Produtividade: o maior cancro da economia nacional

0
935

A produtividade é, de há mais uma centena de anos, o maior cancro da economia nacional. Mas a sua resolução tem sido, e é ainda hoje, com raras excepções, o calcanhar de Aquiles da grande maioria das empresas portuguesas.

A solução não é fácil apenas porque, numa percentagem enorme, os empresários nacionais não o são: nada sabem do que é ser empresário. Fala-se da falta de instrução basilar do nosso operariado mas, para mim, isto esconde o verdadeiro mal do país.

Conheci e trabalhei durante anos numa firma estabelecida em Portugal mas que era sucursal de outra nascida e muito desenvolvida em França. Foi aqui que encontrei a prova de que a falta de produtividade não tem nada com a falta de escolaridade dos trabalhadores. Um dia, porque geria uma secção que dava uma resposta pronta à produção, atrevi-me a sugerir que ao pessoal sob a minha orientação fosse dada uma melhoria no salário. O administrador, concordando embora com a sugestão, disse-me não poder ir além do então estabelecido. E disse-me mais ou menos isto: não vai à sede este mês? Respondi-lhe afirmativamente e ele sugeriu: então, pergunte a F. qual é lá a produção. Fui e fiquei estarrecido ao regressar pois, logo na manhã em que, regressado, cheguei à empresa, ele chamou-me para saber como tinha sido a visita e, sem se ter esquecido, perguntou-me a resposta à pergunta que me mandara fazer: respondi: a produção lá é de 230 a 250 peças/dia por operária. Ele abriu a gaveta da secretária e mostrou-me o mapa da produção na empresa cá. Fiquei estarrecido e, se não tivesse visto o mapa do mês, não acreditaria: em França 230/250 por dia e por operária; cá, 70/80 por dia e por operária. Isto fazendo as mesmas peças, com o mesmo material e em máquina absolutamente igual! E ele disse-me: com este resultado, qualquer melhoria é uma aventura!

Havia lá, em diversos sectores, pessoas portuguesas que, uma vez que iam ter aqui o mesmo trabalho, tinham regressado para executar as mesmas peças. As que eram analfabetas tanto o eram lá, como cá. Mas lá produziam mais, aqui mandriavam! Nada tinha a ver com serem letradas ou iletradas.

É o país que somos e os hábitos que criámos, ou que deixamos criar. E, para justificar esta balda que é a execução do trabalho, onde cada qual se «desenrasca» como pode, temos o exemplo do próprio Governo, para o qual produzir é vergonhoso. Termos muito mais de 700 mil funcionários públicos constitui um assalto consentido à Nação. 

Vivo num concelho onde vim parar por questão profissional e aqui instalei, durante uns anos, uma pequena empresa que produziu óptimo e agradável trabalho que levou várias firmas a procurar-me no sentido de trabalhar para elas. Por isso, tive muitas relações com as Finanças do Concelho e que tinha, então, cinco (5) funcionários. Aquela gente (alguns até eram meus amigos) executava e despachava todo o serviço do concelho que, embora pequeno, tinha largo comércio, desenvolvimento industrial e largo turismo. Anos e anos ali fui sempre bem atendido e os cinco funcionários tudo despachavam a tempo e hora. E tinham apenas a secretária e a respectiva cadeira, uma máquina de escrever, uma calculadora, e a caneta ou lápis.

A minha empresa fechou e, por isso, eu deixei de ir àquele departamento estatal. Mas as Finanças tiveram de se instalar noutro local mais largo e têm aparelhos em abundância dos quais tudo sai pronto e executado ao simples toque de um dedo! Mas as cabeças giram adentro dos balcões e, dos antigos cinco, hoje serão multiplicados por 5 ou 6. Ocasiões há em que as filas de gente à espera de atendimento são mais que muitas.

É assim que, dos anteriormente 400.000 passámos para os muito mais de 700.000. As filas continuam. O trabalho manual é cada vez menos. E, não obstante estas farturas de gente, o erário público perde anualmente, milhões de milhões de euros.

Ora, se o Estado dá este exemplo de operacionalidade e de prontidão e, ao mesmo tempo, de laxismo no trabalho, como poderá exigir a outros trabalhadores mais produção? E os servidores do Estado também são não escolarizados?

