Sempre que se esteve perante avanços tecnológicos muitos foram os empregos mais tradicionais perdidos, apesar de outros novos terem surgido. O exemplo mais impressivo foi o da industrialização, quando as fábricas começaram a conseguir produzir em série vários produtos de forma mais eficiente e barata. A guerra entre os teares manuais e os mecânicos foi um dos episódios mais agressivos nessa luta entre o novo e o velho.
Agora, sectores como “telemarketing”, contabilidade, tradução, ensino, programação e mesmo investimento são algumas das profissões que estudos recentes indicam que irão mudar à medida que a Inteligência Artificial se torne mais popular, segundo especialistas contactados pela espanhola agência “EFE”.
Grandes empresas como a “Microsoft” ou a “Google” defendem que os “softwares” que simulam as conversações humanas (“chatbot”) são um co-piloto ou assistente para os utilizadores em geral, mas muitos especialistas dizem que este tipo de tecnologia irá mudar muitas profissões, quer tornando o seu trabalho mais simples e rápido, quer substituindo empregados ou criando novas profissões.
As capacidades do “GPT-4”, a última versão do “OpenAI” – criadores do “ChatGPT” – podem resolver “novas e difíceis tarefas” com “desempenho a nível humano” em áreas como matemática, codificação, medicina, direito e psicologia, de acordo com um artigo publicado em Março por investigadores da “Microsoft”, uma empresa que investiu milhares de milhões no “OpenAI”.
Ainda na nossa última edição referimos que o primeiro vice-presidente da bancada do PSD, Ricardo Baptista Leite, decidiu suspender o seu mandato de deputado para dirigir uma organização internacional que promove investigação em Inteligência Artificial e em digitalização para a Saúde. Trata-se da “I-Dair”, com sede em Bruxelas.
“Telemark” está exposta
O professor da Universidade de Nova Iorque Robert Seamans, que esteve envolvido num estudo sobre como os modeladores de linguagem como “ChatGPT”, “GPT-4”, “Bing” e “Bard” irão afectar as profissões, apontou que o “telemarketing” demonstrou ser a profissão “mais exposta a mudanças na modelação linguística”.
“O ‘telemarketing’ foi a profissão que encontrámos mais exposta a mudanças na modelação linguística ou avanços na modelação linguística, seguido por outras profissões como o ensino”, disse Seamans.
As cinco principais profissões da lista são: profissionais de “telemarketing”, professores universitários de língua e literatura inglesa, de língua estrangeira, de história e de direito.
Outras profissões não educacionais que surgem entre as 20 mais afectadas foram: sociologia, ciência política, mediadores e juízes e magistrados.
Robert Seamans salientou que isto não significa que estes trabalhos sejam substituídos por IA, pois o que pode acontecer é que a IA venha a ser “complementar ao trabalho que está a ser feito”.
Outro estudo publicado na semana passada, que também analisou o “impacto no mercado de trabalho da modelação linguística”, indica que os gestores estão entre os profissionais cujas carreiras estão mais expostas às capacidades da inteligência artificial generativa, uma vez que pelo menos metade de todas as tarefas contabilísticas poderia ser concluída muito mais rapidamente com esta tecnologia.
O mesmo é válido para matemáticos, intérpretes, escritores e quase 20 por cento da mão-de-obra dos EUA, segundo o estudo realizado por investigadores da Universidade da Pensilvânia e do “OpenAI”.
Um outro estudo realizado por investigadores do “GitHub” (plataforma de “software” propriedade da “Microsoft”) avaliou o impacto da IA generativa nos criadores de “software”.
Neste teste, os programadores a quem foi dada uma tarefa de nível básico e encorajados a utilizar a aplicação “Copilot” completaram a sua tarefa 55 por cento mais rapidamente do que aqueles que a executaram manualmente.
Um outro estudo, sobre se “Poderá o ‘Chat
GPT’ melhorar a decisão de investimento do ponto de vista da gestão de carteiras”, revelou que o “ChatGPT” já é um melhor gestor de carteiras do que uma pessoa inexperiente, embora a IA esteja ainda muito longe de conseguir gerir dinheiro de investidores no mercado de acções.
Desfazer mitos
Por outro lado, houve quase 800 mil novas vagas de emprego relacionadas com IA nos EUA em 2022, de acordo com dados compilados pelo Instituto do Centro de Inteligência Artificial da Universidade de Stanford.
Questionado sobre que carreira recomendaria a um adolescente, Robert Seamans disse que recomendaria primeiro encontrar uma carreira baseada nos seus gostos e paixões, para depois investir nas competências humanas, como o julgamento ou o pensamento crítico, uma vez que “são competências que servem para muitos tipos diferentes de profissões”.
Atento ao fenómeno está o Parlamento Europeu (PE). Em textos didácticos, tenta desfazer uma série de mitos já criados à volta da IA. A inteligência artificial é considerada como a “tecnologia que define o futuro”.
Mas o que é exactamente a IA e de que forma afecta as nossas vidas? Questiona o PE.
A Inteligência Artificial é a capacidade que uma máquina tem para reproduzir competências semelhantes às humanas, como é o caso do raciocínio, a aprendizagem, o planeamento e a criatividade.
A IA permite que os sistemas técnicos percebam o ambiente que os rodeia, lidem com o que percebem e resolvam problemas, agindo no sentido de alcançar um objectivo específico. O computador recebe dados (já preparados ou recolhidos através dos seus próprios sensores, por exemplo, com o uso de uma câmara), processa-os e responde.
Os sistemas de IA são capazes de adaptar o seu comportamento, até certo ponto, através de uma análise dos efeitos das acções anteriores e de um trabalho autónomo. ■




