Rankings escolares: as classificações batoteiras

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Os famosos “rankings” que elencam as escolas do país mediante os resultados dos seus alunos nos exames nacionais, assunto que fez manchete e que agitou a comunicação social dos últimos dias, que alimentou páginas nas redes sociais, a cumprir a tradição, desde que foram inventados. 

Para quem desconhece, o processo passa por ordenar, inferir e proceder a uma análise pouco criteriosa e pouco credível, apesar da objetividade dos resultados, sobre quais as melhores escolas do país e quais as piores. 

Trata-se de uma depuração deturpada, sendo que compara realidades escandalosamente incomparáveis. Um autêntico desfile de vaidades e de aparências, o mesmo será dizer que as crianças pobres perderam e as ricas ganharam, certo? Que grande novidade!!!

As notícias são veiculadas aparentando tratar-se de algo equitativo, ou justo. O que não é de todo verdade, os resultados representam uma verdadeira falácia, pela injustiça que encerram.

A comunicação social, que conscientemente amplifica e reproduz estas patranhas, presta-se a representar o papel de um desbragado braço armado de interesses particulares, a fazer-lhes propaganda descarada, pisando no trabalho duro de tantos professores, e guetizando ainda mais tantos miúdos.

Que sentido faz, uma corrida entre um cavalo e um caracol? 

Acham porventura que se o caracol se esforçar muito, imprimir toda a sua vitalidade, irá ganhar a corrida?

Rankings das escolas, só a própria expressão aquilatada já diz quase tudo sobre o que se pensa sobre a educação. Não passa de um instrumento ao serviço de uma agenda política para beneficiar a escola privada em detrimento da pública. 

Como se não bastasse, trata-se de algo completamente distorcido, enviesado, uma total aberração. As escolas são completamente diversas, faunamente falando: as privadas são equinos, enquanto que as públicas são moluscos. E não é por se fazerem estas ridículas comparações que se eclipsam as discrepâncias, os constrangimentos económicos, sociais, geográficos e a prática dos colégios, de escolherem os seus alunos conforme o pedigree.

O ensino privado tem maioritariamente resultados melhores nos exames porque faz uma concorrência desleal. Isto porque recruta e recebe alunos por castas, com apoio escolar em casa e explicações, transporte à porta e instalações de primeira. Sendo que, embora os rankings pretendam passar uma imagem de imaculada objetividade, de um facto palpável e comprovado, encerram, contudo, grande aleatoriedade, pois os seus principais indicadores, os alunos e os professores, são variáveis que estão em permanente mutação. 

Não existe fundamento científico nestes resultados, há apenas um negócio e uma repetida e gigante promoção. 

Se são os rendimentos que garantem o acesso aos colégios, não resta a dúvida de que é de um privilégio que se trata, e estas classificações batoteiras caluniam a escola pública de facilitista e de prestar um serviço público de menos boa qualidade, quando na realidade foi a escola pública, e não a privada, o principal garante do nosso desenvolvimento. Fez-nos passar de 30% de analfabetismo, em 1974, para uma percentagem residual. 

A escola pública alberga todos, tem obrigatoriamente de ser inclusiva, porque é uma escola pensada para todos: do mais miserável ao mais burguês, do menos capacitado ao mais capacitado, e mediante a realidade que possui, cumpre o melhor que pode com os escassos meios que lhe são proporcionados.

Estabelecer comparações aleatoriamente entre escolas, sem atender às variáveis das equações, e à realidade económica e social dos seus discentes, é ser-se no mínimo moralmente desonesto. 

A melhor garantia de sucesso de um aluno continua a ser o meio social de onde provém e os seus bastidores familiares. 

É contra a desigualdade social que atualmente a escola pública se bate. Todos os dias se trabalha para que os alunos que a frequentam possam almejar melhor qualidade de vida do que as gerações anteriores. 

A notícia, metralhada pela comunicação social, é que a escola pública está a perder a luta, sendo certo que estes “rankings” servem apenas para estigmatizar as escolas que aparecem nos últimos lugares, como se não estivessem a cumprir bem o seu papel, à luz da ideia de que a competição e a meritocracia favorecem a aprendizagem. ■