Unidade num CDS esperançoso

Inesperadamente, Nuno Melo chegou ao 29º Congresso do CDS de R4 branca, uma verdadeira peça de colecção. Uma chegada a fazer lembrar o episódio da rodagem do carro de Cavaco Silva no Congresso do PSD da Figueira da Foz, apesar de esta Renault 4 icónica ter milhares de quilómetros e de Nuno Melo já ser o candidato assumido para estes tempos difíceisque se avizinham.

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No pavilhão Multiusos de Guimarães, mais de 1.200 congressistas esperavam desanimados, na ressaca da perda de representação parlamentar nas últimas legislativas. Cada um pagou 40 euros para participar, já que as finanças do CDS também estão totalmente deficitárias e a ausência do Parlamento implica ainda a perda de subvenções estatais. Mas com o correr dos trabalhos a animação foi crescendo e os congressistas começaram a acreditar num futuro de recuperação para o CDS. O cheiro a pipocas vindo do hall do Pavilhão foi uma constante na sala, mesmo que em diversas barraquinhas se vendessem também cachorros-quentes e cervejas para as longas horas de trabalhos.

O contributo monetário pedido aos congressistas permitiu um Congresso nos moldes de um grande partido e muitos estão dispostos a trabalhar para voltar a trazer o CDS para a ribalta política. “Dar a volta à situação” era uma frase ouvida com muita frequência.

O DIABO encontrou Manuel Monteiro à chegada do ex-líder do CDS ao Pavilhão e perguntou-lhe se «era bom regressar». Monteiro confirma que «é bom» e adianta que vem «dar o seu contributo para o CDS e para o futuro do partido». Caberia a Manuel Monteiro fazer o melhor discurso deste Congresso, levantando a sala várias vezes.

Ninguém desista!

O antigo presidente do CDS-PP Manuel Monteiro declarou desde logo o seu apoio ao candidato à liderança Nuno Melo, considerando que é o eurodeputado que “está em melhores condições” para assumir o cargo. Numa intervenção perante o 29.º Congresso, Monteiro disse ainda estar “perfeitamente disponível” para ajudar o futuro presidente, “sem cargos, sem qualquer estatuto” que não seja o de ter sido líder da Juventude Centrista e presidente do CDS-PP.

Manuel Monteiro, que não falava num Congresso do CDS há 20 anos, deixou ainda uma palavra de otimismo aos democratas-cristãos. “Animemo-nos, ninguém desista!”, apelou, perante uma sala cheia e que o aplaudiu por várias vezes durante os cerca de 30 minutos que durou a sua intervenção, muitas vezes de pé.

Manuel Monteiro guardou para o fim as razões pelas quais ia apoiar Nuno Melo neste Congresso electivo, apesar de um dos outros candidatos, Nuno Correia da Silva (que acabaria por retirar a sua candidatura) até ter sido seu vice-presidente. “Creio que o partido deve serenamente pensar que os desafios que temos pela frente obrigam de uma forma serena e objetiva a percebermos que não é aquele de que alguns gostarão mais ou não, mas o que está em melhores condições de poder aceitar este desafio com a ajuda de todos”, disse. “Eu penso que o dr. Nuno Melo, sendo deputado europeu, tem essa possibilidade”, afirmou, revelando que o candidato à liderança o tem contactado para pedir opiniões sobre vários temas.

Manuel Monteiro, que invocou razões pessoais para abandonar o Congresso logo depois de intervir, reiterou que “mais importante do que mágoas passadas será encontrar quem tenha a capacidade de levar este desafio em frente”. Admitindo que possa ter estado ligado a aspectos negativos da história do partido, Monteiro repetiu, por várias vezes, que “o importante não é como o CDS chegou aqui, mas sim como conseguirá sair da situação em que se encontra”.

Lições de moral

Em termos programáticos, o antigo líder do CDS-PP entre 1992 e 1998 (que depois saiu em 2003 para fundar a Nova Democracia e só regressou em Maio de 2020) manifestou-se frontalmente contra qualquer processo de regionalização, criticou o que chamou de “regime ditatorial de quotas de género”, e defendeu que o partido tem de denunciar que “o rei vai nu” no sistema educativo. E advertiu: o PS “tenderá a valorizar e privilegiar o Chega e a IL porque sabe que é isso que convém à sua manutenção no poder para o futuro”. Simplesmente – afirmou – à primeira oportunidade esses partidos dão a mão e contratam pessoas que defendem o contrário», uma crítica certeira à contratação da antiga deputada Cristina Rodrigues, primeiro do PAN e depois como independente, que já confirmou que vai ser assessora jurídica do partido Chega.

A finalizar, Monteiro afirmou que o CDS «não tem de ter medo dos liberais de pacotilha»: «Não recebemos lições de moral de liberais que vivem à conta de orçamentos de Câmaras Municipais e do Orçamento do Estado». E rematou: “Por muito mau que seja o CDS não ter representação parlamentar, temos todas as condições, mesmo fora do Parlamento, para liderar a oposição a António Costa e ao PS. Basta querê-lo, basta sabê-lo, basta ter essa vontade”.

O apoio de Portas

Paulo Portas foi e veio de Lisboa a Guimarães para dar o seu apoio ao candidato mais consensual. Não quis falar no púlpito do Congresso, mas desejou a Nuno Melo na presidência do partido um “bom trabalho e eficácia nos resultados”. Paulo Portas, que presidiu ao CDS-PP durante 16 anos, explicou que foi a Guimarães votar nos órgãos nacionais, como tinha anunciado, o que nunca tinha feito desde que deixou a liderança, regressando imediatamente a seguir a Lisboa por “compromissos profissionais”.

Respondendo indirectamente a quem insinuara que queria, sobretudo, evitar cruzar-se com Manuel Monteiro, com quem teve graves desinteligências no passado, Portas foi claro: “O CDS não fez ajustes de contas, todas as ajudas são bem vindas. É importante que Nuno Melo respeite todos os passados. Estamos no século XXI, em 2022, e não no século XX, nos anos 90”.

Recorde-se que Monteiro e Portas se afastaram – depois de colaborarem durante anos – quando o segundo sucedeu ao primeiro na liderança do partido de forma algo tempestuosa.

Tal como tinha referido quando anunciou a sua deslocação a Guimarães, Paulo Portas salientou que “este sinal” não significa um regresso à vida partidária. “Tudo na vida tem um tempo”, afirmou. Portas, líder do CDS-PP entre 1998 e 2005 e depois entre 2007 e 2016, despediu-se e recebeu aplausos dos congressistas já presentes no pavilhão multiusos de Guimarães, a quem acenou à saída. ■