Porém, se no campo estatal as coisas são assim e nenhuma delas é por falta de formação e educação escolar, em muitas empresas, também não é esta a razão da pouca produção. A principal prova está na nossa própria condição de país exportador de mão-de-obra, que já vem da era de quinhentos. Quem fez e organizou as terras daquilo que foi o nosso Ultramar? Os sábios? Os engenheiros? Nem sequer foram os poderosos! E, ainda, com esta etiqueta: que realizámos uma colonização humana e elevatória dos autóctones! Nenhum dos que nos sucederam na colonização realizou um trabalho igual ou sequer parecido com o nosso. Para além da valorização das terras, das suas matérias-primas, ainda elevámos o nível humano dos indígenas com a miscigenação em massa! Todos os grandes homens que estudaram as questões e os resultados das colonizações são unânimes em que nenhuma se assemelha, sequer, em humanismo, à dos portugueses!

 Mas há outra evidência, e ainda mais distinta: o êxito que, na generalidade, têm tido muitos dos portugueses que têm emigrado e enchido zonas de nações em todos os hemisférios. Nas décadas de 60 e 70 do século passado a França, a Suíça, a Inglaterra, a mesma Alemanha com a sua língua bastante mais arrevesada viram-se invadidos por legiões de nacionais portugueses que lá se instalaram, lá se aclimataram e lá encetaram trabalhos que, alguns, até dos respectivos afazeres se tornaram chefes e patrões. Algum destes países disse alguma vez não querer lá gente nossa? Não. Antes pelo contrário; procuravam-nos porque era gente trabalhadora. Humilde, sim, mas de garra em tudo o que era trabalho! Então, porque é que aqui, na sua terra, as coisas não se passam na mesma ordem de produtividade?

Para mim – e conheci imensas empresas nos anos da minha actividade profissional – há uma razão de ordem natural. Estão na sua terra, têm, muitos, as suas terrinhas de cultivo e estão no trabalho e a pensar no que vão semear, mondar ou, até, colher e aproveitar. Mas esta, sendo uma razão forte, nunca foi, para mim, a maior.

Para mim, a maior é que nós raramente tivemos verdadeiramente industriais! Pedindo desculpa da expressão, penso que nós tivemos muitos exploradores do trabalho alheio. Nem sempre por força – mas muitos por arranjo de vida.

Vejam se não há, ainda hoje, por este país fora, pessoas que arranjam uns tostões, montam uma fabriqueta de um artigo que se vende muito, arranja, uns ou umas trabalhadoras paga-lhes o salário mínimo – ou nem isso – e põe-se a fabricar. Quem vai buscar para orientar o trabalho? Um técnico sabedor? Não, porque isso é caro. Então apresenta-se ele, ou um filho, ou o filho de um amigo, sempre alguém que não saiba muito da trama, a dirigir, a orientar, e às vezes a insultar este ou aquela que fez uma asneira. Foi assim que começaram muitas empresas deste país.  

Conheci um industrial, com uma fábrica de valor e umas centenas de funcionários/as. Do que fabricava sabia pouco, embora tivesse gosto refinado. Um filho que o ajudava, já não ia meter as mãos, quer nas matérias quer na sua preparação. Então, tomou uma resolução: pôr um anúncio. Admitiu um técnico, que veio e preparou uma colecção. E quando ela foi apresentada, o industrial chamou o técnico, pagou-lhe o ordenado do último mês em que esteve e disse-lhe: já não preciso mais de si!

Um dia, naquela empresa francesa aonde estive, entrou um novo chefe de vendas, com ordenado correspondente. Um dia veio dizer-me que já correra a empresa toda e chegara à conclusão de que era da minha secção que algum material saía com defeito. Já lhe havia dito outras vezes que não, que visse bem. Chegou-me um dia com um braçado de peças e disse-me: isto está tudo fora de qualidade e já vi que o defeito é das máquinas da sua secção. Eu fiquei com o braçado das peças defeituosas nas mãos. Sem mais aquelas requisitei outras tantas, mandei-as passar por todas as secções, menos pela minha. Mandei acabá-las e analisei-as; estavam todas iguais. Chamei o esperto e fi-lo analisar uma por uma e, como todas tinham o mesmo defeito sem passarem pela secção, só lhe disse: o senhor, quando não gostar de mim, diga-me, que no instante a seguir já vou ao portão de saída!

É um exemplo das razões pelas quais as nossas empresas não progridem. Falta de conhecimentos e de dimensão dos donos que, entretanto, também não querem lá quem saiba mais que eles! ■