O Pasto socialista

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Diria que os melhores anúncios são aqueles que nos ficam na memória durante um largo período de tempo. Anos e anos volvidos, damos por nós a relembrar, tin tin por tin tin (confesso que tive que ir ao “Google” conferir os espaçamentos para não ter que me sujeitar a piadas rasteiras ou, pelo menos, abaixo da cintura) os comerciais que passavam nas televisões da nossa meninice. “Capri-Sun”, “Restaurador Olex”, “Regisconta”, pasta medicinal “Couto”, os anúncios de Natal da “Coca-Cola” e tantos outros ainda perduram no baú das recordações, o que, aparentemente lhes emprestam garantias de sucesso. A percepção é, porém, errada. Os melhores anúncios são aqueles que vendem o produto, no imediato. O fito são sempre os euros e não as memórias. Os anúncios são concebidos para um consumo no momento, para um incremento de vendas, para a alavancagem de um produto. Pouco importa aos CEOs, aos CFOs e aos accionistas se alguém se lembrará dos mesmos volvidas duas ou três décadas. Nenhum deles trocará o lucro por um lugar na história da publicidade.

O maná é tão grande que até os defeitos podem ser rentáveis. Todos se lembram do Ricardo, guarda redes do Sporting, do Boavista e da Selecção Nacional, a publicitar frangos de aviário, numa alusão bem conseguida aos seus piores momentos em campo. Daí que pouco me admiraria que a “gaffe” de Joana Albuquerque: “adoro países estrangeiros onde se fala português”, seja aproveitada pelo Governo Regional para promover a ilha como destino turístico dos continentais…

Não deixam, porém, de me surpreender algumas manobras publicitárias de tão arrojadas que são. Há guerras publicitárias épicas, nomeadamente na indústria automóvel (e a brilhante campanha de usados da “Aston Martin”) e na indústria das bebidas que conheceu o seu expoente no duelo “Pepsi” vs. “Coca-Cola”. No entanto, nenhuma das empresas de “marketing” estrangeiras, com orçamentos que se assemelham ao PIB de alguns países e produções hollywoodescas, é capaz de rivalizar com o Partido Socialista de António Costa. Primeiro, porque é o primeiro país no mundo democrático a conseguir fazer publicidade a um Governo. Segundo, porque o faz sem quaisquer custos (próprios, pelo menos). Terceiro, porque o faz bem! Partindo de um modelo conhecido e eficaz, usado em diversos países – o da colocação de comentadores afectos a um determinado partido em programas políticos, fazendo a apologia das virtudes governativas – Costa inovou quando colocou a sua líder parlamentar a opinar, numa mesa de quatro, num dos programas mais vistos da televisão portuguesa. Percebendo o silêncio e o conforto das hostes – ninguém achou isto estranho, pouco ético, despropositado ou o diabo a quatro (pergunto-me para que serve a ERC se não para garantir mais alguns tachos aos apaniguados e dar uma falsa imagem de seriedade e independência na regulação), foi (muito) mais longe. Esta semana, o ministro da Administração Interna, sob fogo em diversas matérias por si tuteladas, à pala do “Correio da Manhã”, escreveu um artigo de opinião. Poderia ter sido um comunicado oficial, poderia ter sido uma entrevista, poderia ter sido um direito de resposta, mas não: foi uma opinião, pura e dura, sem contraditório, sobre as virtudes da sua governação. Nos tempos modernos equivaleria, mais coisa menos coisa, a lermos Estaline sobre os benefícios das dietas de cereais, de Hitler sobre o aproveitamento eficiente do gás ou da Graça Freitas sobre certezas e procedimentos pandémicos. Haja decoro, haja bom senso…

José Luís Carneiro leva pouco mais de meio ano à frente do Ministério da Administração Interna. Nesse período já se viu confrontado com o aumento exponencial dos fenómenos da violência juvenil e criminalidade grupal, da ausência de técnicos e operacionais no INEM, os atrasos nos aeroportos na verificação e controlo dos passaportes, com uma vasta área ardida e com o encerramento de esquadras da PSP por falta de efectivos. Apesar de uma proximidade promíscua ao regime, aplicando os filtros que os subsídios e as dependências impõem, os jornais lá vão noticiando o que o mundo digital não permite esconder: uma violência sem paralelo, com mortes e agressões graves, de facas, de armas de fogo, em grupo e por motivos fúteis e que resultam, na maioria das vezes, da falta de efectivos nas forças policiais, do escasso patrulhamento e vigilância de determinados espaços e do desinvestimento público em segurança e educação. A isto o ministro respondeu com a criação de uma “task force” pluridisciplinar para avaliar as questões e, entre outras coisas, perceber qual o impacto da pandemia no grassar da violência. 

