmour expulsa os emigrantes ao fim de 6 meses, Le Pen é ao fim de um ano. Pretende que o francês tenha prioridade a uma vaga de trabalho ou de habitação face a um estrangeiro, tal como faz agressivamente Marrocos. Aumentar em 30% o orçamento militar até 2027 e sair do comando integrado da NATO, baixar o IVA dos combustíveis de 20 para 5,5%, empréstimos de 10 anos aos casais com menos de 30 anos a 0% juro (se o casal tiver um terceiro filho a dívida fica saldada), uso de uniforme na primária, guerra às eólicas e aposta na energia nuclear.

Por último, Macron. Parte com vantagem, mas é o momento de prestar contas aos franceses. Houve expectativas, algumas conseguidas, outras não, muito devido à pandemia, que ocupou basicamente meio mandato. Macron, como liberal que é, pretende baixar os impostos, colocar a reforma nos 65 anos, criar um banco de horas laboral, onde se pode trabalhar mais numa época e menos noutra, retirar os 138€ de imposto anual à televisão pública, reforma mínima de 1.100€, aumentar salários dos professores, reforço dos profissionais de saúde, reforçar o controlo de fronteiras e apostar na energia nuclear.

Existe um alarme, quase em modo de pânico, face ao facto de Marine Le Pen estar a aproximar-se de Macron. As duas voltas são garantidas. Numa segunda volta, é expectável que o centro-direita vá para Macron e a esquerda responsável também; o resto irá para Le Pen. Por mais que Le Pen tenha moderado o seu discurso, não creio os franceses esqueçam quem ela é, e o que fez. 

Para muitos, Macron é liberal apesar de ter saído do ALDE e fundado o seu grupo europeu; mas para muitos é o centrão. E enquanto as pessoas não perceberem que os centrões existem vão falhar análises atrás de análises. Macron tem dois hemisférios: no esquerdo está a componente social e ambiental; no direito, o pragmatismo económico. É assim que suga a concorrência. Macron tem igualmente a vida facilitada, pois à esquerda estão os mesmos de sempre, na extrema-direita estão também os mesmos de sempre. E entre o centro-esquerda (PSF) e o centro-direita (Les Républicains) reina a falta de comando, a falta de liderança e de capacidade de levantar a voz e trazer novas formas de fazer e comunicar a política.

Espero que estejamos todos em 2027. ■