FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA

Embaixador

O Ocidente enfrenta hoje uma crise de refugiados por culpa, não de Bashar al-Assad, mas de quem “decretou” em 2011 que Assad tinha de ser derrubado. Barack Obama declarou-o inequivocamente em 18 de Agosto desse ano. Tratou-se de uma ideia idiota, tão idiota quanto o foram os desastrosos derrubes de Muammar al-Qaddafi, na Líbia, em 2011, e de Saddam Hussein, no Iraque, em 2003. E estamos, ainda hoje, a viver com as consequências. Quanto aos refugiados, rejeito o conceito de que a Europa tem de integrá-los. Não, não tem. Estes têm, isso sim, de obter garantias quanto à sua segurança, têm de ser alimentados, tratados e escolarizados, mas, no essencial, devem ser preparados para regressarem à Síria tão rapidamente quanto possível.

Concentrarmo-nos no problema da Síria e dos refugiados esquecendo-nos do quadro geopolítico global em que estas duas questões conexas se desenvolvem – o Médio Oriente – só o podemos fazer por mera abstracção e sem correspondência com a realidade.

Com efeito, o Estado Islâmico, considerado por muitos como artificial, mas com os atributos reais de Estado (território, população, administração, forças armadas, finanças e, inclusive, cunhagem de moeda própria), apesar de variáveis, é o verdadeiro epicentro regional e, por conseguinte, um actor incontornável.

Podemos considerar que o Estado Islâmico (Daesh) está em recuo, o que não quer por forma alguma dizer que a respectiva erradicação esteja iminente ou seja sequer previsível num horizonte temporal próximo, muito embora tudo aponte para que, a prazo (quem sabe se, ainda, no ano em curso), a queda seja inevitável. Todavia, as metástases, espalhadas um pouco por toda a parte, não desaparecerão facilmente.

Enfim, o fim do Daesh depende das circunstâncias e das quatro potências que contam na região: a Turquia, o Irão, a Arábia Saudita e Israel. Os grandes actores são sem dúvida os dois primeiros, que assumirão um papel de primeira linha ao longo deste ano. Até porque os EUA e a Rússia presumivelmente vão querer sair de cena, de uma forma ou de outra.

Essencialmente, está-se perante um problema do Médio Oriente e, nesse entendimento, o palco fica reservado para os actores locais, designadamente para a Turquia sunita e para o Irão xiita – os qualificativos não são indiferentes. Ambos irão competir na guerra da Síria, até porque têm interesses específicos no respectivo desfecho.

A Turquia vai concentrar-se no seu objectivo principal, o combate aos curdos sírios que lhe são hostis, e só secundariamente nos ataques ao Estado Islâmico. Concentrará os seus esforços de guerra no Norte da Síria, evitando confrontar a Rússia e o Irão.

O Irão, por afinidades político-religiosas, irá empenhar-se na defesa do regime de Assad, na consolidação dos ganhos que já alcançou no terreno e na futura reconstrução do país, em que a Rússia e a China desempenharão, presumivelmente, um papel secundário.

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