‘Órfãos’ de dono

A Covid-19 trouxe à superfície problemas com que dantes nem sonhávamos. E comprovou a importância que os animais de estimação podem ter na vida dos seres humanos.

0
884

Jorge Cid, Bastonário da Ordem dos Médicos Veterinários, não tem dúvida: “há imensos estudos médicos” que avaliam e valorizam a função de um animal em muitas doenças das pessoas. “Não estamos a falar só da parte psicológica, estamos a falar de recidivas de enfarte do miocárdio, problemas cardíacos ou outro tipo de problemas, obesidade, diabetes em várias situações”, adianta.

Esta é uma faceta que a pandemia de Covid-19 acabou por sublinhar, a par da importância crescente dos animais de estimação no dia-a-dia dos humanos. Mas o ano 2020 continuou a ser marcado pelo crime de abandono de ‘pets’ de companhia, apesar de um ligeiro decréscimo. “Em 2020, no total, foram registados 360 crimes e em 2019 foram registados 416”, quer na sequência de “acções proactivas de fiscalização ou investigação, quer por denúncia” – adianta a GNR.

A associação Animalife realizou um inquérito com mais de 200 associações de protecção animal sobre o impacto da pandemia de Covid-19, com a maioria a apontar para uma taxa de abandono de animais domésticos entre os 10% e os 20%, enquanto mais de 20% admitem uma subida superior a 30%. “As dificuldades económicas decorrentes da pandemia, provocadas por exemplo por situações de desemprego, são a principal causa invocada para justificar o aumento do número de animais abandonados neste período”, refere a associação. A maior dificuldade no acesso a bens e serviços de primeira necessidade, como alimentação ou tratamentos médico-veterinários, é o segundo motivo apontado para justificar o abandono.

Problemas nas associações

A pandemia, que já matou quase 16.000 portugueses, está a deixar muitos animais “órfãos”, que são acolhidos pelos familiares das vítimas ou por instituições, mas a ajuda é cada vez mais difícil pelas dificuldades económicas que enfrentam. Muitos ficam nas ruas. O relato foi feito à Lusa pela presidente da Liga Portuguesa dos Direitos do Animal (LPDA), Maria do Céu Sampaio, e pelo presidente da associação Animalife, ouvidos a propósito do Dia do Animal de Estimação.

Maria do Céu Sampaio revela que a Liga tem recolhido temporariamente alguns animais de pessoas que estão internadas ou em isolamento profiláctico devido à Covid-19 e outros de pessoas que morreram por causa da epidemia. “Isto é uma altura muito má também para as associações que têm abrigos, porque têm muita dificuldade em conseguir alimentação para os seus animais. Nós, por exemplo, temos 200 animais que temos de alimentar todos os dias”, conta, apelando aos portugueses para que ajudem as associações que têm abrigos nas suas localidades.

Já Rodrigo Livreiro diz que a pandemia tem motivado muitos pedidos de ajuda na Animalife porque as famílias não têm orçamento para poder acompanhar mais três ou quatro animais que passaram a ter à sua responsabilidade e que significam dificuldades financeiras acrescidas. “Aquilo que verificamos por causa da covid-19 é de facto uma maior limitação por parte das estruturas associativas porque também elas viram reduzidos os donativos provenientes de pessoas individuais que contribuem para a causa e hoje em dia têm maior dificuldade de responder positivamente a todas estas situações”, sublinha Rodrigo Livreiro.

OE tem verbas

Para apoiar estas situações, a associação criou em Março do ano passado a Plataforma Solidária Animal, que teve uma “adesão muito grande” de voluntários e que já possibilitou e entrega de cerca de 200 toneladas de ração. O presidente da Animalife realçou o facto de existir pela primeira uma rubrica no Orçamento do Estado para 2021 que permite às autarquias apresentar despesas relativas a alimentação, abrigo, vacinação, identificação electrónica e esterilização de animais cujos tutores estão numa situação de carência.

Contudo, ainda não foram publicadas as normas que explicam de que forma as autarquias podem candidatar-se a tais verbas. Assim, a associação tem apoiado famílias até no custeio de abrigo temporário dos animais enquanto estão em tratamento hospitalar ou mesmo em recuperação de situações de Covid-19, sublinha Rodrigo Livreiro.

Nesta situação, o Bastonário da Ordem dos Veterinários, Jorge Cid, defende que devia haver lugares destinados a animais de estimação que ficam sozinhos devido à incapacidade ou falecimento do dono. No dia em que se celebrou o dia do animal de estimação, Jorge Cid frisou que a Pandemia está a afectar muito a vida dos animais de companhia.

O Bastonário recordou que a Ordem dos Veterinários defende há “muito tempo” que se deve reservar lugares, nomeadamente nos canis municipais ou noutros locais que possam colaborar nesta matéria, para que estes “animais nunca fiquem ao abandono”. Por outro lado, observou, tem havido “uma maior procura de animais de companhia, quer em adopções, quer em aquisições durante a pandemia, sobretudo no confinamento”, um fenómeno que não é exclusivo de Portugal: em Espanha aconteceu a mesma coisa.

Como razões para esta procura, Jorge Cid apontou, por um lado, as pessoas terem mais tempo, e por outro, aproveitarem para dar os seus passeios higiénicos com o seu animal de companhia. “É um motivo de poder sair e poder estar mais ao ar livre, e também estão mais tempo em casa para poder desfrutar dos benefícios de ter um animal de companhia”, sublinhou.

O bastonário destacou ainda que os cães, os gatos e outros animais de estimação têm uma função muito importante na vida das pessoas, sobretudo, das que sofrem com a solidão. “Isso é fundamental, nós convivemos com essas situações todos os dias e vemos que para uma pessoa que já tem uma idade avançada que vive muito sozinha, o animal de companhia tem uma função essencial no equilíbrio emocional”, sublinhou. Muitas vezes, vincou, são “a única razão para que essa pessoa sinta que é necessário estar viva e que ainda tem alguma utilidade na vida, que é alimentar e tratar o seu animal de companhia, que trata como um elemento da família”.

Recorde-se que o Bastonário tem contestado a anunciada transferência da tutela dos animais de companhia da Agricultura para o Ambiente, contra a opinião dos especialistas, incluindo a Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária. A intenção do Executivo “inclui animais de companhia e errantes (de rua), até aqui competência da DGAV e do Ministério da Agricultura (MA), para o Ambiente, mais concretamente o Instituto da Conservação da Natureza e Florestas (ICNF)”. Ou seja, “o Governo pretende separar as competências de saúde e bem-estar animal em dois organismos autónomos, um para animais de companhia e outro para os de produção. As críticas são unânimes entre técnicos especialistas, nacionais e internacionais – que nem foram ouvidos sobre esta alteração, desastrosa para a execução dos planos de controlo e sistemas de alerta de doenças, nomeadamente as que podem ser transmitidas pelos animais aos humanos (zoonoses)”. ■