Teixeira de Pascoaes: a perspectiva de José Marinho(III)

Eis, desde logo, o que aconteceu com a intuição pascoaesiana da “inconsciência do ser criador” – nas suas palavras: “A visão central do Verbo Escuro é a intuição central da obra de Teixeira de Pascoaes. Posso falar neste ponto com segurança inteira porque essa intuição é comum ao poeta e ao intérprete. E posso dizer hoje que toda a minha dificuldade no estudo do pensamento de Leonardo Coimbra nasceu e ficou neste ponto. O poeta e o filósofo contrapõem-se aqui de todo a todo. Para Leonardo Coimbra o ser é criação. Deus é imediatamente criação, a queda é posterior à criação. Para Teixeira de Pascoaes, a criação é uma forma extrínseca do ser de Deus como ele pode revelar-se no homem, que é, ele próprio, criador iludido no seio da ilusão”. Daí ainda o dizer-nos, a esse respeito, que “esta ideia sobre a inconsciência no ser criador é uma das intuições fundamentais do poeta (intuição aliás a que eu mesmo cheguei e por isso a logrei perscrutar no âmago da poesia do poeta e explicitar intelectualmente).”. E que intuição é, no fundo, essa? Simplesmente, esta – nas palavras do próprio Marinho: “o ser, enquanto é, ignora-se”. Eis, precisamente, a intuição que Marinho irá depois desenvolver, determinando a sua “doutrina cumulativa da visão unívoca e da cisão” – ainda nas suas palavras: “O ser enquanto ser é sem verdade./ O ser para assumir a verdade de si torna-se outro: cinde-se.”.

E, por isso, num artigo publicado, no Diário de Notícias, em 24 de Janeiro de 1963, é Pascoaes por Marinho qualificado como o “poeta da visão unívoca” – é esse, de resto, o título do artigo. E, por isso, nos disse ainda nesse artigo que “talvez a mais profunda descoberta do Poeta fosse a verdade funda de que Deus é o único autêntico ateu e de que o ateísmo sempre impossível mas maravilhoso é o centro da visão unívoca”. Tivesse sido ou não essa “a mais profunda descoberta do Poeta”, foi, no entanto, nela que Marinho fundou a sua Teoria do Ser e da Verdade. Esta obra, a sua obra teorética de maior ambição, publicada em 1961, não faz mais, com efeito, do que desenvolver, até ao mais extremo limite, esta “descoberta”, esta “intuição”: o ser pleno, “Deus”, não é para si, é, literalmente, ateu; por isso, ele de si se cinde.

Nos textos expressamente dedicados a Pascoaes, podemos, aliás, encontrar, uma série de teses que Marinho irá depois retomar, e extremar, na sua Teoria do Ser e da Verdade – a título de exemplo, atentemos nestas: “O nosso ser é cisão, é separação…”; “O que separa liga, o que liga, separa”; “Relação de cada ser com o absoluto. É logo imediato. Cada ser é, em carência, todo o ser (…). Ser separado da origem, eis o motivo de toda a dor e da morte (…) por outro lado, porém, nada é separado da origem, tudo está vinculado estreitamente a Deus”; “Cisão supõe, com a ruptura que se diz cisão, aquilo que se cinde e o resultado da cisão. Ora, é evidente que no homem haja alguma memória ou reminiscência e saber do que antecedeu a cisão. Eis o que chamamos absoluto. Aí nenhuma verdade é procurada porque o absoluto só tem sentido como plenamente claro para si (…). Pois agora advém que a cisão é como um realíssimo engano. Tudo se passa como se, ao cindir-se, o absoluto deixasse de ser pela cisão. Realmente, ele, ao cindir-se, permanece inalterável”. ■

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