Pluricontinental e plurirracial

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A participação de Portugal nos mais recentes Jogos Olímpicos foi uma autêntica “bofetada sem mão” naqueles que pretendem desmentir a vocação secular de Portugal para o relacionamento plurirracial.

Entre os 92 atletas que nas Olimpíadas de Tóquio representaram Portugal em 17 modalidades, uma percentagem bem significativa tem origem não europeia. Mais especificamente, são de origem africana, muitos deles oriundos daquela que foi a África Portuguesa.

Já é tempo de reconhecermos, no nosso próprio país, aquilo que historiadores e estudiosos há muito reconheceram: que Portugal foi protagonista de uma colonização única, baseada na autenticidade da coexistência com os povos que encontrou. 

Será que adoptamos uma “colonização light” porque não tínhamos, como por exemplo tinham os ingleses, dinheiro para colonizar no sentido da exploração mais sistemática dos recursos das terras africanas? É possível que o facto de sermos um país de fracos recursos na Europa tivesse tido a sua influência no estilo “colonizador” do português. Mas mais, muito mais peso do que isso teve o temperamento português, ele que já de si era caldeado pelas influências que recebêramos de fenícios, gregos, romanos, judeus e árabes, pois todos eles tiveram o seu papel na formação do ser português.

O certo é que as nossas províncias ultramarinas constituíam um caso único no chamado “universo colonial”, bem diferente dos casos inglês, francês, belga ou holandês. A generalidade dos historiadores reconhece-o, e só a brigada marxista-leninista que hoje domina grande parte da universidade portuguesa continua a alimentar uma campanha de difamação do esforço português em África, afirmando que somos “racistas” contra toda a evidência.

Quem conheceu Angola e Moçambique, por exemplo, e assistiu ao trabalho gigantesco de desenvolvimento que ali foi feito, sobretudo a partir dos anos 50, sabe bem que Portugal vinha acarinhando progressivamente a ascensão das populações africanas aos centros de poder. No dia 24 de Abril de 1974, grande parte da administração pública no Ultramar era já assegurada e chefiada por africanos preparados nas escolas do Império.

Esse estilo de “colonização” deixou marcas profundas no nosso relacionamento com os povos africanos. À excepção dos Joacines e Mamdus que transpiram ódio racial (esses, sim, racistas), a generalidade dos africanos que vivem entre nós sabe que a naturalidade com que são acolhidos não se compara com a hostilidade que encontram no Reino Unido, em Franca e outros países europeus com história colonial.

Em Portugal, as pessoas bem formadas não querem saber se é preto, branco ou amarelo às riscas. O facto de muitos africanos terem envergado, com garbo e orgulho, a camisola das quinas nas últimas Olimpíadas, e terem sido aclamados por Portugal inteiro como portugueses integrais que são, constitui um desmentido cabal da campanha difamatória que a extrema-esquerda e os activistas racistas montaram para alimentar a sua agenda de ódio e confrontação.

Portugal foi durante séculos (e mentalmente continua a ser) uma nação pluricontinental. É da nossa natureza considerarmo-nos também um povo plurirracial.

O desporto é um campo ideal para provar essa natureza. Como se viu há pouco, em Tóquio. ■