Portugal no meio do fogo cruzado Londres-Bruxelas

Portugal no meio do fogo cruzado Londres-Bruxelas

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Já não há dúvidas: o divórcio entre Londres e Bruxelas vai ser azedo. No entanto, enquanto os burocratas europeus e os políticos britânicos trocam farpas e picardias numa novela sem fim, quem tem mais razões para alarme são os portugueses: caso não haja acordo final em 2020, o nosso País pode sofrer um enorme impacto económico.

Inicialmente, tudo amigável e sereno, mesmo que entre dentes cerrados. Theresa May, primeira-ministra do Reino Unido, e Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, reuniram-se para jantar e discutir o que se esperava ser um divórcio calmo entre a UE e a Grã-Bretanha. No dia seguinte, uma fuga de informação dava conta por toda a imprensa mundial de que o encontro teria sido um desastre, que Juncker considerava May “uma iludida” e que a sua equipa de burocratas em Bruxelas não acreditava na possibilidade de um acordo amigável com os britânicos.

Londres não aceitou pacificamente estas notícias, que constituíram mais uma “pequena deslealdade” da organização a que o país deixará de pertencer em 2020. Antes deste episódio já tinha havido uma outra “fuga” de informação, também de Bruxelas, segundo a qual o Reino Unido teria de pagar uma factura de 100 mil milhões à UE – uma perspectiva que não podia deixar de irritar a bancada parlamentar conservadora, cuja maioria se opõe firmemente a que se pague sequer um tostão. Com os ânimos a subir, Michel Barnier, o líder da equipa que vai negociar o Brexit do lado da União Europeia, deixou o aviso: “alguns criaram a ilusão de que o Brexit não terá impacto material nas nossas vidas e que as negociações podem ser concluídas de forma rápida e indolor”…

Pode não haver acordo

Londres também se ressentiu com o que considera ser um apoio indirecto da UE à dissolução territorial do país. Na primeira versão do documento negocial, Bruxelas concedeu aos espanhóis direitos especiais de veto sobre Gibraltar, alegadamente em troca da retirada do “veto implícito” de Madrid à possível entrada de uma “Escócia independente” na UE. Partiu também de Bruxelas a mensagem venenosa de que a Irlanda do Norte entraria automaticamente na UE como membro independente, se assim o desejasse.

Em resposta, Theresa May denunciou “algumas pessoas em Bruxelas que não querem que as negociações tenham sucesso” e lastimou as “ameaças contra a Grã-Bretanha” por parte de políticos e burocratas europeus, considerando que “todos estes actos foram temporizados de forma a tentar afectar o resultado da eleição”.

Londres irritou-se particularmente com a declaração de António Tajani, presidente do Parlamento Europeu, de que o Brexit ainda podia ser travado caso a população votasse massivamente nas forças “pró-europeias”. A resposta de Londres faz antever uma retaliação em forma: “Não chegar a um acordo é melhor do que chegar a um mau acordo”. E o facto é que, em última análise, os ingleses podem simplesmente sair a mal, ainda que as consequências de um rompimento unilateral viessem a ser negativas para a economia do Reino Unido.

Cisão na UE

Ao contrário da Comissão e do Parlamento Europeu, o Conselho Europeu (composto pelos chefes de Governo dos 28 países da UE e presidido pelo polaco Donald Tusk) adoptou uma posição conciliatória. No que foi interpretado pela imprensa como uma farpa lançada a Juncker e à “fuga” de informação relacionada com o jantar, Tusk afirmou que “para termos sucesso [nas negociações] precisamos de discrição, moderação, respeito mutuo e um máximo de boa vontade”, tendo oficialmente pedido um “cessar-fogo” nas hostilidades que a Comissão Europeia afirma não existirem. “As negociações já são difíceis o suficiente, se começamos todos a discutir antes delas sequer começaram tornam-se impossíveis”, afirmou o líder do Conselho Europeu.

Este pedido de acalmia parece ter como origem outra capital europeia: Berlim. Um porta-voz da Chancelaria alemã considerou que a fuga de informações sobre o jantar entre Theresa May e Juncker foi obra de um “completo imbecil”, ao mesmo tempo que pediu para Londres ter mais cautela, procurando obter uma solução salomónica para a disputa de palavras: “Tanto o Reino Unido como a União Europeia têm culpa do envenenamento da atmosfera negocial”.

Portugal pode sofrer (e muito)

Apanhado no fogo cruzado palaciano entre capitais europeias, quem se arrisca a perder bastante é o velho Portugal. O nosso País não pode negociar sozinho com o seu aliado mais antigo, mas pode perder milhares de milhões de euros, e milhares de postos de trabalho, caso os burocratas de Bruxelas não consigam fazer a paz com os políticos de Londres.

Não é só a necessidade que Lisboa tem de proteger os mais de 100 mil portugueses a viver no Reino Unido. Os números económicos são reveladores da situação perigosa em que nos encontramos: nove por cento das nossas exportações totais têm como destino a Grã-Bretanha. Em 2016, a economia portuguesa teve um lucro de 4,1 mil milhões de euros no seu comércio global com o Reino Unido, tendo conseguindo vender 7,5 mil milhões de euros em bens e serviços aos britânicos. A Grã-Bretanha tem-se revelado uma importante cliente de Portugal, visto as suas compras terem aumentado nove por cento desde 2012, e tendo o nosso País nos primeiros dois meses de 2017 visto as suas vendas para Londres aumentarem oito por cento em relação ao mesmo período em 2016: o saldo positivo do nosso comércio com o Reino Unido somou mil milhões só nesses dois meses. E é bom não esquecer que, representando o turismo 30 por cento das nossas exportações, um em cada cinco turistas que visitam Portugal vem do Reino Unido.

Apesar de não poder negociar directamente com Londres, nada impede o Governo português de promover Portugal como um “porta-aviões” da economia britânica na Europa após o Brexit. “Há multinacionais presentes no Reino Unido que estão a equacionar ter parte da sua actividade em países no espaço europeu para conferir estabilidade às suas operações europeias”, sublinhou o ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, quando na semana passada chegou a Londres numa nova missão de incentivo ao investimento em Portugal.

Talvez pelos ganhos que Portugal continuará a ter caso consiga manter as suas relações comerciais com o Reino Unido intactas é que o ministro dos Negócios Estrangeiros recomendou “firmeza” a negociar com Londres, mas sempre com “espírito de abertura”.

Pois…