O Governo em contramão

HENRIQUE NETO
HENRIQUE NETO
Henrique José de Sousa Neto é um empresário e antigo deputado à Assembleia da República, eleito pelo Partido Socialista.

A situação política nacional está de tal forma viciada na propaganda e na luta político/partidária que é difícil saber quem fala e escreve a sério ou apenas dá execução a encomendas pré-fabricadas. Em que qualquer esforço de tentar pensar e agir com alguma racionalidade nas diversas áreas que afligem os portugueses se depara com a indiferença, na melhor das hipóteses com a controvérsia. Vejamos alguns exemplos.
Economia
O ministro da Economia e do Mar, António Costa Silva, publicou recentemente no jornal “Expresso” um artigo em que pinta um quadro cor-de-rosa da economia portuguesa, que nada tem a ver com a realidade e que deixa a dúvida de saber se estamos em presença de um iluminado que vê o que mais ninguém enxerga ou de um aldrabão. Confesso que me inclino para a segunda hipótese, porque me parece impossível que alguém possa desconhecer que a produtividade nacional caiu quase dez pontos em dez anos; que a dívida pública continua a crescer em valor absoluto e os juros a subirem; que 50% de exportações sobre o PIB nos coloca na pior posição entre os países da União Europeia (EU) da nossa dimensão e com pequenos mercados internos, que exportam ente 70 e 100 por cento; que o rendimento per capita dos portugueses em unidades de poder de compra continua a afasta-se de todos os outros países, se excluirmos a Grécia e a Bulgária; que a “AutoEuropa” vai fechar durante dois meses e que é bem possível que dentro de alguns, poucos, anos, feche de todo; que a dimensão de mais 90% das empresas portuguesas é muito pequena, que estão principalmente vocacionas para o comércio, que na sua esmagadora maioria não exportam e que muitos dos empresários e trabalhadores sobrevivem com baixas qualificações e baixa produtividade; que as grandes e médias empresas de qualidade europeia vivem em Portugal esmagadas por impostos; que o PRR e os restantes programas europeus de muitos milhares de milhões de euros estão encalhados e alguns especialistas europeus e portugueses já consideram que são um caso perdido. Repito, como é possível que o ministro que gere a economia desconheça tudo isto?
Educação
Vai começar um novo ano lectivo com milhares de alunos sem todos os professores. Sabe-se há anos de que a contratação de novos professores é insuficiente e que as condições de acesso e de permanência no ensino não são atractivas, que as negociações entre os sindicatos e o ministro se arrastam há anos sem que exista um qualquer plano de solução e que as greves dos professores vão continuar sem fim à vista. Mais: as creches e o pré-escolar estão em crise com falta de vagas e de qualidade e mais de metade das crianças quando chegam ao ensino oficial, aos seis ou sete anos, já estão marginalizadas nos seus conhecimentos e competências relativamente aos seus colegas das famílias com melhor nível de vida, uma marginalização que fica para a vida inteira, com consequências sociais e económicas para o país. A mesma questão, como é possível que o ministro da Educação conviva com tudo isso e sem um sobressalto, antes passando o tempo a negar a realidade e a criar soluções de fantasia?
Saúde
Imperturbáveis, as notícias continuam a chegar do fecho de serviços hospitalares, das mortes de portugueses vítimas das longas esperas e das constantes mudanças de hospital em hospital, das listas de espera e da permanência das ambulâncias durante horas à porta dos hospitais. Para além disso, temos as greves dos médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares, que continuam perante a inutilidade das constantes conversas de família do ministro nas televisões. Além disso, o nomeado director executivo faz planos, sem que tenha ainda o necessário plano para as suas próprias funções. A doença do Serviço Nacional de Saúde já passou a endémica, mas há quem não veja.
Justiça
Em Portugal, a Justiça assemelha-se a um imenso “pipeline” por onde, de um lado, entram diariamente novos processos e, do outro, não sai quase nada. Ou seja, o tubo da justiça portuguesa vai engordando a cada dia que passa, até porventura rebentar. Até lá o investimento foge de Portugal, os funcionários fazem greve e o ministério da Justiça faz alguns fretes ao executivo para que nada aconteça. Entretanto, sob o signo “de à justiça o que é da justiça”, a corrupção engorda e cresce.
Habitação
Aparentemente o Governo do PS ainda não compreendeu o problema do preço elevado das casas para comprar ou arrendar, porque o problema não é a falta de casas, pelo contrário, pelo menos em Lisboa e no Porto, onde existem no mercado milhares de casas. O problema são os custos elevados, seja pela via do custo dos terrenos, dos custos elevados da construção, dos materiais e dos impostos, estes entre os mais elevados da União Europeia. Ao mesmo tempo, o Estado possui milhares de edifícios e de terrenos abandonados, enquanto Portugal tem o pior índice da União Europeia de oferta de casas para habitação de origem pública. Mas mais, por via da indisciplina generalizada em que vivemos, as casas do Estado não têm a manutenção devida, os inquilinos deixam de pagar a renda, mas nada acontece. Assim, como é óbvio, a lei do Governo de “Mais Habitação” é demencial porque parte do princípio que se pode fazer pela força o que não é feito pela economia de mercado existente em toda a restante União Europeia. A ministra claro que não dá por isso e sonha com uma economia a mando do Estado, do tipo da antiga União Soviética.
Ferrovia
Igualmente, António Costa decidiu adoptar a existente bitola ibérica para a chamada modernização da ferrovia em Portugal, isolando o nosso transporte de passageiros e de mercadorias do resto da Europa, perdendo os fundos comunitários existentes para a transição para um sistema ferroviário europeu competitivo e com empresas em concorrência por toda a Europa, além de ambientalmente avançado e mais barato.
Em resumo, este Governo de António Costa viaja em contramão e não dá por isso. ■

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