Partido Aliança: Crónica de um descalabro anunciado

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Quando em Fevereiro de 2018 ingressei, como militante, no partido Aliança, fundado por Santana Lopes, moveu-me uma única razão: a esperança num projecto inovador na política nacional, estando descontente com a liderança e com o rumo tomado pela direita. 

Confesso que apoiei a candidatura de Pedro Santana Lopes à liderança do PSD, quando ele assumiu ir à luta contra Rui Rio. O resultado deixou-o perto da sua intenção, mas não foi suficiente para o conseguir. Ainda julguei que o agora ex-líder do partido Aliança poderia esperar para ver como tudo corria com a escolha dos sociais democratas. Assim não foi. Após a derrota, Santana Lopes criou o seu partido e com ele vieram nomes como Martins da Cruz ou Rosário Águas. Entram caras e nomes até aqui desconhecidas na política, jovens com a garra necessária para dar uma nova fé ao eleitorado de direita cansado dos mesmos de sempre.

Estive presente no primeiro congresso de Évora, onde sem sombra de dúvida se reconheceu na figura de Santana a capacidade ou a coragem de uma aventura que tinha tudo para vingar, dando lugar e espaço a outros agentes de agora que, ingressando na política bonita, poderiam dar uma nova confiança ao eleitorado até mais jovem, que se diria afastado da política.

As eleições europeias de 2019 eram a primeira prova de fogo do partido, que concorreria com um dos grandes nomes em assuntos europeus. Paulo Sande era sem dúvida alguma o homem melhor preparado. Mas o eleitorado não o escolheu. Até que ponto foi a figura de Santana Lopes causadora deste resultado? 

Estaria o eleitorado confortável com este líder, ex-primeiro-ministro e ex-autarca, também com um trabalho notável na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa? Não creio. Por mais que se diga o contrário, criar um partido de raiz, e irmão do PSD, foi visto pelos eleitores como uma “birra” de Santana Lopes por não ter conseguido liderar o PSD. Nunca o conseguiu, como o mostra a história. 

As eleições legislativas do mesmo ano 2019 não chegaram a bom porto, tendo o partido de Santana obtido 40.487 votos, correspondentes a uma percentagem de 0,77%, tendo apenas mais 4.369 votos que o PCTP/MRPP. O que correu outra vez mal?

Todos nos lembramos da «invasão» da ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social) pelo partido Aliança. Tudo porque Santana Lopes se queixava da ausência de cobertura mediática, exigindo igualdade em relação aos partidos com assunto parlamentar. Um homem habituado aos holofotes e às câmaras não aceitava a falta daquilo que ele mais desejava. Palco, luz, acção e palmas. E ser recebido em apoteose, como se de um herói salvador da pátria se tratasse. A forma estudada e planeada como Santana Lopes entrou no I Congresso do partido Aliança é revelador desses desejos. 

De qualquer forma, sem estrondo mediático e sem «›invadir» o que quer que fosse, outros partidos sem representação parlamentar lutavam com armas iguais e conseguiram chegar onde o partido Aliança não chegou. Porquê?

O homem que “anda por aí” tem história. E é ela que pode dar a resposta para entendermos por que razão o partido Aliança foi um bonito erro que eu cometi quando me tornei militante. Um erro crasso cometido por Santana Lopes. 

*

Logo nas primeiras eleições portuguesas para a Europa, em 1987, após ter ocupado no governo de Cavaco Silva o lugar de Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, Santana Lopes é eleito para o Parlamento Europeu, onde vai exercer o cargo de vice-presidente da Comissão dos Assuntos Políticos. Ao fim de dois anos, abandona o mandato e segue para outras vidas.

Cria em conjunto com Rui Gomes da Silva a PEI-Projectos, Estudos, Informação. Com esta empresa, Santana Lopes participa na constituição do jornal Liberal, da RádioGeste e da revista Sábado, que é à altura dirigida por Miguel Sousa Tavares. Ao fim de escassos meses, Santana Lopes abandona o projecto. 

