O Vândalo: Ascenso Simões, homem-tipo do PS de hoje

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O deputado do PS Ascenso Simões defendeu, num dos mais renomeados jornais da nossa imprensa, no dia a seguir à aprovação do voto de pesar pela morte do Tenente-Coronel Comando Marcelino da Mata (em que votou contra), a demolição imediata do Padrão do Descobrimentos, por ser uma obra do nosso “detestável” ‘ancien régime’ – o Estado Novo. Exactamente na senda do projecto de eliminação dos brasões da Praça do Império, em buxo e flores, concretizados na mesma altura – 1940, Grande Exposição do Mundo Português.

Este deputado Simões é, aparentemente, mais um cruzado da que é hoje a principal ‘raison d’être’ da extrema-esquerda nacional (e não só…), que pretende transformar a História de Portugal tal como a conhecemos, reescrevê-la a seu bel-prazer e fazer tábua rasa de tudo o que considere infame e uma pedra no sapato à narrativa construída ao longo das últimas décadas. E Marcelino da Mata é uma dessas pedrinhas incómodas que ficam presas à peúga e que chateiam, chateiam muito. 

É mesmo muito fastidioso ter um negro, que não encaixe na divisão histórico-ideológica maniqueísta dos marxistas – maldosos ou incultos, em que uns oprimem ou oprimiram outros, que por sua vez são ou foram oprimidos pelos primeiros. E em plenário, na votação pelo voto de pesar ao herói de guerra Marcelino, esse aborrecimento ficou bem patente nos votos contra, por parte da esquerda que se encontra à esquerda do PS… e de mais três deputados socialistas. Se se erradicasse o factor vergonha, seriam talvez muitos mais.

E porque é que isto poderia acontecer? Pois hoje na verdade existe uma certa ala do PS que já quase não se distingue do Bloco de Esquerda. É a mesma “esquerda caviar”, intelectual e urbana, mas ainda mais acomodada e cimentada no sistema (se é que ser hoje do Bloco já não é ser do sistema…). 

Contudo, vou desviar a análise das ofensas do Sr. Dr. Ascenso Simões à nossa História – derrube do supramencionado monumento, concebido pelo Arquitecto Cottinelli Telmo e erigido em 1940 –, do seu negacionismo do Império Ultramarino Português (Ascenso Simões afirmou ser uma ficção, uma criação “salazarenta”) e do mau tratamento dado à memória de Marcelino, por palavras e sentido de voto no parlamento, e vou fixar-me no elucidativo perfil deste personagem.

Examinemos, pois, o deputado Ascenso Simões “à lupa” (já que é um afamado coleccionador de lupas, a expressão “assenta que nem uma luva”): 

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Transmontano, natural de Vila Real, Ascenso Simões é um homem da máquina do PS desde 1978. Calcorreou todo o aparelho partidário, tendo começado nos benjamins – JS de Vila Real, passando depois por vários postos políticos mais seniores a nível municipal, legislativo e governamental. Andou também por vários organismos públicos, como por exemplo a ERSE, Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (2010-2015).

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Foi um dos grandes promotores da “campanha de rua” de Sócrates nas legislativas 2009, e director de campanha de António Costa em 2015, tendo-se demitido cerca de dois meses antes das eleições, pois sob sua tutela a campanha de Costa viu-se envolvida no polémico “caso dos cartazes”, em que cidadãos anónimos de Lisboa se queixaram de que os seus supostos depoimentos, constantes de ‘outdoors’ do PS na cidade, tinham sido fabricados ou truncados.

3

Em Outubro de 2014, aproximadamente um mês antes da detenção de José Sócrates, protestou publicamente por Cavaco Silva não ter agraciado o ex-Primeiro-Ministro com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo, como é habitual em relação aos antigos detentores deste cargo. Acusou o então Presidente da República de ter procedido de acordo com o seu gosto pessoal. Acontece que, na época, as “nuvens negras” que pairavam sobre a idoneidade de Sócrates eram já mais do que muitas. Num sumário aparte: é curioso como o mesmo Ascenso Simões, que queria condecorar Sócrates com altas honras e “à força” em 2014, é o mesmo que vem agora menosprezar as condecorações de guerra, amplamente justificadas e aceites, de Marcelino da Mata.

