O novo normal

“E se o já falecido Jorge Coelho avisou há mais de duas décadas que “quem se mete com o PS, leva”, hoje há uma série de acólitos a proclamar tal credo, já não como cristãos novos, mas como máxima secular”

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O normal é aquilo que, em determinado período temporal, é comum, regular, usual ou que ocorre de forma natural, frequente ou habitual. É um fenómeno ou comportamento que segue uma norma ou um padrão. Daí que, pela habituação, seja genericamente aceite pela sociedade, sem necessidade de questionar. 

O normal não é intrinsecamente bom ou mau. Apenas respalda o conceito de uma maioria societária em determinada época. O tempo, a evolução do pensamento, das crenças e a sucessão de outros normais, é que o julgarão, colocando-o no lado luzidio ou sombrio da balança. A Grécia Antiga teve a pedofilia, Roma a escravatura, as cruzadas o massacre dos infiéis, a Inquisição a caça às bruxas e o século XX deu-nos o Holocausto, o Holodomor e outros tantos líderes sanguinários. Esses “normais” seguiram-se a períodos onde não o eram, onde tais práticas não existiam ou não eram socialmente aceites. A característica fundamental desses “normais” é a adesão popular ao conceito, seja por medo (nos regimes autocráticos e de forte componente militar e repressiva), seja por crença (sobretudo nos casos religiosos), seja pela adesão (pretensamente) intelectual a um determinado conceito, validando-o, acolhendo-o e praticando-o. 

Em qualquer dos casos, a “normalidade” perdurará tanto mais quanto mais forem os seus praticantes ou, melhor, quanto menos forem os seus opositores. Se os regimes autocráticos ainda se podem “dar ao luxo” de executar uns quantos que ousam questionar, já os (aparentemente) democráticos têm tarefa mais árdua e engenhosa. A ignomínia não vem em forma de caixão, mas sob a forma do desprezo, da calúnia, do silêncio, do desterro social. Paralelamente, há todo um trabalho de sapa, feito nos bastidores, de arregimentação de mais uns quantos fiéis que sustentem o “status quo”. E, porque a governação se faz de massas (se o leitor levou para esse campo o substantivo também tem aplicação plena), a manada deve engrossar pela acefalia e ausência de capacidade crítica, à semelhança do círculo desenhado no chão para conter o perú, ou da guita (esta agora foi propositada) atada ao pescoço do elefante (a alegoria é que para amestrar elefantes basta, quando bebés, atar-lhes uma corda forte ao pescoço para evitar que eles se evadam. O elefante, desconhecendo a sua força quando cresce, lembra-se apenas da corda que o impedia de fugir, pelo que a associação mental à guita o mantem submisso).

Em Portugal Costa comanda a guita. Normalizou a incompetência, o nepotismo, o amiguismo, o carreirismo, os esquemas e todo um país que, já andava de tanga e agora de guita, está impedido de adoecer em Agosto ou parir ao fim-de-semana em plenas capitais de distrito. As culpas do estado da nação, que já couberam a Passos, à pandemia, à invasão da Ucrânia, são agora atribuídas ao próprio povo, que as aceita pacatamente. Há agressões sem dó e rixas grupais sem paralelo? Não se trata de desinvestimento na segurança, mas de um povo que não se sabe comportar. O país arde de Norte a Sul? Não é falha do SIRESP, falta de planeamento ou de meios, mas sim da incúria do Zé povinho que não apaga bem a beata. De uma ou de outra maneira, aqui ou ali, somos todos os Nunos Santos desta vida que se atravessam à frente dos carros dos ministros…

E se o já falecido Jorge Coelho avisou há mais de duas décadas que “quem se mete com o PS, leva”, hoje há uma série de acólitos a proclamar tal credo, já não como cristãos novos, mas como máxima secular. São os donos das novas fogueiras que ardem de Pedrógão a Monchique, alimentadas pelo restolho deixado depois de colherem a safra, onde até os mais insignificantes se dão ares de pespineta como se fossem os senhores da terra. O “perguntem à CAP porque é que aconselhou os eleitores a não votar no Partido Socialista”, da boca de quem não sabe por que méritos foi lá parar, é o novo “normal”. O imbróglio Figueiredo (mas que mantém incólume a nomeação de António Furtado, investigado pela Justiça), é, também, o novo “normal”. Os comentários de Medina, sem contraditório, de Ana Catarina Mendes a cuspir propaganda do Governo, de José Luís Carneiro a enaltecer o próprio, são, igualmente, normalizados.

Assim como a publicação de decretos-lei e despachos em período estival, enquanto os portugueses estão a banhos, a encher o bandulho de bolas de Berlim e de futebol. Ele é sobre o Serviço Nacional de Saúde, sobre a Lei dos estrangeiros e, mais recentemente, sobre o sistema de ensino, tudo em Julho e Agosto, sob a água tépida dos Algarves e profundas reservas de um Presidente que nunca abandonou a guita, apenas a trocou, pontualmente, por uns “selfies” de circunstância. A corda é outra, mas não tardará em custar o seu pescoço…

A nova normalidade (ou normalização do absurdo), passa por não atacar os problemas na sua origem, antes por meros placebos em embrulhos de laçarote rosa. Para o menino e para a menina, que hoje é tudo a mesma coisa, à escolha do freguês! 

Se há falta de professores, lá sai decreto facilitador da contratação de todo e qualquer licenciado, num claro retrocesso aos anos oitenta em que havia que dar resposta a questões administrativas que se perderam na revolução. Uma Lei trôpega só para fazer as capas de jornal, já que a regulamentação há-de vir (ou não!) muito mais tarde. É táctica conhecida do socialismo, este legislar às prestações, como se táctica de guerrilha se tratasse. 

No Japão, o Imperador só se ajoelha perante os professores, em sinal de respeito. Por cá, até os elefantes se ajoelham para colher esmolas, neste circo que é a caricatura de um país… ■