Quanto ao SEF, ainda que percebendo o disparate da solução preconizada pelo antecessor para salvar a pele, limita-se a adiar a questão, não resolvendo o problema, não apontando alternativas, não desfazendo o despacho, nem sequer fazendo o que nunca foi feito: avaliando o impacto da extinção deste serviço e o modo de transição de competências e operacionais para outras forças.

Assentir a normalidade em que uma grávida de risco espera duas horas por transporte e que este tem que percorrer 100 Km até prestar socorro, é colocar-nos ao nível dos países do terceiro mundo. Mais valia pagar-lhe um bilhete de comboio e pô-la a assinar um termo de responsabilidade. O INEM confirma a falta de mais de 365 técnicos, mas o ministro nada diz…

E só o repúdio veemente do Presidente da Câmara Municipal do Porto pelo encerramento ao atendimento público de uma das esquadras mais importantes da cidade, aliado ao apelo de Carlos Moedas para a colocação de postos móveis em determinadas zonas da capital e do país (assumindo-se disponível para ceder meios materiais ao Governo para tal desiderato), fez com que o ministro desse a cara e dissesse considerar a solução do edil da capital.

No seu artigo de opinião enalteceu as qualidades próprias e o facto de Portugal ser um dos países mais seguros do mundo. Uma vez mais, não se comprometeu com soluções, medidas ou prazos, como convém. Conviria lembrar a Carneiro que existem esquadras neste país que não têm sequer capacidade para terem dois efectivos no posto e dois em patrulhamento, que cerca de 15% do efectivo policial tem mais de 55 anos, tendo-se, em 2020, reformado mais de 1500 agentes da PSP e guardas da GNR e que, de todos os operacionais das forças de segurança, perto de 30% executam funções meramente administrativas. Nos rácios que apresentou, comparando o número de efectivos nacionais com países como a Espanha ou a França, José Luís Carneiro oculta algumas realidades importantes. Se é certo que Portugal é o sétimo país da EU com mais efectivos policiais, com perto de 450 polícias por cada 100 000 habitantes (Espanha tem cerca de 360; os países nórdicos menos de 200, sendo a média europeia de 320), já a percentagem em países de dimensão mais pequena (Chipre, Grécia e Malta), ronda os 530, é também verdade que, no que toca às infracções penais registadas ocupamos a 4ª posição da tabela. Ou seja, não há qualquer paralelo entre o número de efectivos e a diminuição da criminalidade. O que se verifica, isso sim, é um péssimo aproveitamento dos recursos, de sinergias e um modelo operativo que consome imensos recursos. Há, pois, uma realidade paralela que escapa à opinião do ministro e a este Governo de unicórnios e vivências oníricas.

Há dois anos e meio, no Parlamento, Cabrita anunciou a incorporação de 10.000 efectivos até 2023, 2.500 por cada ano. Falhou logo no primeiro e em mais de metade, apenas tendo incorporado 1084, apesar do garbo, da pompa, da circunstância e de ter asseverado a existência, pela primeira vez na história, de um plano plurianual contemplado no Orçamento de Estado. Também Cabrita se esqueceu de dizer que, nesse quadriénio, se reformariam perto de 7.000 efectivos, ou que dos 10,1 elementos da Polícia Judiciária por cada 100.000 habitantes quando tomou posse, o rácio tinha baixado para 7,3 (o mesmo na PSP, de 206,5 para 201,2 e na GNR de 222,1 para 212,8). Confrontado com estes números, Carneiro refere não existir falta de polícias, de meios ou dificuldades do modelo. Para lá da incompetência só mesmo a sobranceria e ligeireza com que se abordam determinadas matérias, só possível pela existência de uma máquina de propaganda sem paralelo.

Joseph Goebbels foi o verdadeiro ministro da propaganda nazi, conseguindo convencer toda uma nação e parte do mundo das virtudes da raça e de um Estado cuidador como bem máximo e incontestável. A diferença é que o fez num regime autoritário, sob ameaça de repressão e de morte. O Partido Socialista de Costa fá-lo num regime (aparentemente) democrático e livre. Manteve os carneiros, só mudou o pasto… “Chapeau”!!! ■