Sem Rumo: a bazuca da asneira

"A economia portuguesa é um barco à deriva pilotado por advogados e comandado por um governo ignorante e teimoso sob a orientação geral da ‘geringonça’. A crise económica e a bancarrota provocada pela dívida são só uma questão de tempo."

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Li há dias um lúcido artigo do socialista Sérgio Sousa Pinto que explicava de forma pedagógica a insustentabilidade das políticas do Governo, nomeadamente na economia, políticas baseadas em salários baixos e numa fiscalidade exagerada. Suponho que outros socialistas pensarão o mesmo, o que nos poderá dar alguma esperança de que as asneiras em curso e os resultados desastrosos dessas políticas possam reconduzir o Partido Socialista à visão e ao bom senso que caracterizaram o pensamento de Mário Soares.

Uma das asneiras deste PS, que tenho sublinhado em várias ocasiões, reside na tentativa do Governo de salvar as empresas da metade pobre da economia dual e através dessas empresas salvar os empregos. António Costa e o seu ministro da Economia não compreendem que temos em Portugal um número excessivo de muito pequenas empresas – cerca de noventa por cento do total das empresas portuguesas – em que pelo menos metade não é competitiva numa economia moderna e sustentável, empresas que desaparecerão com ou sem ajudas.

Acresce que o desemprego é uma fatalidade das crises como esta do Covid-19, sendo que há muito o Estado Social providencia o subsídio de desemprego para minorar a tragédia do desemprego. Ou seja, tentar proteger os trabalhadores através de apoios às empresas para manter a funcionar artificialmente o emprego é um processo muito complicado e fortemente injusto, porque apoia umas empresas e não outras, com critérios de alta subjectividade. O caso recente da empresa Dielmar, que consumiu milhões de euros de apoios do Estado e acabou por fechar com o desemprego de cerca de 400 trabalhadores, é exactamente o que vai acontecer a uma parte importante das empresas subsidiadas pelo Estado durante esta pandemia.

Desde o início da pandemia que tentei explicar que os salários representam nas pequenas empresas a maior parte da despesa e que as empresas que perdem mercado e receitas têm de adequar o número de trabalhadores às necessidades do mercado, reduzindo o custo dos salários. Manter esses trabalhadores através do subsídio de desemprego é o que o Estado deve fazer e não sustentar empresas sem conhecer as possibilidades de sobrevivência de cada uma, o que é obviamente impossível em qualquer país e nomeadamente em Portugal.

Suspeito que uma parte importante do dinheiro da “bazuca” vai ser consumido na sustentação deste erro. Todavia é o que fará um governo ignorante e teimoso, que não ouve os seus próprios militantes, como é o caso de Sérgio Sousa Pinto. Governo que não compreende que nas actuais circunstâncias económicas a melhor solução é a criação de mais empregos industriais nas empresas competitivas, através do apoio ao investimento na indústria, porque a indústria é o único sector que cria empregos para trabalhadores com baixas qualificações, em trabalhos repetitivos de fácil e rápida formação.

Ou seja, como defendi na minha proposta de Plano de Recuperação e Resiliência, o dinheiro da “bazuca” deveria ser gasto na educação, em particular nas creches e no pré-escolar, bem como a apoiar o investimento, nacional e internacional, na indústria, para melhorar a dimensão e a competitividade das empresas portuguesas competitivas e exportadoras. São essas empresas que poderão criar empregos melhor remunerados e que poderão absorver os trabalhadores que perderão o seu emprego. Trata-se de uma política com futuro, que não desperdice o dinheiro que nos chega de Bruxelas, de facto uma proposta para uma nova economia portuguesa, que interrompa o ciclo negativo da baixa produtividade, que seja um verdadeiro plano de mudança e não a continuidade dos erros que nos conduziram até aqui.

Como é evidente, todas as novas empresas, nacionais e estrangeiras, são bem-vindas em qualquer sector de actividade, nomeadamente se empresas inovadoras e que utilizem tecnologias avançadas, mas devemos compreender os limites desta opção, dado que uma dificuldade do país é representada pelas baixas qualificações de muitos milhares de trabalhadores, que sobrevivem em pequenas empresas com baixos rendimentos e um futuro incerto. São principalmente pequenos empresários e trabalhadores de feiras e mercados, em minimercados das cidades, cafés bares e restaurantes, pequenas lojas de produtos de muito baixo valor, agricultura de subsistência, pesca artesanal, etc.. Empresários e trabalhadores que sobrevivem com grandes dificuldades e que devido às suas baixas qualificações dificilmente encontrarão empregos com salários decentes no empreendedorismo nacional. Trata-se de uma grande parte da economia portuguesa altamente dual, que contribui muito pouco para o conjunto da economia e zero para as exportações, além da sua pequena contribuição para evitar as importações.

Sem compreender estas características da economia portuguesa, em grande parte criadas pelos baixos níveis de escolaridade, falar de grandes investimentos em projectos de capital intensivo, como é o caso do hidrogénio ou de outros casos semelhantes, é chover no molhado. Já procurar grandes projectos industriais que empreguem alguns milhares de trabalhadores, como é o caso da Autoeuropa, empresas com mercados criados, é o que Portugal precisa acima de tudo e no curto prazo. Infelizmente, não será com a inocência do actual secretário de Estado do sector que atrairemos essas empresas, para o fazer são precisos quadros seniores com boas relações internacionais, que conheçam os mercados e sejam credíveis juntos dos investidores. O grande investidor norte-americano Elon Musk cometeu um grande erro em investir numa nova fábrica em Berlim e alguém lhe poderia ter explicado que a localização em Portugal tem inúmeras vantagens.

Em resumo, a economia portuguesa comandada por advogados, como António Costa e o ministro da Economia, sob a orientação geral da “geringonça”, é um barco à deriva. A crise económica e a bancarrota provocada pela dívida são só uma questão de tempo. Então, as desculpas e as justificações do PS serão muitas. ■