Reencontrar Francisco Sá Carneiro

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De facto, reencontrar Francisco Sá Carneiro remete-me para um convívio intenso, denso e desafiante, particularmente em tempos de múltiplas exigências e disciplina mental para, simultaneamente, enfrentar os desafios e situações, imprevisíveis e inesperadas, em tempos de Revolução pró-comunista, no plano externo ao partido político que estávamos a constituir e ao qual pretendíamos atribuir uma identidade ideológica, e, ao mesmo tempo, defendê-lo, desde logo, dos ataques externos, tendentes a asfixiá-lo e a semear a discórdia política no seu núcleo fundador, que teve três eixos fundadores, a partir do Porto, passando por um núcleo intelectualmente muito forte em Coimbra e por um núcleo politicamente mais tecnocrático e disperso em Lisboa.

Sá Carneiro emergiu, a custo, nesse ambiente e sempre enfrentou resistências internas em relação à sua conduta política, particularmente instaladas na intelectualidade lisboeta, talvez porque aí a “pressão ideológica” dissuasora era mais forte, dada a proximidade e a “intimidade” com que aí se “convivia” com outras forças políticas, que não queriam que o PPD existisse, desde logo, porque Sá Carneiro, desde antes do 25 de Abril, se afirmou como uma personalidade política a ter em conta, por ser um “catalisador” natural de respeitabilidade política e porque disputava um espaço ideológico que o Partido Socialista queria em exclusividade, como ainda hoje pretende!

Num ambiente revolucionário, sem regras e sem Lei, a viver no Porto, íamos a Lisboa, ainda na fase entre 6 de Maio (apresentação do PPD) e o Congresso da fundação formal (em Novembro 74), às reuniões da Comissão Política, e parecíamos uns estranhos, que chegavam a horas e esperávamos três horas para que os nossos companheiros que aí viviam se reunissem para trabalharmos.

Este facto é relevante, por representativo, para se entender porque Sá Carneiro sempre enfrentou divergências sobre orientação política por influência do «ambiente político que acontecia na capital do País, onde os que aí exerciam política eram sujeitos a uma maior «pressão» de natureza ideológica/comportamental!

Esta observação serve apenas para realçar a firmeza da personalidade de Francisco Sá Carneiro, que a tudo ia resistindo, de forma inabalável, sem se exaltar, sempre contido mas muito determinado, o que infundia em todos nós, os poucos, seus mais próximos, a dose de confiança que nos motivava à lealdade ao seu comportamento e à coragem psíquica e de atitudes que, implicitamente, ele nos exigia!

Vivi com ele muitos desses momentos, e reconheço que tive de realizar tarefas, no Verão Quente de 1975, para as quais parti inseguro e com fundados receios!

Reuniões que tive de preparar no Porto com alguns militares. Com o Comandante da Polícia no Porto, para nos proteger, quando fomos ao Quartel CICA 3, na Rua D. Manuel II, manifestar apoio aos militares que, sós, guardavam essa unidade militar, desactivada, por Pires Veloso, no contexto da insubordinação dos SUV / Soldados Unidos Vencerão / Serra do Pilar / Gaia.

Nas viagens que com ele realizei, às portas dos quartéis das regiões militares hostis, Vila Real, Coimbra e outras, para aí fazermos um comício e entregarmos ao Comandante uma moção de apoio ao Governo Provisório em que estávamos integrados, enfim, à ameaça de 500 esquerdistas da FUR que nos esperavam ao fundo na Avenida dos Aliados, quando desfilámos pela Cidade do Porto a caminho do Governo Civil / Cal Brandão e do Quartel General / Pires Veloso, para apoiarmos esse Governo, quando o Partido Comunista / UEC  andava, também, à noite pelas ruas e me partiu os vidros do carro por ter colocado um símbolo do PPD e me espancou, até ir receber tratamento no Hospital Stº António, sim, foi nesse tempo que senti e vivi a plenitude da personalidade determinada de Francisco Sá Carneiro e as múltiplas dimensões do seu sentido de risco!

Esse foi, simultaneamente, sempre, o desafio que muitos não conseguiram acompanhar, num tempo de muita pressão, até caluniosa, contra Sá Carneiro, no plano pessoal e no político, que determinou dissidências e conflitos, que ele sempre enfrentou, por vezes, de forma radical, como, por exemplo, em Janeiro de 1978, quando no Congresso do Porto decidiu renunciar ao cargo de Presidente do  PPD/PSD. 

Foi ímpar e marcante a presença de Sá Carneiro no contexto político-revolucionário da política portuguesa, pós 25 de Abril, que deixou «doutrina», que, infelizmente, se está a distorcer, porque há uma geração que vive da política, sem valorizar o quadro de valores político-sociais e éticos e que evoca Sá Carneiro, frequentemente, mas que não conhece a actualidade dos Princípios Programáticos do PPD. E com isso, por que ele sempre se bateu, é que perde a legitimidade de o invocar porque desrespeita o seu autêntico legado Político e Ético, o que lhe custou a própria Vida! ■