Pandemia: as verdadeiras causas da actual situação

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Passou despercebida a entrevista concedida no passado dia 14 pelo médico João Gouveia, presidente Sociedade Portuguesa de Cuidados Intensivos, a Helena Pereira (do jornal ‘Público’) e Eunice Lourenço (da Renascença). Talvez por serem incómodas, as suas declarações não tiveram eco nas longas e repetitivas emissões televisivas dedicadas à pandemia. Por poderem ter escapado a muitos portugueses, vale a pena deixar aqui registadas algumas das informações prestadas por aquele clínico, especialista em Medicina Interna e Medicina Intensiva, e que explicam em grande parte o caos que se tem vivido no SNS nos últimos dias.

João Gouveia salienta, desde logo, a fraquíssima capacidade dos serviços públicos de saúde para responderem, um ano depois do início do surto, às necessidades de internamento. “Temos 1.100, 1.200 camas de Medicina Intensiva que têm que dar resposta a covid e a não-covid”, refere, para logo salientar um aspecto que os nossos governantes habitualmente preferem ignorar: “Temos 672 camas para covid e esse número […] obriga a que parte da resposta não-covid seja mais sacrificada”.

Mais: “Em termos de cuidados intensivos, temos outro problema: estes doentes [covid] aparecem-nos sete a 10 dias após o diagnóstico e ficam mais tempo na Medicina Intensiva do que um doente normal. Portanto, vamos ter ainda mais doentes do que temos agora e vamos ter dificuldade em escoá-los posteriormente. Antes de fins de Fevereiro não teremos alívio da pressão na Medicina Intensiva”.

A análise da capacidade hospitalar pública existente leva João Gouveia a conclusões preocupantes: “Se tivermos 1% de doentes em Medicina Intensiva com 14 mil casos diários, são 140 novos doentes por dia para 10 mil camas – em cerca de sete dias estão esgotadas. Só que neste momento já temos oito mil ocupadas”. Independentemente disso, “faltam [profissionais nos cuidados de saúde intensivos] já agora, sem ter os tais 14 mil casos. Há também muitos profissionais infectados”. 

E o médico conclui: “Neste momento, estamos muito preocupados com os bloqueios de entrada: não ter camas para receber os doentes. Uma razão é por não conseguirmos transferir os doentes. As enfermarias estão demasiado cheias. Foi um dos problemas que aconteceram com os fins-de-semana de Natal e Ano Novo”.

Já no início de Outubro, em entrevista ao ‘Diário de Notícias’, João Gouveia avisara, aparentemente sem que alguém responsável no Governo o ouvisse: “Se não houver reforço de recursos humanos, ou voltamos a fechar tudo ou vão morrer mais pessoas”. Foram precisos três meses para que o seu alerta fosse escutado.

O presidente Sociedade Portuguesa de Cuidados Intensivos referia já nessa altura: “Neste momento, além da covid, há um grande potencial para outras doenças respiratórias” e “à Medicina Intensiva voltaram a chegar os traumas, os AVC, os doentes coronários agudos e mais doentes respiratórios”. Como consequência, “nesta fase, não vamos poder ocupar os espaços que ocupámos em Março nem vamos ter os profissionais que tivemos. E esta é a grande preocupação”.

A escassez de meios humanos qualificados era já, há três meses, a grande preocupação de João Gouveia: “Faltam médicos, mas fundamentalmente enfermeiros. É preciso termos pessoas que tratem dos doentes que estão nos ventiladores”. E insistia: “Mais uma vez digo que é muito importante que todos os hospitais tentem ter autorização para contratar mais assistentes operacionais e sobretudo enfermeiros, que tentem recrutar de outros serviços profissionais já com experiência em medicina intensiva. É preciso que haja mobilidade interna e organização em rede para se rentabilizar ao máximo a capacidade instalada para tratarmos os doentes covid e não covid”. 

Em conclusão, o médico alertava: “É importante que haja uma orçamentação correcta em termos do SNS. Este não é um problema de agora, nem específico da covid-19, mas apanha-nos nesta fase, e o que a pandemia tem feito é colocar a nu algumas das nossas fraquezas”. ■