Portugal: uma ilha ferroviária na Europa

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À medida que Portugal fica mais pobre e mais mal dirigido, fica também menos poderoso e mais dependente do exterior, porventura menos digno e menos capaz de encontrar os caminhos do progresso. Para fazer uma das possíveis demonstrações desta afirmação, vou utilizar, uma vez mais, a questão da ferrovia.

Durante os governos de António Guterres, foi debatida a possibilidade de investir num comboio de alta velocidade, de Lisboa a Madrid, a fim de substituir o “Lusitânia” que levava uma noite inteira para chegar à capital espanhola. Falava-se então de que o novo comboio deveria fazer a ligação a Espanha pelo centro de Portugal, em direcção à cidade de Cáceres, porque isso permitiria ser parte da futura linha de alta velocidade entre Lisboa e Coimbra, quase metade de uma futura continuação até ao Porto e deixando as duas cidades, Lisboa e Porto, praticamente à mesma distância de Madrid. Uma vantagem adicional era ser uma ligação não directa a Lisboa, o que retirava um pouco o caracter napoleónico da centralidade de Madrid. Sabia-se que essa linha pelo centro ficava um pouco mais cara devido ao terreno acidentado, mas isso era largamente compensado com a parte que ficava já construída da futura linha de Lisboa ao Porto. Em qualquer caso, sempre defendi a prioridade ao comboio de mercadorias em direcção à Europa.

Foi em 2003, na Cimeira Ibérica da Figueira da Foz, que o governo espanhol insistiu com Durão Barroso que o novo comboio de alta velocidade de Lisboa a Madrid, financiado pela União Europeia, ligasse a Espanha mais a Sul, em Badajoz. A razão dos espanhóis era evidente, aumentar a subsídio europeu a Espanha e servir melhor toda a Extremadura. Ganhou a Espanha e assim ficou registado no acordo. O novo comboio seria obviamente em bitola UIC, já usada pelos espanhóis desde a construção da linha de alta velocidade de Madrid a Sevilha e, mais tarde, na ligação de Madrid a Barcelona e daí a França, que era e é, a prioridade espanhola.

Nos anos seguintes, enquanto a Espanha construía um dos mais modernos sistemas ferroviários da Europa, os governos portugueses não construíram nem um único quilómetro do acordado na Figueira da Foz, até que José Sócrates, depois de endividar o país com duplas e triplas auto estradas, encomendou a uma empresa chamada “Elos” o projecto, construção e manutenção da via acordada de Lisboa a Badajoz, em bitola UIC, de alta velocidade e via dupla, em que o projecto representava aproximadamente 150 milhões de euros. Foi então que chegou a bancarrota e o Governo de Passos Coelho, que se esforçava por contentar quem nos tinha emprestado mais dinheiro do que nós poderíamos pagar, resolveu anular a execução do projecto. Os 150 milhões de euros não foram pagos e são agora 220 milhões, com os juros já decididos em tribunal.

Finalmente, com a chegada ao poder de António Costa, a ideia do novo Executivo foi satisfazer as exigências financeiras do PCP e do Bloco de Esquerda e não, segundo o Governo, a realização de quaisquer fantasias ferroviárias. Para contentar o bom povo, o PS lá foi elaborando algumas histórias com pouca ou nenhuma relação com a realidade e quando, finalmente, reconsideraram, decidiram que não precisávamos da bitola UIC para nada e que poderíamos perfeitamente contentar-nos em modernizar os velhos comboios do século XIX. Isto implicava que os espanhóis eram burros, pois continuavam a gastar milhares de milhões de euros todos os anos na ferrovia de bitola europeia, e o PS é que era sábio porque não havia problema nenhum em chegar a França com os nossos comboios de bitola ibérica, diziam, ainda que nunca tenham explicado como isso se faria. Por este tempo, o velho comboio para Madrid já tinha desaparecido por decisão dos espanhóis, que não estavam para sustentar vícios caros, enquanto na Europa se insistia que o comboio de alta velocidade seria o futuro e muito melhor solução do que o avião para passageiros e do que o camião para mercadorias, por razões energéticas e ambientais, além de económicas, para mais com um subsídio de Bruxelas acima de 50% do custo para a construção das linhas.

