Quem, eu? Nunca nada é responsabilidade de Costa ou dos governos PS

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O morcego! À falta de melhor, culpa-se o morcego! O puto do morcego que havia de se meter com um pangolim, num mercado de animais vivos na China. É sempre bom culpar animais exóticos a milhares de quilómetros de distância, em realidades que nos causam estranheza e que podemos repudiar com alguma facilidade. Se um dos animais tiver um nome que faz lembrar um objecto musical que não sabemos muito bem qual e a tal realidade se passar numa China da qual pouco ou nada conhecemos, mas que, por razões ancestrais (ainda que profundamente racistas ou misantropas), aprendemos a desconfiar, tanto melhor. Se essa China for comandada por um tipo com um nome esquisito, de farda militar, então é ouro sobre azul. Aliás, a culpa por qualquer coisa grave, convém que esteja sempre o mais afastada possível de nós.

Mais ou menos o que Costa fez com Passos, primeiro, e com a pandemia, depois.

Portugal está pior do que há dez anos? A culpa é do Passos. A dívida pública está em máximos históricos? A culpa é dos governos PSD. A carga fiscal é a mais alta de sempre? A culpa é de décadas de políticas de direita. O combustível atingiu preços recordes? A culpa é dos mercados especulativos. Há falta de profissionais de saúde e o Serviço Nacional de Saúde está pelas horas da morte? A culpa é da pandemia. A economia pelas ruas da amargura? Foi o Covid, claro está. O caos de normas, restrições e decisões parvas, sem fundamento e sem efeito útil? O fenómeno pandémico, quem mais? Já agora: a crise política em Portugal? Os parceiros da “geringonça”, esses trastes, que não nos deixaram governar…

Há uma coisa ainda mais certa que a morte – até porque existem relatos de gente ressuscitada, seja em sentido figurado, bíblico ou até científico – que é a ausência de culpa dos socialistas. Quando, a custo, reconhecem face às evidências, que as coisas não correram bem (um médico de família para cada português…), enjeitam responsabilidades. No caso? Culpa da pandemia (ora aí está!) e da carreira de médico de família se ter tornado desatractiva. Assim, pumba! Como uma mulher que entra em coma aos vinte anos e desperta para lá da menopausa, com os peitos caídos, flacidez da pele e meia dúzia de quilos a mais por cada dente em falta… Assim, como se não fosse culpa sua, como se não tivesse sido governo durante seis anos, como se o fenómeno não estivesse identificado. Sobra, pelo menos, uma certeza (sim, porque o PS de Costa é feito de certezas e promessas): na próxima legislatura tornarão a especialidade (aquela com a qual quiseram acabar) muito mais atractiva. Serão o cirurgião plástico que retirará os excessos, curará dos “liftings” e fará com que os peitos voltem a desafiar as leis da gravidade.

O Costa do poucochinho pede uma maioria reforçada, seja lá o que isso for. Cheira a coisa que se diz ao mecânico, quando se quer por o carro por caminhos de terra: “Ó chefe, reforce-me aí as suspensões que este bicho é para durar…”. Pode ser mania minha, mas sempre tive necessidade de ver reforçado aquilo que é pouco estável… Costa não esclarece, portanto, já que Costa nunca esclareceu nada! Circula à volta da resposta, para não responder, quando lhe perguntam se apoiará um governo do PSD, caso este vença as eleições. Antecedendo, “os portugueses querem é uma solução estável e para isso é preciso uma maioria reforçada”, com o inevitável “Lá ber!” e esquecendo-se que essa solução estável deveria, “prima facie”, passar por si. Costa é, pois, o primeiro a contribuir para a instabilidade dessa solução. E fá-lo, de forma despudorada e bem mais grave, quando diz que se demitirá caso não ganhe as eleições, sem esclarecer a questão, deixando em aberto uma ferida purulenta que durará (pelo menos!) até a sua sucessão.

Bem sabendo que não capitaliza votos nos abstencionistas, contribui com mais uma inacção no que respeita aos confinados. A cerca de duas semanas das eleições não se sabe se, e em que que condições, estes poderão votar. Serão cerca de quatrocentos mil, tanto quanto se pode adivinhar. Coisa pouca, portanto… 

Convém que a memória não apague que a decisão de dissolução da Assembleia da República, por parte do Presidente, é conhecida desde finais de Outubro. Também muito antes do fim do ano, já se sabia que o número de confinados iria ter esta ordem de grandeza. O que fez Costa? Gizou um plano para que estas pessoas pudessem votar? Garantiu condições sanitárias para que tal acontecesse? Reuniu com todos os partidos para que se encontrasse uma solução comum, por todos aceite, por forma a poder contornar as limitações legais? Constituiu alguma comissão especial que pudesse encontrar a melhor solução? Não! Costa fez o que sempre fez. Nada! E acabou culpando os outros. A lei, a Comissão Nacional de Eleições, as autoridades sanitárias, o morcego…

Muito mais competentes, com muito maior sentido de Estado e, sobretudo, com muito mais respeito pelos cidadãos, as câmaras municipais têm procurado soluções para uma questão que, em bom rigor, não é da sua responsabilidade e que, em última análise, o próprio Governo pode vir a boicotar. Em caso de sucesso, porém, estará Costa na primeira fila para recolher os louros de uma ideia que não foi sua. Como o fez, por diversas vezes, num passado recente.

Já de Marcelo, o silêncio a que nos habituou, depois de ser ele a causar o problema. Estão bem um para o outro, partilhando os beijos encomendados que Costa leva a Cristina, enquanto núncio deste novo normal!

Entretanto, pode ser que Júdice sobreviva a um provável raio. Milagre? Não. Apenas a vitória da democracia sobre a soberba. Uma espécie de morcego dos tempos que se avizinham… ■