Rui Rio: Com as autárquicas na garganta

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Para já, tudo é confuso – com Rui Rio a desrespeitar autarcas como Carlos Carreiras, presidente ‘laranja’ da Câmara de Cascais, e o independente Rui Moreira, do Porto, já para não falar em Nuno Freitas, que a distrital e a concelhia de Coimbra queria agora lançar como candidato autárquico e que o líder do PSD vetou.

Depois das derrotas eleitorais nas europeias e nas legislativas de 2019, o líder social-democrata viu manter-se o PSD no poder na Madeira, embora já sem maioria absoluta, e ganhar um novo fôlego nos Açores. Nas regionais de Outubro passado, o seu partido atingiu o poder mais cedo do que se previa pela mão de um dos seus vice-presidentes, José Manuel Bolieiro, que se aliou ao CDS e ao PPM, com o apoio do Chega no parlamento regional, para formar governo e tirar o PS do poder. O Chega é ainda uma pedra no sapato do PSD, e Rui Rio enjeita para já estender a mão ao partido de André Ventura nas próximas eleições. Mas o exemplo dos Açores mostra que o que conta é a matemática eleitoral. E para o líder do PSD estas autárquicas representam ainda a sua permanência no cargo.

Caso Coimbra

No caso de Coimbra, a reacção das bases foi imediata. O presidente da distrital de Coimbra do PSD, Paulo Leitão, lamentou a decisão da direcção nacional do partido de ‘chumbar’ o nome do médico Nuno Freitas como candidato à câmara da capital do distrito. “A distrital lamenta e discorda da posição”, afirmou Paulo Leitão, salientando que esta “não é uma situação comum na história do partido”.

A concelhia e a distrital social-democratas tinham aprovado “uma estratégia de criar espaço no centro-direita na cidade de Coimbra, com uma alternativa a esta gestão caótica do PS, que fosse liderada pelo PSD e que desse outro rumo e outra vida à cidade”, vincou. Apesar de lamentar a decisão dos órgãos nacionais do PSD, Paulo Leitão afirmou que vai aguardar serenamente os passos que terão de ser dados pela comissão política nacional e pela sua coordenação autárquica.

“Põe em causa esta estratégia mas não quer dizer que ponha em causa as hipóteses ou o objectivo de voltar a conquistar a Câmara de Coimbra. Quem dá mais hipóteses ao PSD e à oposição de voltar a ser vitorioso é a gestão caótica e errática do PS que tem mantido Coimbra apagada”, disse. Numa publicação na sua conta no Facebook, Nuno Freitas escreveu: “Fui informado pela direcção nacional que o PSD decidiu não apoiar a decisão do PSD de Coimbra, dos órgãos concelhios e distritais, e não homologar o meu nome como eventual candidato às próximas eleições autárquicas e que vai apoiar o professor José Manuel Silva”.

No domingo, o PSD de Coimbra deu conta de que o coordenador autárquico nacional, José Silvano (que tem às costas um processo em que é acusado de falsificação informática no Parlamento), “informou que o nome escolhido pelos órgãos locais do PSD de Coimbra para encabeçar a candidatura do partido às próximas eleições autárquicas no concelho, o militante, médico e empresário Nuno Freitas, não será homologado pela Comissão Política Nacional do PSD”.

Má coordenação
autárquica

O ex-líder da concelhia do Porto do PSD, Hugo Neto, pediu já a Rui Rio que “substitua de imediato” a comissão que está a coordenar as autárquicas, criticando em particular os processos no Porto e em Coimbra. Numa carta enviada ao presidente do PSD, o conselheiro nacional apelou a Rui Rio para que “tome medidas urgentes e absolutamente claras”.

“Concordo totalmente com a sua visão sobre a importância deste processo autárquico para o futuro do nosso partido, e é exactamente por isso que apelo à sua intervenção directa e urgente, para que possamos evitar uma maior destruição do capital político do PSD no próximo combate eleitoral”, defende.

O antigo líder do PSD/Porto refere-se, na carta, a factos vindos a público nos últimos dias sobre a preparação do processo autárquico no Porto e em Coimbra, e que considerou demonstrarem “a total incapacidade dos membros da Coordenação Autárquica para o cumprimento do importantíssimo papel que lhes foi confiado”.

No Porto, Hugo Neto considera que o PSD foi “achincalhado na praça pública com diferentes versões sobre um namoro com Rui Moreira”, e “a poucos dias de apresentar o seu candidato” – “namoro que já ninguém nega, mas que terá sido feito à sua revelia e, mais uma vez, sem qualquer envolvimento das estruturas”, criticou.

Também em Cascais Rui Rio se envolveu numa “peixeirada” que não favorece a sua imagem. Numa entrevista, o líder ‘laranja’ criticou o autarca Carlos Carreiras, que acusou de ter sido “o principal responsável” pela “desgraça” do resultado das eleições locais de 2017, em que foi o coordenador autárquico do PSD. Em resposta, Carreiras sublinhou que, com esta afirmação, “Rui Rio chamou incompetentes a todos os responsáveis concelhios e distritais em funções nas últimas eleições autárquicas que, pelos estatutos do PSD, são os responsáveis pelas escolhas dos candidatos autárquicos do partido”.

“Bem sei que Rui Rio tem vindo a demonstrar que lida mal com estatutos e prefere decisões arbitrárias por si assumidas”, disse o autarca de Cascais, lamentando ainda “um ataque de carácter a um companheiro de partido”. Mas rematou: “Agradeço a Rui Rio ter-me feito um ataque vil e pessoal, juntando-me a um outro ataque a um outro presidente de Câmara que reputo de grande competência, Rui Moreira. Ataques que vindos de Rui Rio não são cadastro, são enriquecimento de currículo”…

Desaire em 2017

Em 2017, o PSD teve o seu pior resultado autárquico (e que levou à demissão do então presidente Pedro Passos Coelho): os sociais-democratas perderam oito câmaras em relação a 2013 e viram o PS reforçar a liderança autárquica, que passou a presidir a 161 câmaras por todo o país (mais 11 que em 2013), 159 sozinho e duas em coligação.

Os sociais-democratas conseguiram há quatro anos 98 presidências de municípios (79 sozinhos e 19 em coligação), embora sem grandes variações em termos de votos e percentagens em relação a 2013, tendo somado, sozinhos, 16,08% dos votos (em 2013 foram 16,70%).

No final de Janeiro, os presidentes do PSD e do CDS-PP anunciaram que irão assinar até meados de Fevereiro um acordo-quadro para as autárquicas que exclui a possibilidade de coligações com o Chega.

Mas perante tão baixa fasquia, Rui Rio tem a obrigação de ‘ganhar’ para o PSD várias autarquias. Tarefa dificultada quando, como em Coimbra, desrespeita a vontade das bases ou quando nunca mais divulga quem são os nomes que tem na cartola para Porto e Lisboa. Para já, o ‘namoro’ a Rui Moreira acabou em ruptura pública, e em Lisboa Santana Lopes bateu com a porta.

Apesar disso, o presidente do PSD considera que as eleições autárquicas do próximo Outono são “absolutamente essenciais”, e defendeu que “mais importante do que o número de deputados” é o número de autarcas que o partido conseguir eleger. ■