Portugal: um país adiado

“As altas figuras do Estado e, em primeiro lugar, o Presidente da República, falam muito de todos estes e de outros temas semelhantes, no caso de Marcelo Rebelo de Sousa ele fala mesmo de tudo e de mais um par de botas, mas todos seguem a vida sem nenhuma preocupação visível sobre o futuro de Portugal e dos portugueses”

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Desde 2020 que Portugal tem andado entretido. Primeiro com a pandemia e agora com a guerra da Ucrânia, além dos pequenos acontecimentos da vida política e social que sempre servem para manter a ilusão de que se passa alguma coisa. De facto, não se passa grande coisa e Portugal está estagnado, porventura à espera de um qualquer Godot providencial.

Claro que existe uma economia, que os empresários, os economistas e todos os portugueses seguem preocupados o crescimento da inflação. O Governo e os empresários comentam os problemas resultantes do aumento acentuado do custo dos combustíveis. Os fogos são matéria que não larga os telejornais e discutem-se as soluções passadas e futuras, mas sempre sem chegar a conclusões. O Serviço Nacional de Saúde mantém-se como uma preocupação constante dos portugueses, nomeadamente dos mais idosos. Estas são tudo questões certamente importantes, mas que foram herdadas do passado, questões que vão e vêm, questões que se espera que um dia sejam resolvidas, mas que não constituem temas determinantes no futuro de Portugal. Isto é, o futuro de Portugal parece estar congelado num qualquer frigorífico à espera que alguém se preocupe em o retirar de lá.

Por outro lado, as altas figuras do Estado e, em primeiro lugar, o Presidente da República, falam muito de todos estes e de outros temas semelhantes, no caso de Marcelo Rebelo de Sousa ele fala mesmo de tudo e de mais um par de botas, mas todos seguem a vida sem nenhuma preocupação visível sobre o futuro de Portugal e dos portugueses. Por exemplo, a economia portuguesa está a recuar relativamente à generalidade dos países da União Europeia, principalmente em relação à Irlanda e aos países do Leste. Portugal leva mais de vinte anos de estagnação económica e o rendimento das famílias portuguesas decresce em termos relativos aos outros países. Contudo, o Presidente da República e o Governo não falam sobre isso e tratam o assunto como se este não existisse. O país parece anestesiado num manto de palavras que ignoram os factos importantes e desconhecem a realidade, uma espécie de sonambulismo político.

Não por acaso, o Partido Socialista de José Sócrates e de António Costa criou uma máquina bem oleada de propaganda, um verdadeiro exército de faladores que repetem as mesmas ideias até à exaustão, cuja função principal é evitar a realidade desagradável e os números negativos. Em particular, em relação aos dados estatísticos evitam sempre falar de séries longas, para escolherem os dados que no curto prazo possam dar boas indicações. Neste contexto, a coroa de glória de António Costa reside no sucesso com que apagou da memória dos portugueses a bancarrota e o pedido de ajuda externa de José Sócrates e de ter conseguido centrar todo o seu discurso nas supostas maldades de Pedro Passos Coelho. Um dia, esta conquista do PS de António Costa será estudada pelos especialistas da manipulação política e da lavagem ao cérebro da maioria dos votantes portugueses.

Há uma grande unidade no PS profundamente empenhada em encontrar palavras e acontecimentos circunstanciais que evitem a realidade e todos e quaisquer factos desagradáveis. Quando não podem evitar de todo esses factos, como é o caso dos fogos e do caos existente no Serviço Nacional de Saúde, ou a perda de poder de compra das famílias, os “spin doctors” do PS elaboram de imediato uma lista de notas positivas a serem repetidas até à exaustação por deputados, ministros, secretários de Estado e comentadores num coro bem amestrado. Segue-se o Presidente da República, que enrola os factos mais desagradáveis em teorias várias que vai criando sob a capa de uma largamente aceite autoridade presidencial, numa realidade paralela feita à medida das necessidades. Para Marcelo Rebelo de Sousa tudo serve para vender aos portugueses a famosa estabilidade política, como um valor supremo da nação, a qual já contribuiu para dar a última maioria a António Costa.

Toda esta vasta encenação, ou jogo de espelhos, é facilitada pelo controlo do Estado sobre os grandes sectores da sociedade portuguesa – funcionários públicos, reformados, subsidiados –, Estado manietado por muitos anos de nomeações partidárias dos cargos dirigentes. No topo de todos estes mecanismos antidemocráticos estão as leis eleitorais que permitem a escolha dos deputados e dos dirigentes autárquicos pela hierarquia partidária do PS. Neste domínio António Costa atingiu o pleno, nada acontece sem a sua bênção.

Presentemente, o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) cumpre a função de fornecer aos portugueses uma réstia de esperança no futuro e ao Governo a capacidade de gerir as promessas de fundos comunitários às mais variadas instituições e empresas. Claro que o PRR não alterará nada de importante na economia e na sociedade portuguesas, mas isso só será visível dentro de alguns anos e, entretanto, os especialistas do PS tentarão inventar uma nova ilusão.

Como defendo desde há muitos anos, a educação e a industrialização, nomeadamente exportadora, representam o nó górdio do crescimento da economia e do desenvolvimento sustentado do país. Representam uma estratégia de crescimento não compreendida pelo PS e por António Costa, focados que estão no curto prazo, na manipulação da informação e na sua perpetuação no poder. Razão de Portugal continuar a perder todas as oportunidades de desenvolvimento e os portugueses a empobrecerem.

Finalmente, prevejo que como resultado das capacidades adquiridas pelas empresas espanholas e por algumas políticas acertadas do lado dos diferentes governos ao logo do último quarto de século, vamos assistir a um novo ciclo de crescimento económico e de desenvolvimento social em Espanha, que acentuará as diferenças já existentes com Portugal. Assim, como já afirmei, não surpreenderá que dentro de algum tempo se comece a falar e a escrever sobre as vantagens da uma qualquer união ibérica que, a acontecer, será, infelizmente, uma nova desilusão para os portugueses, porque ser uma província pobre da Espanha não é uma solução que se possa desejar e é uma traição a mais de oito séculos de história.

Sobre esta questão apresentei em tempo uma queixa na Procuradoria Geral da República por traição do Presidente da República e do primeiro-ministro aos interesses de Portugal e o favorecimento da Espanha. A queixa centrou-se na questão ferroviária e na recusa dos governos de António Costa em adoptarem de forma faseada a bitola europeia, o que tornou Portugal numa ilha ferroviária, com uma economia externa dependente dos centros logísticos espanhóis. Os resultados desta traição já são visíveis nos recentes investimentos estrangeiros a serem realizados na região de Valença, comprovadamente resultantes da existência de ligações ferroviárias daquele porto ao centro da Europa. Pela mesma razão, os investimentos estrangeiros em Portugal, em particular na indústria, emudeceram e será apenas uma questão de tempo até que a PSA e a AutoEuropa, entre outros investimentos do passado, deixem Portugal. Quem viver verá. ■