Respeito e admiração pelos Retornados

Passados quase 50 anos do 25 de Abril de 1974, é cada vez mais premente fazer um amplo balanço histórico, baseado na verdade dos factos, das transformações e das enormes dificuldades a que uma parte significativa da população portuguesa foi sujeita, no pós-revolução.
Se por um lado a deposição do antigo regime trouxe consigo conquistas fundamentais, tais como a liberdade de expressão, a emancipação das mulheres e, muito em especial, a democracia participativa, princípios que actualmente estão a ser postos em causa, por outro lado abriu chagas profundas na sociedade portuguesa a descolonização, pela forma como foi feita e por quem foi feita.
Após o início das acções armadas em 1961 contra Portugal no Ultramar português, nomeadamente em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, promovidas de forma artificial, cobarde e ideológica pelas grandes potências, e diga-se, também fomentadas por indivíduos ligados ao partido comunista português, a metrópole e o regime foram obrigados a reagir.
Para além do recrutamento militar massivo de jovens portugueses que foram defender, com patriotismo e abnegação, o nosso território nacional, também as populações civis afluíram àquelas províncias para empreender um esforço absolutamente notável e cujo empreendedorismo nos deve orgulhar muitíssimo. Foram planeadas e construídas ou reabilitadas, quase de raiz, várias cidades, redes viárias, ferrovia, portos e aeroportos que, por ter tido a oportunidade de trabalhar em dois momentos da minha vida em Angola, pude constatar.
Por sua vez, a escolaridade e a actividade desportiva eram uma preocupação no Ultramar porque tal aproximava todos e existia um sentido de partilha e união, quanto à nossa Pátria.
As explorações agrícolas, a indústria e o comércio tiveram um extraordinário desenvolvimento, em que mestiços (surge a pergunta: qual dos países que detinham territórios ultramarinos se misturou sem preconceito com os locais criando, podendo-se assim dizer, uma nova raça, a dos mestiços? – Portugal sem qualquer dúvida!), pretos e brancos, todos irmãos e todos portugueses, juntos, construíram as infra-estruturas que hoje, apesar das fratricidas guerras civis que entretanto deflagraram, ainda funcionam passados 49 anos.
As Províncias Ultramarinas foram a terra da oportunidade para tantos e tantos que aqui no nosso continente europeu não encontravam alternativas por via de uma estagnação social e pobreza do solo, que na esmagadora maioria dos casos não lhes permitia progredir.
Entendo que o Governo e os governantes portugueses que negociaram a entrega dos territórios ultramarinos aos grupos armados, ligados ao partido comunista e à União Soviética, a História irá seguramente, a seu tempo, avaliar e julgar. Esta é pelo menos a minha expectativa, e a de mais de meio milhão de portugueses retornados, pois não presenciámos, até ao momento, uma preocupação por parte dos governantes em que se faça justiça.
Essas largas centenas de milhares de portugueses que, por retirada das forças armadas portuguesas, ficaram à mercê dos grupos armados, não tiveram outra alternativa senão fugir, nuns casos para a África do Sul, outros para outras latitudes, mas a esmagadora maioria para Portugal Continental. Esse movimento de retorno iniciou-se a partir de Setembro de 1974 e foi aumentando cada vez mais com a aproximação das datas das respectivas independências.
Foram chegando de forma anónima, durante meses, ignorados quer pelas autoridades nacionais quer pela própria imprensa que não pretendia dar visibilidade a uma das maiores afrontas e injustiças que foi perpetrada por dirigentes do Estado Português contra o seu Povo. Pelo contrário, fizeram crer interna e internacionalmente que a ponte aérea e a recepção dos portugueses retornados fora um êxito total, facto que não é verdadeiro.
Em vez de apoiados e acarinhados, num assomo solidário que se exigia, por tão vergonhoso processo de descolonização, os portugueses que viviam e trabalhavam nas Províncias Ultramarinas foram recebidos com desconfiança pelas autoridades, que entendiam que os mesmos deviam ter ficado, apesar de abandonados à sua sorte por umas forças armadas que permitiram que muitos tivessem sido massacrados ou presos em condições infra-humanas.
A 31 de Março de 1975 foi criado o IARN – Instituto de Apoio aos Retornados Nacionais. Daí que a palavra “Retornado” tenha ficado na memória colectiva, para alguns até com uma conotação negativa.
É o momento de fazer justiça e homenagear todos os nossos compatriotas e famílias que se cruzam muitas vezes com as nossas. Quantos de nós não temos exemplos próximos de familiares ou amigos com presença em África, que regressaram sem nada, sem um único pertence, apenas com a sua vida e a roupa que vestiam.
Todos estes portugueses, trabalhadores e patriotas, dos quais muitos pela força da vida e idade já cá não estão, merecem uma homenagem do Estado Português e da cidade de Lisboa, que viu centenas de milhares a chegar. Esse reconhecimento e homenagem deve ser prestado, para que as feridas causadas possam fechar e a reconciliação se verifique.
Os filhos e os netos, como eu, daqueles que regressaram do ultramar, os Retornados, não esquecem e, não sendo possível uma justa reparação material que se impunha, pelo menos que sejam lembrados com respeito e admiração pelo País que os abandonou.
Pretendo, por isso, que seja aberto um concurso público para a contratação de um escultor reputado que possa erigir um monumento que homenageie todos os portugueses e respectivas famílias que, durante os anos de 1974 e 1975, antes e após a independência das antigas Províncias Ultramarinas, se viram obrigados a regressar a Portugal Continental. Espero ainda a renomeação da Rotunda do Relógio para Praça dos Regressados das Províncias Ultramarinas. ■

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