Volta à política e assume a pasta de Secretário de Estado da Cultura, no governo de Cavaco Silva, em 1990. É Santana Lopes o escolhido em substituição de Teresa Patrício Gouveia. Demitir-se-ia do cargo de Secretário de Estado da Cultura por discordar da estratégia do PSD no conflito com Mário Soares, Presidente da República à época.

Em 1995, pela primeira vez, Santana Lopes anuncia que vai disputar a liderança do PPD/PSD, quando Cavaco Silva decide ser candidato à Presidência da República. Tem na corrida Fernando Nogueira e Durão Barroso. Mas Santana acaba por não ir a votos. Desiste. O instinto político já o avisaria, talvez, de que fosse ainda cedo.

Sai em 1995 da vida política. Mas, andando sempre “por aí”, aceita o repto de José Roquette para ser candidato à presidência do grande Sporting Clube de Portugal. Nem durou um ano essa presidência: um curto período, compreendido entre 3 de Junho de 1995 e 10 de Abril de 1996.

A sua liderança pelo clube de Alvalade ficou marcada pelo despedimento de Carlos Queirós, que é substituído por Octávio Machado em 1996. Ainda no Sporting Clube de Futebol, em 2011, Santana Lopes quis ser Presidente da Mesa da Assembleia Geral, nas listas de Pedro Baltazar, mas obteve apenas 9,81% dos votos dos sócios leoninos.

O bicho da política corre-lhe nas veias. Deixando as lides futebolísticas, decide anunciar de novo a candidatura à liderança do PPD/PSD. O congresso de Santa Maria da Feira é ganho por Marcelo Rebelo de Sousa e este torna-se líder do partido, mas a convite do então líder e agora Presidente da República, Santana aceita ir ao combate autárquico e ganha a Câmara da Figueira da Foz.

Em 2000, Santana Lopes volta a querer ser o líder do partido. Pensar-se-ia que à terceira era de vez, mas o “enfant terrible” encontra no combate político Luís Marques Mendes e novamente Durão Barroso. É este último que ganha o partido e Santana é então levado pela sua mão para vice-presidente. 

Honra seja feita a Santana Lopes, que consegue por duas vezes ser autarca na capital. Da primeira toma posse a 6 de Janeiro de 2002 e termina o seu mandato a 16 de Julho de 2004. Volta a ocupar o lugar de presidente da Câmara Municipal de Lisboa entre Março e Outubro de 2005. Mas com a saída de Durão Barroso do XV Governo Constitucional para a presidência da Comissão Europeia, Santana (sendo vice-presidente do PSD levado por Barroso) finalmente chega à liderança do seu partido, mesmo tendo perdido anteriormente a eleição. É então conduzido por Jorge Sampaio, Presidente da República à época, para primeiro-ministro de Portugal. Jorge Sampaio indigita-o para o cargo e Santana Lopes toma posse em 17 de Julho de 2004.

Sobre a sua curta passagem pelos destinos da nação, uma curiosidade, relembrando o que dizia à revista ‘Sábado’, em Fevereiro de 2014, o Sr. Fernando Silva, mordomo de São Bento: “Sempre lidei com o Dr. Santana Lopes e era uma pessoa impecável. Mas quando entrou para primeiro-ministro talvez o mando lhe tenha subido à cabeça. Aquilo mudou como do dia para noite. Não sei se as pessoas não tinham conhecimento do que era um gabinete de primeiro-ministro. Um dia, o chefe de gabinete pediu um cinzeiro a um colega meu, coitadito, que já era velhote, e lhe disse que ali ninguém fumava. ‘Sr. Dr., vou ver se arranjo…’. Mas ele pega no charuto que estava a fumar e apaga-o em cima da secretária do contínuo. Andava tudo às aranhas”.