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Ascenso Simões manifestou-se em 2016, aquando das eleições presidenciais, contra a eleição directa por sufrágio universal do Presidente da República Portuguesa, afirmando preferir uma escolha indirecta por colégio eleitoral, constituído por uma panóplia de políticos locais e nacionais (talvez com o próprio como membro). Ascenso deve ter saudades da instabilidade política do parlamentarismo da I República, apregoando a necessidade de um Presidente ainda mais dependente de forças partidárias.

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Este deputado não deixou de mostrar a sua indignação com o protocolo do acto de tomada de posse do Presidente da República, que considerou anacrónico, pela simples presença do Cardeal Patriarca de Lisboa na cerimónia. Na sua opinião, esse detalhe coloca em perigo a separação Igreja-Estado. Disse ser essa visão insuspeita por ser católico – era conhecido por ser do grupo de católicos socialistas de Guterres. Eu suspeito que se trate, sim, de um católico de conveniência, daqueles que usam essa capa simpática ao povo português, para daí retirarem dividendos políticos e legitimarem posições muito pouco católicas.

6

Ainda em 2016, Ascenso Simões, no jornal oficial do Partido Socialista, decidiu insultar o eurodeputado Paulo Rangel, por este se manifestar contra a aprovação do orçamento de Estado de António Costa. Como bom “acólito” do primeiro-ministro, não se esperaria outra postura que não a de defesa do seu “tutor”, é certo. Porém, o que já não era expectável era que chamasse “fascista”, “cabeça doente”, “insuportável agente” e mais uma série de impropérios sem nexo a Rangel.

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Em 2017, decidiu ameaçar no Twitter um colunista do Observador, João Marques de Almeida, com “um par de bofetadas”, por este ter comparado António Costa a Donald Trump. Mais uma vez a fazer jus à célebre expressão de outro dos seus “amigalhaços partidários”, Jorge Coelho: “Quem se mete com o PS, leva!”. E como bom seguidor de Costa, quem se mete com o Primeiro-Ministro também “leva” de Ascenso.

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Neste mesmo ano, o deputado Simões foi um dos que ficaram mais “danados” com o anátema colocado sobre a contratação de Inês César, filha de dois filiados e carreiristas do PS e sobrinha do “insuspeito” Carlos César (Presidente do PS e ex-Presidente do Governo Regional dos Açores, entre outras funções políticas), como técnica especializada de Estudos e Planeamento da Gebalis – empresa municipal que gere os bairros sociais de Lisboa –, com um salário superior ao de mais de 70% dos funcionários da Gebalis. Ascenso Simões disse que a socióloga de 25 anos foi escolhida no âmbito de “selecção pública”. O que não disse foi que Inês foi contratada cinco dias depois de ter terminado o contrato que a ligava à Junta de Freguesia de Alcântara (PS), em Lisboa. Num dos seus já usuais e incendiários ‘tweets’, chegou mesmo a dizer em tom indignado: “Parentes de figuras públicas só podem ser pedintes”

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Para finalizar este pequeno escrutínio através da tal lente aumentativa, remato com o último incidente a envolver o actual deputado socialista. Em Setembro de 2020, envolveu-se numa quezília de trânsito com agentes da PSP no parque de estacionamento da Assembleia da República. Ascenso Simões terá insultado gravemente os polícias. Foi levantado um auto por injúrias à autoridade. Foi identificado e não detido, pois como deputado tem imunidade parlamentar.

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Resumindo e concluindo, o deputado Ascenso Simões, que mutila e transfigura a História de Portugal à sua maneira – uma maneira ignorante e vil, que gostaria de destruir monumentos nacionais, que despreza os nossos heróis, que insulta arbitrariamente por delito de opinião, que age como um pequeno Marajá ou, como se diz hoje em dia e pelas nossas bandas, um DDT (Dono Disto Tudo), não passa de mais um sub-produto do sistema, e mais concretamente do Partido Socialista: um ‘boy’ do seu aparelho partidário, sempre ávido por se banquetear no sumptuoso e apetecível “refeitório público”, um “yes man” de António Costa, um figurão com repetidos laivos de má educação, prepotência e arrogância. 

É o homem-tipo do PS de hoje. ■