Recentemente, depois do PS ter prescindido do PCP e do Bloco de Esquerda, o Governo voltou a decidir manter a bitola ibérica e foi posteriormente anunciada a construção de uma nova ferrovia nessa bitola, dita de alta velocidade, de Lisboa ao Porto. A história passou, portanto, a ser outra e a prioridade nacional é agora ligar Lisboa a Vigo, vá lá saber-se porquê, porventura por ser essa a vontade actual dos espanhóis, aparentemente interessados em isolar Portugal da Europa para beneficiarem de quase todo o investimento industrial na Península Ibérica.

No meio da total escuridão em que o Governo do PS gosta de manter os portugueses, acaba de ser realizada mais uma Cimeira Ibérica em que, aparentemente, se tratou apenas do gás e nada foi decidido, que se saiba, sobre o futuro da ferrovia. Sendo provável que a ligação de Lisboa-Madrid se fique pela construção em curso de Évora ao Caia em bitola ibérica e via única, com a velocidade máxima de 250 quilómetros, em contramão com o que os espanhóis fazem do outro lado da fronteira. Tendo o ministro anunciado que os atrasos se devem a que os espanhóis “não querem atar os sapatos”. Ou seja, a novidade é que não haverá uma ligação a Madrid em alta velocidade porque os espanhóis não avançam. Ou seja, agora que existe a União Europeia, é que o governo português concede que quem manda em Portugal é a Espanha. Manda quem pode e obedece quem deve, é a nova versão governamental do PS, com o estranho silêncio do Presidente da República.

Claro que, a brincar a brincar, o que está em causa é o futuro do comércio externo português, nomeadamente as exportações portuguesas para a Europa, com as empresas confrontadas com a política europeia de intermodalidade ferroviária e a substituição do transporte rodoviário (mais poluente, mais caro e mais taxado no atravessamento dos diferentes países) pela ferrovia, nomeadamente o novo transporte de camiões em plataformas ferroviárias, como já existe na Suíça e na Itália.

Claro que a CIP, a AFIA e outras associações empresariais reclamam, mas nada que preocupe António Costa, o PS e o Governo. A definição do futuro pertence à maioria absoluta do PS e se os portugueses não gostam, não tivessem votado neles. Trata-se da nova política deste Governo, o futuro e a economia que esperem.

Antes de terminar esta questão, talvez valha a pena recordar alguns pontos porventura importantes. No tempo em que havia algum pensamento estratégico em Portugal, os portugueses que planearam o início do caminho de ferro no século XIX não queriam nada com Madrid, de onde não vinha nem bom vento nem bom casamento, e, por isso, a ideia ao tempo era chegar a Paris e fizeram a ligação pelo Norte sem passar por Madrid. Nesse tempo, não havia comboios a 350 quilómetros por hora, que são caros e apenas indicados para a ligação entre grandes metrópoles que garantam o tráfego suficiente para a sua rentabilização, ou seja, em Portugal apenas a linhas de Lisboa a Madrid e de Lisboa ao Porto de passageiros, podem garantir essa rentabilidade. As mercadorias não precisam de mesma velocidade, ainda que possam viajar de noite a velocidade inferior e na mesma via.

Segue-se que o investimento necessário para uma nova via ferroviária, que usa uma tecnologia completamente diferente da anterior, é feita para durar pelo menos um século. No caso do Governo do PS estamos a consumir recursos em ferrovias para vinte anos e, aparentemente, apenas se os espanhóis deixarem. Não se trata de uma grande novidade, há cinquenta anos que planeamos um novo aeroporto e ainda não decidimos se precisamos dele ou não, ou, no caso afirmativo, onde deverá ficar.

Espero, portanto, que os leitores compreendam que com estas políticas públicas do PS a viabilidade económica de Portugal como país independente está em risco e, como tenho descrito, corremos o risco de se recomeçar a falar na união ibérica. Até lá seremos uma ilha ferroviária na Europa.