Continua a revista ‘Sábado’ que desde Cavaco Silva que ninguém morava no palacete de S. Bento, mas Santana Lopes mudou-se para lá e estipulou novos horários. Por norma, os contínuos só trabalhavam até cerca das 21h30m ou 22h, mas apenas no caso de o primeiro-ministro ficar para jantar. Com Santana Lopes, a hora de saída passou a ser à uma da manhã. “Aquilo era uma desorganização total. Uma vez fiquei até as 17h à espera que o primeiro-ministro fosse almoçar. A essa hora, vi-o sair no portão com o motorista. E tirei a mesa. Mas às 17h30m voltou. Perguntou quem mandara tirar a mesa, e eu disse: ‘São cinco e meia da tarde e ainda vai almoçar? Mas em dois minutos ponho a mesa’. No outro dia era 0h55m quando me desfradei. À 1h um assessor ligou-me: ‘Não saia, que o Sr. primeiro-ministro vai para aí. Vesti então o casaco azul em cima do pulôver e fui servir-lhe o whisky. No dia seguinte, por ordem do chefe de gabinete, transferiram-me para o gabinete de assessor militar, do outro lado da rua”.

Poucos meses depois de Santana Lopes tomar posse, Jorge Sampaio lança mão da ‘bomba atómica’ e dissolve a Assembleia da República, provocando eleições antecipadas. O instinto político do hoje ex-líder do Aliança teria falhado outra vez. Aceitara o cargo de primeiro-ministro sem conseguir ver o presente envenenado que lhe davam. E ainda hoje Santana Lopes não consegue perdoar Sampaio. O tapete do poder fugiu-lhes debaixo dos pés: perde as legislativas em 2005 para José Sócrates, tendo este conseguido maioria absoluta. O PSD passa a ser liderado por Marques Mendes, a quem sucede Luís Filipe Menezes.

Chegados a 2008, e com o fim da liderança de Luís Filipe Menezes, Santana Lopes decide ir novamente à corrida para a liderança do partido do seu coração. Manuela Ferreira Leite e Pedro Passos Coelho também entram a concurso. Santana Lopes perde outra vez as eleições com 29,55%, contra os 31,07% conseguidos por Pedro Passos Coelho e os 37,6% vitoriosos de Manuela Ferreira Leite.

Já em 2011, estando o partido e o País sob regência de Pedro Passos Coelho, este indica Santana Lopes para Provedor da Santa Casa Misericórdia de Lisboa, cargo em que foi reconduzido em 2016, já no governo de António Costa.

Em 2017, depois do desastre dos resultados do PSD nas eleições autárquicas, Pedro Passos Coelho decide não se recandidatar à liderança do partido e mais uma vez Santana Lopes, que sempre andou “por aí” e à espreita, avança para as directas do seu partido e cessa as suas funções de Provedor da Santa Casa. O seu instinto político dir-lhe-ia que era agora.

Rui Rio é o homem que Santana Lopes enfrenta, e pela quinta vez vai à luta. Mas a 13 de Janeiro de 2018 Santana obteve 45,63% dos votos dos sociais democratas, contra 54,37% dos votos conseguidos pelo ex-presidente da Câmara do Porto. Ainda não foi desta.

Mas Santana Lopes não conseguiu esperar. E se não foi à primeira, nem à segunda, nem à terceira, nem à quarta, nem à quinta, quem sabe não seria à sexta vez que conseguiria o seu sonho – ser líder eleito do seu PPD/PSD?

Nunca cansando de “andar por aí”, em 2018 acaba de vez com a militância do PPD/PSD e vai fundar aquele que é hoje um triste projecto – um projecto falhado criado por um instinto político fora de prazo.

Ele anda sempre “por aí”, mas é preciso que os Portugueses aceitem que ele “ande por aí”. Agora com a saída do partido Aliança, ninguém sabe o que esperar deste homem. A história nunca apagará o seu percurso político nem as suas capacidades. Mas hoje, o tempo, o palco e a política pertencem a outras caras, com outras ideias e outra energia. Hoje, o tempo não é de Santana. Esse tempo já passou, deixando a sua marca. Para uns, uma marca de valor; para outros, uma marca assim-assim; para outros ainda, nada de especial. 

Se ele percebe que o seu tempo passou, não sei. Mas o resultado deste partido pode ter-lhe dado a resposta. “Andar por aí” não chega. É preciso perceber se é preciso “andar por aí”. A Santana Lopes, dados de análise não faltam. Quanto ao resto, logo se vê. ■