O PS dos dias negros

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Ao longo dos últimos anos os líderes europeus foram criando laços de cooperação económica que agora se constata terem sido um enorme equívoco estratégico na dependência energética e alimentar em que colocaram alguns ou quase todos os países europeus.

O mundo moderno entendeu que relações económicas transparentes ajudariam os povos a desenvolverem-se e a criarem um ambiente propício a entendimentos políticos sérios e saudáveis.

Tal propósito vem agora, de uma forma cruel, ser desmentido pelo comportamento de Putin, utilizando a relação comercial como forma de chantagem e arma de arremesso.

Justiça seja feita aos líderes europeus que, rapidamente, de forma clara e explícita, recusaram dentro do possível toda e qualquer pressão daí vinda, procurando soluções em outros cantos do mundo.

Também aqui o primeiro-ministro de Portugal tem sido claro nas suas opções, subscrevendo as sanções económicas entretanto decididas e alinhando no panorama mundial de repulsa e condenação da invasão da Ucrânia.

Portugal poderá ter uma janela de oportunidade na resolução do conflito com a França na construção de um pipeline para transporte de gás que atravesse os Pirenéus e chegue ao centro da Europa.

Este cenário de guerra na Europa coloca as economias europeias debaixo de pressão, com índices de inflação impensáveis e uma instabilidade económica no campo energético, com subidas exponenciais dos combustíveis e, por tabela, várias matérias-primas e alimentares.

Para um país como o nosso, com uma dívida pública astronómica, o cenário não se apresenta risonho.

Poderíamos supor que a estabilidade política alcançada depois das últimas eleições com a surpreendente maioria absoluta do PS poderia trazer algum discernimento e clarividência no enfrentar destes desafios.

Puro engano.

Na semana em que a Assembleia da República tomou posse e foram indigitados os novos ministros com a correspondente apresentação do programa de Governo, assistimos, perplexos e em nome de uma nova ordem democrática e absoluta, a dois fenómenos de discussão pública, tristes e preocupantes.

A eleição da Mesa da Assembleia da República, em que dois vice-presidentes foram chumbados e os restantes elementos são representantes de dois partidos (PS/PSD), não perspectiva nada de dialogante e pluralista no debate parlamentar.

Por outro lado, a discussão sobre o futuro político de recente primeiro-ministro António Costa que, acabado de ser nomeado, foi incapaz de desmentir a sua pública vontade de dentro de dois anos querer sair para um qualquer lugar em Bruxelas, deixando o país entregue a um saco de gatos protagonizado pelas diferentes personalidades e tendências com aspiração a líderes do Partido Socialista. Talvez por isso António Costa a todos tenha nomeado ministro, para os ter debaixo de olho.

Poderíamos pensar que para tristeza já chegava o horizonte de manutenção do cenário de Guerra e estes dois equívocos da nova maioria, mas não, a maior surpresa e desilusão preocupante iria ser pública na sexta-feira passada. A apresentação do programa de Governo.

Um texto vago de ideias, sem vislumbre de reformas estruturais e, pasme-se, sem qualquer menção aos novos cenários macroeconómicos derivados do conflito ucraniano.

Para o governo PS a inflação galopante não é problema nos combustíveis. Quaisquer 20 euros no “Ivaucher” resolve o problema de quem, sem alternativa de transporte público, se vê obrigado a utilizar viatura própria todos os dias.

Os desafios de Portugal já eram enormes e alguns bem sentidos depois de dois anos de Covid. Soluções para os sectores da Saúde e Ensino, onde a falta de professores e médicos é latente, esvoam-se em chavões repetidos até à exaustão. Reformas estruturais no tecido económico do país, em que os aumentos salariais sejam uma conquista pela via da produtividade e política fiscal, aí invés de imposições governamentais são imperiosas.

Veremos em sede de Orçamento o que nos espera, mas o horizonte apresenta-se sombrio, diria mesmo a raiar a cor negra de tempestades. ■