Quem se mete com ele, leva!

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Numa semana marcada pelas ameaças à liberdade de expressão e de imprensa, Portugal ficou a conhecer melhor o que os governantes socialistas pensam do jornalismo e dos jornalistas independentes – graças ao truculento e desbocado secretário de Estado Adjunto e da Energia, João Galamba.

“Estrume”, “coisa asquerosa” e “caso psicanalítico” foi como João Galamba se referiu na rede social ‘Twitter’ ao programa da RTP “Sexta às 9”, da jornalista Sandra Felgueiras, que no passado recente se travou de razões com  o polémico secretário de Estado a propósito do processo de concessão de uma exploração de lítio em Montalegre.

Foi em diálogo com um utilizador daquela rede social que Galamba “se descaiu”. Esse utilizador tinha partilhado o ‘link’ da última edição do programa “Sexta às 9”, relativo ao caso Zmar, e comentara em tom desafiante: “Todas as semanas abro uma garrafinha do @Joaogalamba e sento-me a ver o estrume por ele produzido”. O jovem secretário de Estado Adjunto e da Energia do Governo de António Costa não se conteve e ripostou: “Lamento, mas estrume só mesmo essa coisa asquerosa que quer ser considerada ‘um programa de informação’. Mas se gosta desse caso psicanalítico em busca da sua expiação moral, bom proveito”.

Ora sucede que Galamba teve um azar dos diabos neste seu ataque descabelado a uma jornalista e ao seu corajoso programa televisivo. Escassos dias antes, António Costa criticara Rui Rio precisamente por este “desenvolver ódio relativamente à comunicação social” e “odiar jornalistas”.

Para o primeiro-ministro, é preciso “respeitar” os jornalistas: “Um político num regime democrático pode até não gostar muito das coisas que os senhores escrevem, eu muitas vezes não gosto, mas temos de respeitar e não temos de desenvolver ódio relativamente à comunicação social”, afirmara Costa perante uma plateia de repórteres, para ficar bem ‘no retrato’.

Galamba, pelos vistos, não ouviu a lição do chefe e teve mais um acesso de ódio “de estimação” – a mesma raivinha que ele vem alimentando há dois anos, desde que a jornalista Sandra Felgueiras ousou incomodar Sua Excelência.

Em 2019, Galamba atacara violentamente a repórter devido a uma reportagem que dava conta da abertura de um inquérito pelo Ministério Público por suspeitas de crime económico, envolvendo o processo de concessão de uma exploração de lítio em Montalegre. O inquérito visava o ex-secretário de Estado da Internacionalização, Jorge Costa Oliveira, e o ministro-adjunto e da Economia, Pedro Siza Vieira. Na altura, Galamba considerou que Felgueiras divulgara “desinformação sobre a concessão mineira atribuída à empresa Lusorecursos” e que alimentara “mentiras”.

Ouvida no Parlamento, a jornalista acusou a então directora de Informação da RTP, Maria Flor Pedroso, de ter protelado a emissão da reportagem para depois das eleições de Outubro de 2019, alegamente com o intuito de não prejudicar a votação no Partido Socialista, embora o seu trabalho estivesse pronto para ser emitido logo em 13 de Setembro. A Direcção de Informação negou, mas a suspeita não desapareceu. Nem a suspeita nem a animosidade do belicoso João Galamba.

Esta animosidade voltou há dias a manifestar-se com uma virulência inusitada, chamando “estrume” e “coisa asquerosa” ao programa de Felgueiras. A Direcção de Informação da RTP apressou-se a “repudiar as declarações expressas pelo secretário de Estado Adjunto e da Energia João Galamba”, que – lê-se em comunicado oficial – “atentam contra o bom nome da RTP e da sua jornalista Sandra Felgueiras e desrespeitam a liberdade de informação”. Em comentário ao ‘Publico’, aquela Direcção acrescentou que, “vindas da parte de um membro do Governo, [as declarações] assumem particular gravidade. Mas nem por isso condicionarão o trabalho dos jornalistas da RTP”.

Percebendo que o caso poderia transformar-se num escândalo de dimensões perigosas, o primeiro-ministro António Costa fingiu que não tivera conhecimento dos comentários desbocados de Galamba e encarregou o insípido ministro do Ambiente, superior hierárquico do secretário de Estado, de garantir que o irrequieto jovem se “arrependeu” e “já apagou esse comentário”, dando o assunto por encerrado. E a bem comportada comunicação social do costume, sempre veneradora e obrigada, enterrou o caso e não voltou a pronunciar o nome de Galamba.

Conclui-se, assim, que em Portugal é permitido a um membro do Governo insultar, caluniar e tentar intimidar um jornalista de espírito independente e um órgão de comunicação televisiva sem que incorra em qualquer punição – desde que apague o comentário dias depois e mande dizer por terceiros que está “arrependido”. ■