O notável Carlos Lacerda, que foi um brilhante brasileiro, jornalista, escritor, floricultor, tradutor de francês para português, conhecia música e literatura, político polémico e bom gestor público, teve Portugal presente na sua vida e obra. Embora fosse crítico de Salazar, admirado e respeitado pela comunidade lusitana do Rio de Janeiro, sempre teve nas famílias portuguesas uma forte base eleitoral.
Num dos seus livros, o delicioso “Uma Rosa É Uma Rosa É Uma Rosa”, de ensaios, Portugal está presente.
Como floricultor nos últimos anos de vida, afastado da política pela perda de direitos políticos, dedicou-se às rosas na sua propriedade próxima do Rio, Sítio Rocio, vizinho da famosa Fazenda Inglesa do português Conde Pombeiro, depois Marquês de Belas. Ao mergulhar no mundo roseiral, narra as suas relações com a Casa Moreira da Silva, no Porto, quando conheceu a rosa Bela Portuguesa, com origem na Beira, que alguns chamavam de Salazar. Outra rosa de origem portuguesa, a Augusto de Castro, impressionou-o e, dias depois, em Lisboa, ao visitar o “Diário de Notícias”, disse ao seu director, o embaixador Augusto de Castro, da homenagem e elogiou a rosa. O director mostrou-se surpreso com a homenagem, que desconhecia a existência e o suposto motivo. Voltando ao roseirista do Porto, ficou a saber que era a outro Augusto de Castro, que era floricultor no final do século XIX, que se devia o nome da rosa.
Lacerda lembrava que, no livro sobre África de Marcello Caetano – a obra é de 65 –, havia uma referência à tradição africana de que plantas, árvores e flores não devem ser plantadas por homens e sim por mulheres.
Mais adiante, o autor exalta a genialidade de João Villaret, a quem denomina de “escultor da palavra”, de grande versatilidade e encanto. Também se refere com muita admiração a Sérgio Varela Cid, o maior pianista português e do mundo naquele momento, que viveu e morreu mais tarde no Brasil, quando desapareceu em São Paulo sem deixar vestígios.
Lacerda não era religioso, mas também tinha o entusiasmo do mundo católico do seu tempo na sua pregação conservadora, registando num belíssimo texto a primeira visita da imagem de Fátima ao Brasil. Cita o Cardeal Cerejeira na sua afirmação de que “Portugal era pequeno para Fátima, que se estava a alargar”.
Foi em Lisboa que Carlos Lacerda se foi encontrar com seu até então adversário político, o ex-presidente JK, exilado em Portugal. Homem de temperamento difícil, não deixou amigos que cultivassem o seu legado intelectual, literário. O que é uma pena, pois os seus livros são todos brilhantes.
A sua editora, Nova Fronteira, teve boa presença em Portugal. ■




