Os missionários do século XXI

0
925

A escassos dias do recomeço de um de um novo ciclo de aprendizagem, não escapamos mais uma vez da vergonha, em dimensão europeia, como país que é incapaz de se organizar e de gerir os seus recursos humanos na esfera educativa.

É recorrente os concursos de colocação de docentes apresentarem uma série de constrangimentos todos os anos e raramente decorrem com tranquilidade, e atempadamente, para garantir uma boa preparação do ano letivo, contudo o que se verifica este ano na questão da colocação dos docentes para o próximo ano letivo, roça o impensável e o inenarrável.  

Este processo transversal que afeta em primeira mão os docentes, todas as escolas, e pior ainda, os seus alunos, é resultado da cobardia política de longos anos, e da perentória rejeição de retirar poder ao clientelismo burocrata comodamente instalado no ministério que se limita a validar os documentos preenchidos pelos professores nas escolas, e assim justifica o seu salário, bem como aos tentáculos regionais, da cor política, cada vez mais musculados.

O busílis da questão da colocação docente no âmbito da soberania estatal não passa pela falta de dinheiro, mas sim pela falta de lucidez e de pragmatismo. Uma maleita que afeta outras classes profissionais, nomeadamente os médicos. É a falta de autonomia, a asfixia administrativa, a burocracia e a falta de tempo para o essencial que estão a condenar a classe profissional ao fracasso e a levá-la ao desespero. Será também devido esta conciliação de fatores que muitos docentes em ‘burn out’ decidem interromper a sua atividade com justificação médica. Coloca-se a pertinente questão: existe falta de professores ou eventualmente de médicos, em instituições privadas? A resposta é obvia, não existe, isto porque a gratificação do seu desempenho está diretamente espelhada nos destinatários, e não nos papéis ou nos computadores.

Sou docente há longos anos e a sensação de estrangulamento tem vindo a piorar, sinto cada vez mais que o meu trabalho se destina cada vez menos aos meus alunos e cada vez mais à burocracia, conferindo-me a sensação de marioneta burocrática instrumentalizada, com diminuta autonomia sobre a minha ação educativa, e que não tem liberdade de se libertar das amarras das grelhas, dos manuais de apoio à docência, da terminologia adotada, e de toda uma panóplia espartilhizante que me sufoca.

O centralismo e a burocracia centralizante estão a contribuir para o definhar da orgânica das escolas e para a desmotivação em espiral acentuada dos professores. Cada escola deveria refletir as suas práticas de acordo com o seu contexto geográfico, deveria poder respirar o seu oxigénio sem máscaras sufocantes prescritas pelo ministério. O ar da serra, é menos poluído do que o ar das metrópoles, porque não conceder mais autonomia e margem de manobra às escolas para adequarem as suas metodologias de acordo com a sua realidade e a sua massa humana!? Concedam-lhes alforria! Não é o dinheiro que liberta, é o respeito, a liberdade, a confiança. 

Pergunta o leitor, e vamos agora inventar um novo sistema de dinâmicas escolares e de atuação docente? Não! Está tudo inventado e com provas dadas de sucesso noutros países europeus. As escolas podem permanecer estatais, mas a gestão escolar tem de assentar noutros moldes. As escolas têm de ser mais autónomas e concertar estratégias para prestar um serviço mais “personalizado” dependendo do universo discente de que dispõe.  

A designação de João Costa para ministro da Educação antevia-se, a meu ver, uma má escolha para o novo Governo de António Costa, pelas suas características de dominância e de impetuosidade. O tema principal de operacionalização, como não podia deixar de ser, foi o plano para resolver o dramático problema de falta de professores que afeta o sistema de educação em Portugal, não obstante, nenhuma das reivindicações apresentadas recentemente pelos sindicatos era desconhecida do ministro, que durante sete anos foi secretário de Estado, e se os problemas estão por resolver, o agora ministro não está isento de responsabilidades.

O cerne da questão é que efetivamente faltam muitos professores, especialmente em algumas zonas menos povoadas ou menos atraentes do país, e a situação irá piorar tendencialmente nos próximos anos. Ser professor deixou de ser uma profissão atraente, gratificante e valorizada, e pelos vistos querem transformá-la no refugo dos licenciados impreparados pedagogicamente, com vista a baixar a taxa de desemprego da mão de obra qualificada.   

Devido à gritante, mas heterogénea, falta de docentes, foi anunciada pela tutela uma revisão das habilitações para a docência. Essa revisão trará de volta às escolas “professores” sem componente pedagógica no currículo das suas licenciaturas ou mestrados que, depois, poderá ser, ou não, realizada através da profissionalização em serviço, alicerçando-se num patamar mínimo de formação para contratar professores. 

Para o leitor ter uma noção desta mutilação nos padrões de exigência do processo de ensino/ aprendizagem, e só mesmo a título informativo e exemplificativo, no próximo ano letivo, as aulas de Português do 3.ºciclo e ensino secundário (que estão sujeitas a exame nacional) podem ser lecionadas por candidatos que tenham apenas 80 créditos nesta área, o que constitui um patamar inferior ao que é exigido (120) para a entrada num mestrado de ensino apenas destinado a esta disciplina. 

A escola e os professores existem pelos alunos e como plataforma de preparação dos cidadãos para o futuro, quer em termos de cidadania, quer em termos académicos, fornecendo-lhes os conhecimentos e as competências para que futuramente desempenhem competentemente uma profissão. Não é, ou não deveria ser, uma agência de emprego.  Estará a tutela a ser zelosa e estará preocupada com a construção irrepreensível das novas gerações, assegurando-se de que está a fazer as melhores escolhas que estão ao seu alcance, e estará porventura a fazer uma gestão consciente dos “seus” recursos humanos? Discordo. O Ministério da Educação segue, outrossim, por vias alternativas e sinuosas, procurando circundar o verdadeiro problema da falta de professores, por forma a resolver concomitantemente outros, nomeadamente o desemprego de pessoas qualificadas, à custa da competência do ensino em Portugal.

A “solução” apresentada, de atrair diplomados de áreas que não a do ensino, para serem formados dentro das próprias escolas, aquando da profissionalização em serviço, e terem assim acesso à carreira docente é, na verdade, um insulto aos docentes profissionalizados, com estágio pedagógico integrado, e na sua maioria, há muitos anos dedicados ao ensino e cuja vocação sempre foi lecionar. 

Qual a solução? A gratificação de ensinar é por si só um motivo inexcedível, contudo, o que de facto é preciso, é que a tutela passe a honrar verdadeiramente a profissão docente e os seus players, que contribua pragmaticamente para fixação dos profissionais, que durante a sua missão, os missionários do séc. XXI, já calcorrearam incontáveis quilómetros em prol da responsabilidade que abraçaram, e em alguns casos,  pagaram  literalmente para trabalhar ( em troca de tempo de serviço), uma vez que as suas despesas, designadamente de deslocação e estadia, eram superiores à receita proveniente da sua remuneração.

Desagrada-me e entristece-me, como docente, constatar que, na prática e irresponsavelmente, o governo procura desmerecer a essência da prática docente e com esta manobra reduzir as taxas do desemprego qualificado, atraindo recém-licenciados impreparados para o ensino geral, permitindo-lhes lecionar disciplinas sujeitas a exames nacionais, cuja avaliação pode interferir com o futuro dos nossos jovens em termos de carreira académica e prosseguimento de estudos, diminuindo assim, inevitavelmente, a qualidade das aprendizagens e comprometendo o seu desenvolvimento pessoal, percurso académico e as suas futuras competências e aspirações profissionais. ■